8 de março de 2026
Há anos que o 8 de março é assinalado como o Dia Internacional da Mulher. Este ano, porém, faço uma escolha diferente. Não o vou celebrar.
Artigo Exclusivo para subscritores
Quando este dia terminar, vou guardá-lo como um dia de luto e de memória. Os outros 364 dias do ano ficam para celebrar as mulheres. Este será, para mim, um dia de reflexão.
Porque, se olharmos com honestidade, é difícil celebrar quando percebemos que não avançámos o suficiente. Às vezes parece que estamos presos num ciclo repetitivo, quase como naquela música viral do YouTube, Taca na, sempre no mesmo movimento sem realmente sair do lugar.
As mulheres continuam a ser tratadas como uma minoria, apesar de sermos mais de metade da população mundial. Em muitas culturas somos ainda vistas como menores, como se tivéssemos menos vontade, menos direitos, menos capacidade. E mesmo nos países considerados mais avançados, a igualdade continua longe de ser real.
Há temas que continuam a ser incontornáveis.
A pobreza, por exemplo. Na Europa, os índices de pobreza continuam a afetar desproporcionalmente as mulheres. Em parte porque muitas têm carreiras interrompidas ou mal pagas, mas também porque persistimos em não reconhecer uma economia invisível. O trabalho de cuidado com filhos, idosos e família sustenta a sociedade, mas continua a ser um trabalho não pago, não valorizado e muitas vezes nem sequer contabilizado.
A maternidade continua também a representar um travão nas carreiras. Não apenas pelas interrupções naturais que implica, mas porque as mulheres ainda não são educadas para a ambição da mesma forma que os homens. Essa diferença cultural transforma-se depois em desigualdade económica, em dependência e em vulnerabilidade.
Há ainda a fragilidade das leis e da sua aplicação. Quantas vezes vemos pais que, mesmo quando responsabilizados, pagam pensões mínimas ou simplesmente não pagam, sem consequências reais pelo incumprimento. Enquanto isso, muitas mães ficam sozinhas a sustentar filhos e responsabilidades, improvisando soluções para sobreviver.
E depois há a violência.
A violência física que tantas vezes termina em números trágicos. Mulheres assassinadas, vidas destruídas, crianças marcadas para sempre.
Mas também a violência invisível. O controlo, a manipulação, a violência psicológica, a destruição silenciosa da autoestima e da identidade.
E há ainda outra forma de violência de que se fala pouco. A violência entre mulheres.
Ao longo do meu trabalho contra a violência sexual, com campanhas como Criar um Mito Diferente, senti isso na pele. Não foi um murro na cara. Foi algo diferente. A violência passiva agressiva. O cochicho. A desvalorização. A tentativa de destruir reputações perante outras mulheres.
Não dói menos. Às vezes dói mais. Porque vem de quem menos esperamos e de quem mais precisaríamos como aliada.
Talvez aqui esteja uma das nossas maiores fragilidades. A falta de alianças estratégicas entre mulheres.
Há comunidades, encontros e redes de networking. Mas muitas vezes falta aquilo que os homens historicamente construíram bem. Alianças estratégicas, mesmo entre pessoas que não são amigas.
Se pensarmos como numa equipa de futebol, talvez seja tempo de perguntar qual é a tática que já não está a funcionar.
Talvez seja altura de chamar árbitros, homens e mulheres, capazes de olhar para o jogo e perceber que o modelo que nos trouxe até aqui já não chega para o futuro.
As mulheres têm força nos números. Mas a força dos números não cria mudança se estiver fragmentada.
E muitas vezes somos nós próprias as primeiras a não reconhecer o nosso valor.
Apesar de tudo, continuo a acreditar num mundo melhor. Num mundo de homens e mulheres fortes, íntegros e éticos, capazes de se respeitar e de se ajudar mutuamente.
É esse o mundo que desejo para mim, para os meus filhos, para as minhas futuras netas, para as minhas amigas e até para aquelas que me consideram inimiga. Eu pessoalmente não considero ninguém como tal.
Mas espero que todas recebam esta mensagem.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




