11 de janeiro de 2026
O dia que mataram o Bem
Não falarei de muito esta semana. Estou confessadamente num espaço mental duro, de um peso imenso, como se me esmagasse uma força que não vejo, mas que parece espalhar-se lentamente como uma nuvem de gás mortífero.
Esta semana mostrou uma explosão de caos e, como se as portas do inferno se tivessem aberto, os demónios andam à solta sem vergonha. Já não se escondem. A sua revelação é o sinal que mais urgentemente precisamos de decifrar. Diante dela, o caminho estreita-se em apenas dois gestos possíveis: encolher-nos no medo ou erguer-nos na coragem.
O medo vai manter-nos “caladinhos”, no nosso canto, na nossa vida, na nossa autopreservação. Não julgo quem o fizer. Sei que temos famílias, que ter medo é normal e, se o mal parece ainda tão longe de nós, porque deveríamos alterar a nossa vida?
Afinal, estamos no Shire, referência à obra-prima O Senhor dos Anéis. Aqui tudo é lindo e verde e há comida e calor e alegria. Mas lá longe há um mundo em que os cavaleiros negros galgam a toda a força, rapidez e com uma crueldade sem freio.
Não falarei da geopolítica, de ditadores serem ilegalmente sequestrados por ditadores em potência e da garantia de que assim a população nunca será realmente livre.
Não vou falar de uma luta por um novo pensamento de conquistas que vê a invasão ou compra de territórios como a moda a impor.
Não vou falar das pessoas que estão a tentar lutar por liberdade e dignidade nas ruas do mundo “no meio” do globo, ou assim lhe chamarei.
Lá vemos que há um ponto de quebra na humanidade. “Não ter nada mais a perder” leva a que se pense que a coragem de lutar ou morrer a tentar é a única forma de seguir em frente.
Não vou falar de política portuguesa ou holandesa, porque tudo me parece demasiado insignificante esta semana.
Ela, ela é de quem quero falar esta semana. Renee, a Mulher assassinada em pleno dia.
Trinta e sete anos. Temos dez anos de diferença, precisamente. Tinha acabado de deixar o filho na escola, tinha peluches no carro, tinha a companheira do lado de fora do carro. Todos vimos. Todos percebemos que estava a tentar fugir de homens que de polícias não têm nada. São criminosos mercenários, cheios de ódio por mulheres em particular.
Mas nas imagens que saíram do vídeo que este criminoso filmou depois de a matar, ouvimos ele a dizer “the bitch”. E quando um médico diz quem é e quer ir em auxílio da mulher que foi baleada com três tiros, este mesmo assassino, com o seu poder, impede que o médico vá em seu auxílio. O médico, infelizmente, cumpriu. Precisávamos que ele tivesse ido. Mesmo com medo de ser morto, mas o medo foi mais forte.
Ela deixa três filhos, um sorriso magnífico. Naquele vídeo, antes de ficar assustada e tentar fugir, disse ao seu algoz “relaxa, não estou zangada contigo”. Vemos o seu sorriso antes de, em menos de um minuto, tudo mudar.
O mundo é assim. Um minuto pode mudar tudo.
Farei mais dela, por certo. Ela nunca me deixará. Ela, uma mãe, a lutar por um mundo melhor. Uma soldado do Bem. E quis Deus que o nome dela seja Good.
Ela não será esquecida e o sangue que derramou que ressuscite a semente da vida, da luz e da aliança.

Poema ( tradução com recurso ferramenta IA):
“Sobre aprender a dissecar fetos de porco
Renée Nicole Good
quero de volta as minhas cadeiras de baloiço
poentes solipsistas,
e sons de selva costeira que são tercetos de cigarras
e pentâmetros das patas peludas das baratas.
doei bíblias a lojas de caridade
esmagadas em sacos de lixo de plástico com uma lâmpada de sal dos Himalaias ácida
as bíblias do pós-baptismo, as arrancadas das esquinas das ruas
das mãos carnudas de fanáticos
as versões simplificadas, fáceis de ler, parasitas
lembro-me mais do cheiro escorregadio da borracha
nas imagens brilhantes dos manuais de biologia
que queimavam os pelos dentro das minhas narinas,
e do sal e da tinta que ficavam nas minhas palmas
sob recortes da lua às duas e quarenta e cinco da manhã
estudo e repito
ribossoma
endoplasmático
ácido láctico
estame
no IHOP da esquina de Powers com Stetson Hills
repito e rabisco até que tudo se perca
e estagne algures onde já não sei apontar
talvez nas entranhas
talvez entre o pâncreas e o intestino grosso
onde corre o riacho insignificante da minha alma
é a régua com que agora reduzo tudo
afiada e estilhaçada
do saber que antes se sentava
como um pano numa testa febril
posso deixá-los coexistir
esta fé volúvel
e esta ciência universitária
que troça do fundo da sala
agora já não consigo acreditar
que a bíblia, o corão, o bhagavad gita
me afastem os cabelos longos da face
como a minha mãe fazia
e soprem “dá espaço ao espanto”
toda a minha compreensão escorre pelo queixo
cai no peito
e resume-se assim
a vida é apenas
óvulo e espermatozoide
e o lugar onde se encontram
e quantas vezes
e quão bem
e o que ali morre”
É tempo de escolher entre o medo e a coragem mesmo sabendo o preço a pagar. Que Deus nos dê coragem porque o medo é a pior das prisões e a grande arma da tirania !
Como sempre, que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




