28 dezembro 2025
Geometrias do poder
Serpentes, gigantes e a parábola das murmurações
As notícias das últimas semanas desenham um padrão inquietante que já não pode ser lido como uma sucessão de episódios isolados. O que está em curso é mais profundo e estrutural. Trata-se de uma transformação silenciosa da forma como o poder se organiza, se legitima e se protege.
Duas notícias, aparentemente distintas, ajudam a compreender esse movimento quando colocadas lado a lado.
Por um lado, os gigantes tecnológicos consolidam um poder que já não é apenas económico ou tecnológico, mas infraestrutural e político. A concentração de capacidade computacional, dados, redes e influência faz com que poucas empresas passem a condicionar não só mercados, mas escolhas coletivas, ritmos sociais e até enquadramentos legais. A Microsoft é hoje um exemplo claro desse poder visível, pesado e quase ilimitado. O seu domínio sobre infraestruturas críticas, nomeadamente cloud e poder computacional, coloca-a numa posição que ultrapassa largamente a de um ator económico tradicional. Trata-se de poder estrutural, aquele que define o campo onde todos os outros têm de jogar.
Por outro lado, quase em silêncio mediático, assistimos a uma ofensiva direta contra quem tenta usar a Justiça como instrumento de contenção desse poder. A decisão das autoridades norte-americanas de sancionar e impedir a entrada nos Estados Unidos de Imran Ahmed, fundador do Center for Countering Digital Hate, representa uma viragem perigosa. Um cidadão europeu, dirigente de uma organização da sociedade civil, passa a ser tratado como ameaça por recorrer aos tribunais e à regulação para denunciar práticas de plataformas digitais. A justificação política foi assumida publicamente por Marco Rubio, invocando a defesa da liberdade de expressão, precisamente no espaço onde o poder das plataformas é mais absoluto.
Estas duas notícias não são independentes. São dois lados da mesma realidade.
A Justiça surge aqui porque é o último território que ainda tenta impor limites a um poder que já não aceita contenções democráticas. Não se trata apenas de tecnologia, inovação ou mercado. Trata-se de saber se o direito continua a ser um instrumento de proteção dos cidadãos ou se passa a ser tolerado apenas enquanto não interfere com interesses estratégicos globais.
Mas os gigantes não atuam sozinhos.
Há também as serpentes. Não as caricaturais, mas as reais. Figuras que se movem com discrição, inteligência estratégica e uma notável capacidade de atravessar governos, empresas e narrativas sem fricção aparente. Uma dessas serpentes tem nome próprio: Sam Altman. A imagem pública que o acompanha é reveladora. Discreto, frequentemente elogiado pela sua capacidade de fechar negócios extraordinários e apresentado como visionário responsável, Altman representa uma nova forma de poder. Não o poder que se impõe pela força, mas o poder que se infiltra pelo discurso do bem comum, da inovação inevitável e da urgência histórica. Move-se entre fundos, governos, infraestruturas e narrativas com a agilidade de quem compreendeu que o verdadeiro poder já não está no produto, mas na posição que se ocupa dentro do sistema.
Se os gigantes são visíveis, as serpentes são mais difíceis de enfrentar. Não esmagam. Envolvem. Não atacam frontalmente a Justiça. Usam-na. Moldam-na. Empurram-na para um território onde continua a existir em aparência, mas perde eficácia como limite real ao poder. Seria, no entanto, ingénuo fingir que estamos perante uma única serpente. Estamos rodeados de um mundo inteiro de serpentes. Um ecossistema de poder que não quer apenas mais influência, quer controlo direto, rápido, sem contraditório. Um poder que não rejeita a democracia por acidente, mas por estratégia. A democracia atrasa, questiona, expõe, fragmenta o comando. E é precisamente isso que este poder não quer.Este é o mundo que tenta controlar a Justiça sem a destruir, capturá-la sem assumir o custo político de a eliminar. Um mundo onde a lei é tolerada enquanto não interfere com a velocidade, a escala e a acumulação. Onde os direitos são aceites como narrativa, mas rejeitados como limite.
Durante séculos, recorremos à história bíblica de David e Golias como metáfora de esperança. Um jovem pastor, sem poder, sem exército e sem estatuto, enfrenta um gigante armado apenas com uma funda e a convicção de que a justiça está do seu lado. David vence porque é ágil, porque conhece o terreno, porque surpreende um poder demasiado confiante na sua própria força. Esta narrativa moldou a nossa imaginação coletiva e ensinou-nos que o fraco, quando tem razão, pode vencer o forte.
O que não percebemos é que, hoje, David somos nós. Cada um de nós, enquanto cidadão isolado, tornou-se o David do seu tempo. E o mais grave é que muitos nem sequer se reconhecem nesse papel. Não percebemos que estamos a lutar contra Golias. Não identificamos o confronto, não nomeamos o poder, não entendemos a escala do adversário. Agimos como se estivéssemos perante problemas dispersos, quando estamos, na verdade, envolvidos num conflito estrutural entre cidadania e concentração extrema de poder.
Enquanto não reconhecermos que somos o David contemporâneo, continuaremos a agir sem consciência do campo de batalha em que já estamos inseridos. A natureza oferece-nos uma imagem esclarecedora. Os estorninhos, quando ameaçados, formam murmurações. Milhares de corpos que se movem como um só, sem líder visível, sem comando central, mas com uma inteligência coletiva impressionante. Cada um reage apenas aos que lhe estão mais próximos, mas o movimento propaga-se em segundos por todo o grupo. O predador perde a referência. O ataque falha. A força da murmuração não está no indivíduo, mas na coordenação viva. Não há unanimidade, mas há alinhamento. Não há silêncio, mas há escuta. Não há heróis, mas há massa. Nós fizemos o caminho inverso. Agimos como rolas dispersas num céu dominado por predadores que aprenderam exatamente a explorar essa dispersão.
Talvez já não estejamos na era em que David vence Golias com uma funda. Talvez estejamos na era em que apenas murmurações humanas conscientes, coordenadas e persistentes conseguem sequer ser vistas.
E como sempre, que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom



