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21 dezembro 2025

Inteligência artificial, falsas identidades e a erosão silenciosa da confiança

Pensar antes de partilhar, exigir responsabilidade a quem lucra com a atenção e lembrar que nenhuma tecnologia substitui o dever humano de verdade.

Escolhi esta temática esta semana por uma razão muito concreta. Circula ativamente no YouTube um canal chamado The Bridge Current, que utiliza de forma sistemática a imagem, o nome e o tom discursivo de Yanis Varoufakis, antigo Ministro das Finanças da Grécia, académico e figura pública reconhecida no espaço europeu. À primeira vista, o canal apresenta-se como um espaço de análise política e económica séria. Tem milhares de subscritores, e parece que veio para ficar já que  publica conta com alguns vídeos e adota uma estética de credibilidade institucional, embora aquelas fotos de “capa” não devessem enganar ninguém, porque não seria normal ter um homem daqueles a colocar as mãos à cabeça, literalmente! 

O problema é simples e grave. O canal não é oficial, não é gerido por Varoufakis e utiliza inteligência artificial para simular a sua voz, a sua imagem e a sua autoridade intelectual.

Este exemplo chamou-me particularmente a atenção, mas importa dizê-lo com clareza. Não é um caso isolado. Pelo contrário, é apenas um entre muitos. Canais semelhantes proliferam, apropriando-se da identidade de figuras públicas, especialistas, jornalistas ou antigos responsáveis políticos, criando uma aparência de legitimidade que não existe. Alguns são mais rudimentares, outros mais sofisticados. Este é apenas um dos que já atingiram uma escala suficiente para não poder ser ignorado. E isso é gravíssimo.

Não estamos perante erros pontuais nem perante conteúdos marginais. Estamos perante um modelo replicável, escalável e lucrativo, que se alimenta da confiança do público e da dificuldade crescente em distinguir o real do artificial. Quando uma figura com historial político, presença académica e reconhecimento internacional é artificialmente replicada, o efeito não é apenas informativo. É emocional, cognitivo e profundamente persuasivo. Mas se for qualquer um de nós, devemos ter a minha capacidade de proteção sobre algo que pode ser devastador para qualquer um, a  manietação da sua imagem e identidade. 

Aqui reside o verdadeiro perigo. A maioria das pessoas não verifica se um canal é oficial. Confia na cara, na voz, no discurso articulado, na aura de autoridade. A inteligência artificial permite hoje produzir conteúdos com um grau de realismo suficiente para quebrar o filtro crítico, sobretudo quando o tema é economia, guerra, colapso financeiro ou instabilidade política. O medo prende. A urgência captura. A credibilidade emprestada convence.

Este fenómeno não é neutro. Tem impacto económico, social e democrático. Quando um cidadão acredita estar a ouvir uma análise legítima de um antigo ministro, mas está na realidade a consumir um produto artificial desenhado para maximizar atenção e cliques, estamos perante uma quebra séria da confiança pública. Não é apenas desinformação. É apropriação de identidade.

Do ponto de vista jurídico, a liberdade de expressão protege opiniões, críticas e até erros. Não protege o engano deliberado nem a criação de falsa aparência de autoridade. À luz do direito português e europeu, a utilização da imagem, do nome, da voz ou da identidade  de uma pessoa real pode configurar ilicitude e, em certos casos, crime, nomeadamente por usurpação de identidade, fraude, publicidade enganosa, práticas comerciais desleais, violação de direitos de personalidade ou fraude informática, também quando a inteligência artificial é utilizada como meio para atingir estes fins. 

Durante anos, as plataformas digitais refugiaram-se na ideia de neutralidade, afirmando-se como meros intermediários. Esse tempo terminou, já ninguém acredita nisto, pois não ?! 

Com a entrada em vigor do Digital Services Act na União Europeia, plataformas como o YouTube têm deveres claros de prevenção e mitigação de riscos sistémicos, de actuação diligente perante conteúdos ilícitos e de transparência, incluindo a sinalização de conteúdos sintéticos ou manipulados. A permanência destes canais não é um detalhe técnico. É uma escolha com consequências. Estamos por isso a tolerar o intolerável destas empresas, a que temos chamado plataformas . São empresas ! 

O novo enquadramento europeu em matéria de inteligência artificial reforça ainda a obrigação de transparência sempre que conteúdos gerados por inteligência artificial possam enganar o público quanto à sua natureza ou origem. Em Portugal, estas normas articulam-se com o Código Civil, o Código Penal, o Código da Publicidade e a legislação de defesa do consumidor. O quadro legal existe. Tudo o resto que é preciso, nem por isso !  

Aqui não me alongo em matérias legais, porque esta reflexão é feita no estrito âmbito do interesse público e da literacia cívica. 

O mais importante é a pergunta : Perante isto, que resposta ?  É o foco na  literacia e na responsabilidade. É pensar antes de partilhar. É exigir responsabilidade a quem lucra com a atenção. É lembrar que nenhuma tecnologia substitui o dever humano de verdade. É recusar o pânico como forma de consumo. É denunciar quando a identidade de alguém é usada como instrumento. É exigir respostas governamentais para que as leis de cumpram. 

Romper correntes, hoje, não é gritar mais alto. É não aceitar como normal um espaço público onde a verdade se torna opcional e a identidade uma matéria-prima reutilizável. Este é apenas um exemplo entre muitos, mas já é suficiente para nos obrigar a parar, olhar e não seguir em frente como se nada estivesse a acontecer. Há que agir sem demora porque o preço a pagar pela inação pode ser alto demais. 

E como sempre, que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.

Declaração de responsabilidade: Todas as opiniões e reflexões expressas nos textos, entrevistas ou publicações da autora são estritamente pessoais. Não devem ser entendidas como representando posições oficiais de qualquer organização, empresa ou instituição com as quais mantenha ligação profissional ou institucional. Embora desempenhe diversos cargos de liderança, consultoria e direção, as suas reflexões pessoais permanecem independentes e não devem ser atribuídas a essas entidades.

Por Marisa Monteiro Borsboom

Marisa Borsboom / Correspondente no BENELUX
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