22 de fevereiro de 2026
Para além das manchetes, a semana deixa-nos uma imagem que entrará nos livros de História: um ex-príncipe confrontado com as consequências dos seus atos. Ou assim parece. Mas será?
Artigo Exclusivo para subscritores
Num tempo em que tantas instituições parecem frágeis, há ainda espaços na Europa onde se entende que o poder não é escudo eterno. Onde um rei afirma que a lei deve seguir o seu curso, mesmo quando esse curso passa pela própria família.
Durante anos tentou-se rescindir, depois limpar… mas a lama tem esta característica chata de não desaparecer. Como tantas vezes acontece, o poder protegeu-se com unhas e dentes, enquanto pôde. Mas o poder não transforma sapos em príncipes. Não há fada madrinha com tais poderes. O poder só amplifica o que já lá está neles. Quem é sapo morre sapo. Não há contos de fadas que os salvem.
Há quem nasça com poder e há quem o conquiste, mas ninguém escapa ao seu efeito. O poder amplia a alma, dizem. As tentações crescem na proporção da autoridade que se detém, do acesso que se tem, do dinheiro que se tem, das conexões que se propiciam.
Penso muitas vezes nas reflexões de Marcus Aurelius e no contraste com Niccolò Machiavelli. Um escreve sobre a angústia de governar sem se perder. O outro descreve, com frieza estratégica, as técnicas de sobrevivência no poder. Entre a ética do imperador e o manual do príncipe, a humanidade escolhe todos os dias o que quer ser, o que pode ser, o que tem que ser.
Estamos numa encruzilhada civilizacional, sem dúvida alguma. Uma parte do mundo mostra o horror do que é o poder sem limites, à “descarada”. Outra parte recorda que nem todos se deixam corromper. Há gente boa, vos digo. Há gente digna. Há gente que luta todos os dias para que a luz em si seja o guia. Num mundo em que os crápulas parecem vencer, é ainda mais difícil. Mas, se uns não conseguem evitar serem “do mal”, outros não conseguem evitar serem “do bem”. Por isso, tantos perdem até as suas vidas para o salvar, para o garantir para gerações futuras.
Há sempre um certo alívio coletivo quando um monstro paga pelo que fez. Mas os monstros raramente atuam sozinhos. Há estruturas que os alimentam durante anos. Cúmplices de silêncio. Instituições que preferem proteger reputações a proteger pessoas.
E aqui reside uma ironia que poucos verbalizam. Aquilo que mais indignou a opinião pública nem sempre é aquilo que produz consequências formais mais claras. Os sistemas reagem com maior nitidez quando estão em causa funções oficiais, deveres institucionais e integridade do exercício do poder. Outras formas de dano permanecem num território mais ambíguo, difícil de sancionar e frequentemente empurrado para acordos, silêncio ou esquecimento.
Se há algo que todos podemos reconhecer é isto: não sabemos que monstros nos rodeiam. E pior, quantos silêncios os sustentam.
Nunca se calou perante uma injustiça?
Nunca olhou para o lado?
Nunca tranquilizou a consciência dizendo que não tinha nada a ver com isso?
Quem de nós nunca…
Acredito que depois desta era de corrupção aberta, de desculpas esfarrapadas e sistemas incapazes de responder ao saque institucionalizado, surgirá outra era. Uma era onde honra e caráter voltarão a ser ativos políticos, ativos reais.
Talvez seja essa a única forma de salvar a civilização como a conhecemos. Porque ela assenta em algo simples: mecanismos de controlo e responsabilização. Freios e contrapesos. Prestação de contas. Limites ao poder. E decência, humanidade!
Mas não nos iludamos. Muitos dos que hoje vestem a capa da virtude são monstros mais sofisticados do que aquele que caiu. Os piores não são os apanhados. São os invisíveis.
Sacrificam-se alguns para apaziguar multidões. Atiram-se aos leões figuras públicas enquanto os verdadeiros arquitetos permanecem atrás das cortinas.
E a realidade quase nunca é a que nos mostram. Por isso, mantenham a vigília. E, se puderem, não se calem.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom





