14 dezembro 2025
E Se o Partido Fosse das Mulheres?
Mães, poder e paz: uma reflexão a partir do Palácio da paz.
Depois da minha última crónica, tive o prazer de estar sentada no meio de muitas mulheres, vindas de todo o mundo, num evento que ocorreu no dia 10 e que teve como palco o Palácio da Paz, em Haia, na Holanda. Fica aqui a nota de que muitas pessoas não sabem que raio são os Países Baixos e, por isso, vou usar a nomenclatura que se usou durante tanto tempo e que não traz confusão, ficando desde já o meu pedido de desculpas a Sua Majestade.
O evento “Mulheres & Paz” trouxe tanto que poderia escrever várias crónicas sobre o que ali foi dito e vivido. Mas esta é uma crónica de domingo e quer-se também fácil de digerir. Por isso, não vou trazer a abundância de temáticas que ali foram abordadas. Em abono da verdade, o que ali se disse foi novo? Nada. E isso, por si só, também diz muito.
Houve, no entanto, um momento que pareceu ter saído de encomenda para um encadeamento perfeito com a minha última coluna, onde refleti sobre a possibilidade de existir um partido simplesmente chamado “Mulheres”. Não de esquerda nem de direita, mas de todas, para um mundo que defenda as mulheres e lhes traga o suporte de que precisam para serem, nomeadamente, mães. E, refletindo um pouco mais, cheguei à conclusão de que deveria ser o partido das mulheres e dos seus filhos e filhas. O que não poderia ser mais inclusivo.
Voltando a esse momento. Um dos oradores, homem, dizia que o trabalho das mulheres na sociedade civil era extraordinário, mas que, infelizmente, depois não eram ouvidas nas mesas de decisão, porque essas são políticas e não é aí que estão as mulheres.
Ora, voltamos aos silogismos.
As mulheres precisam de ser ouvidas e de participar nas decisões.
As decisões são políticas.
Logo, precisamos, naturalmente, de mulheres na política.
Indo mais longe.
As mulheres não têm as políticas de que precisam.
As políticas são baseadas em ideologias partidárias.
Logo, precisamos de um partido de mulheres.
São silogismos perfeitos? Não. Mas também não é essa a intenção. Trata-se apenas de provocar pensamento. E é do pensamento que nascem as mudanças.
Deste evento ficou-me ainda gravada a iniciativa de duas mães, líderes de duas organizações, que hoje partilham um objetivo comum:
“Não queremos que matem os nossos filhos, nem que os nossos filhos matem ninguém.”

Uma mãe israelita. Outra, uma mãe palestiniana. E foi ali, no meio delas, que o meu próprio mundo voltou a fazer sentido. O mundo das mães. Mães que não querem que os seus filhos matem nem morram. Mães que choram vales de lágrimas por um mundo que se destrói. Mães que não querem saber dos homens que lideram estas guerras. Há forma de haver paz, e elas mostram-no. Foi ali, nas lágrimas que não conseguimos conter, que eu própria voltei a acreditar que, na nossa união, está a salvação do mundo.
Foi neste evento que estas mulheres apresentaram um gesto simbólico e profundamente político: a Mothers’ Call. Um apelo lançado por mães, para mães e para quem governa, que traça uma linha vermelha clara contra a violência como linguagem política e exige a proteção da vida dos filhos, de todos os filhos. A Mothers’ Call não é um manifesto partidário nem uma declaração ideológica. É um compromisso humano. Mas talvez devesse ser. talvez esse seja o partido que falta !
Assinei a Mothers’ Call com responsabilidade e com pleno sentido de agência. Não como um gesto vazio, mas como uma escolha consciente de posicionamento. Porque há momentos em que a neutralidade deixa de ser virtude e passa a ser omissão. Aquele painel, coberto de nomes escritos à mão, não era apenas um documento. Era um compromisso coletivo contra a normalização da morte e contra a indiferença política. A paz não é ingénua. A paz exige coragem. E, naquele momento, a coragem tinha caligrafia de mãe.

Das notícias mundiais, não vos falo hoje que ando cansada delas, das notícias. Tenho visto, e … os imbecis continuam nas suas imbecilidades do costume. Rebentam barcos com bombas, dançam de forma idiota, recebem prémios que nunca mereceram, mas que compram e que lhes dão o mar de ego que os move. O reflexo de quem nada mais tem do que a pobreza de si mesmos. E, ainda assim, continuam a ser os senhores do mundo.
E como sempre… que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




