15 de março de 2026
Escrever sobre um mundo que nos excede a todos
Entre petróleo, guerras e incertezas
Artigo Exclusivo para subscritores
A história repete-se com uma regularidade inquietante. É como assistir a uma novela e perceber que a fórmula é sempre a mesma e que o final raramente surpreende. Mudam os países, mudam os líderes e mudam as narrativas políticas. No entanto, quando observamos com atenção o centro das grandes tensões internacionais das últimas décadas, volta a surgir sempre a mesma realidade.
O petróleo.
Depois da chamada libertação da Venezuela, a escalada recente da guerra envolvendo o Irão recorda-nos que muitos conflitos surgem envoltos em discursos estratégicos, alianças militares e argumentos de segurança internacional. Contudo, por trás de grande parte dessas narrativas permanece a mesma questão central. O controlo da energia e das rotas por onde ela circula. O Estreito de Ormuz continua a ser uma das artérias mais sensíveis do planeta. Por ali passa uma parte significativa do petróleo mundial. Sempre que essa passagem é ameaçada, o
impacto deixa imediatamente de ser apenas regional e transforma-se num problema global.
Mas o mundo já não vive apenas a antiga guerra do petróleo. O século XXI trouxe novas camadas a esta disputa geopolítica. Aos hidrocarbonetos juntam-se agora os minérios estratégicos, as terras raras e outras matérias-primas essenciais para a economia tecnológica. Sem estes recursos não existem baterias, não existem chips e não existem sistemas de defesa modernos. O controlo destes materiais tornou-se tão estratégico como o controlo das fontes de energia. A esta realidade soma-se um novo território de disputa. A informação.
Quem controla a informação molda narrativas, influencia sociedades e condiciona decisões políticas. As guerras modernas travam-se também nos fluxos digitais, nas redes e nos sistemas de comunicação.
Existe ainda outra fronteira que não pode ser ignorada. O espaço.
Os satélites tornaram-se uma infraestrutura essencial do mundo contemporâneo. Através deles passam as comunicações, a navegação, a vigilância e grande parte da inteligência militar. O domínio do espaço permite aquilo que caracteriza cada vez mais os conflitos modernos. A guerra de precisão.
Hoje um ataque pode ser conduzido a milhares de quilómetros de distância com uma exatidão que há poucas décadas parecia impossível.
A guerra tornou-se tecnológica, cirúrgica e muitas vezes quase invisível para quem observa de longe. No entanto, apesar de toda esta precisão, continuam a morrer civis, escolas continuam a ser atingidas e vidas continuam a perder-se neste jogo fútil de poder travado pelos senhores da guerra.
Mortes, deslocações, instabilidade e medo continuam a marcar o quotidiano de milhões de pessoas. Mesmo aqueles que vivem aparentemente em segurança sentem crescer uma pergunta silenciosa dentro de si.
Até quando?!
À guerra na Ucrânia juntou-se agora a tensão crescente no Médio Oriente. Ao mesmo tempo, muitos regimes e ditadores continuam a resistir às mudanças ou a preparar cuidadosamente as suas sucessões.
É neste cenário internacional instável que Portugal vive também um momento de transição, mas felizmente de forma pacífica. Esta foi a primeira semana de um novo Presidente da República. Como em todos os começos, existe expectativa, curiosidade e esperança sobre o tom que marcará este novo ciclo político. Espera-se que a decência, a integridade e a humanidade voltem a estar na moda. Mas foi também a semana da despedida de um Presidente que marcou profundamente o estilo da presidência portuguesa. Marcelo Rebelo de Sousa. Durante os seus mandatos construiu uma relação muito particular com o país. Uma presidência de proximidade, de presença constante e de contacto direto com as pessoas. Num mundo político muitas vezes dominado pela distância institucional, trouxe algo aparentemente simples, mas profundamente poderoso.
O abraço. Pode parecer apenas um gesto, mas acabou por se transformar numa forma de liderança. Num tempo em que o mundo parece cada vez mais dominado pela lógica da força, da estratégia e do conflito, esse gesto lembrou-nos uma verdade essencial. A política continua a ser feita por pessoas e para pessoas.
Talvez seja precisamente disso que o mundo mais precisa neste momento. Enquanto as grandes potências disputam petróleo, minérios, rotas estratégicas e até o domínio do espaço, os cidadãos continuam a procurar algo muito mais simples e muito mais humano. Segurança, estabilidade e esperança. Portugal inicia agora um novo capítulo e precisamos de líderes
capazes de trazer palavras e ações de paz, capazes de governar em benefício dos seus povos e não apenas alimentando demagogias ou slogans incendiários.E talvez seja por isso que certos gestos contam tanto. Num mundo onde as guerras continuam a nascer das mesmas disputas antigas, talvez nunca tenha sido tão importante recordar o valor de um abraço.
Esta semana trouxe também outra despedida importante para a cultura portuguesa. A partida de António Lobo Antunes, um dos maiores escritores da nossa língua. Dizia ele que o escritor é apenas um homem comum a braços com uma criação que o excede. Talvez seja também essa a sensação de quem tenta compreender o mundo através das palavras.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância. Procuro apenas quebrar as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




