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Sexta-feira - 17 Abril 2026

EXCLUSIVO: Sem Correntes – A herança do caos: media, poder e manipulação

Destaques

22 março 2026

Não somos espectadores. Somos o campo de batalha.

Durante anos acreditámos que a informação era apenas isso: informação. Neutra, distante, quase técnica. Mas a história mostra-nos outra coisa. Mostra-nos que quem controla a narrativa controla o mundo. Esta semana quis trazer-vos uma das minhas paixões: os documentários. Foi com eles que passei muitas horas da minha vida, atravessando temas, épocas e perspetivas. São uma das formas mais ricas de aceder ao conhecimento. A imagem e o som juntam-se à narrativa num verdadeiro festim de informação, revelando muitas vezes a história por ângulos que raramente nos são mostrados.

Um dos que vos trago hoje está disponível na Netflix e chama-se Dinastia: Os Murdochs.

Logo no primeiro episódio encontramos aquilo que é o ponto de partida para tudo o resto. É ali que se percebe como se constroem impérios. Como nascem os tubarões. Ou, de forma mais direta, como se forma um predador. A história de um australiano que conseguiu influenciar profundamente o mundo da informação, primeiro em Londres e depois nos Estados Unidos, é também a história do mundo que herdámos. É nesse episódio que vemos com clareza a aliança entre media e poder político a ganhar forma. Um modelo que hoje nos parece normal, mas que teve ali momentos decisivos.

É aqui que vemos como um jornal, pela primeira vez na história, de forma aberta apoia um candidato à Casa Branca, que ganha. É aqui que ouvimos a frase arrepiante “fazer a América great outra vez”, na boca de Reagan, e onde vemos a destruição do que eram os limites para ter licenças de canais de televisão, antes restritas, a serem removidas. Ali, as sementes deste caos que vivemos, deste mundo de farsa e de mentira que impera solto, deram os primeiros passos firmes.

Foi ali também que o atual inquilino da Casa Branca se foi desenvolvendo até ao King Kong que é hoje, agarrando a pobre Estátua da Liberdade nas suas mãos dementes. Um inquilino ao serviço de muitos outros poderes, que o usam como um verdadeiro símio em laboratório para experiências de destruição.

É isso mesmo que estamos a ver. Um mundo, um laboratório vivo de que somos todos inquilinos, a ser varrido por um louco varrido e por todos os que o treinam, a tirar medidas, dados, recalibrando as suas conclusões. Ao longo desse percurso, vemos também o crescimento de figuras que viriam a marcar profundamente o presente. Líderes amplificados, moldados e, muitas vezes, utilizados por sistemas que aprenderam a transformar comunicação em controlo. O resultado está à vista. Um mundo que muitas vezes parece um laboratório vivo, onde decisões são testadas, ajustadas e repetidas, onde a perceção pode ser moldada e onde a realidade, tantas vezes, se torna secundária.

E nós?

Podemos sentir que assistimos a tudo isto sem poder fazer quase nada. Mas isso não é verdade. Saber não é pouco. Saber é uma forma de resistência. Saber mais, entender mais, ser mais capaz de criticar, de argumentar, de trazer a verdade dos factos e não a ilusão das ideologias, também isso é ação. Fala-se tanto no fim dos tempos. Então sejam vigilantes. Não deixem a lanterna do conhecimento morrer. Leiam, vejam documentários e participem na vida política, ainda que vos pareça uma perda de tempo.

Esta semana foram as eleições municipais no país onde vivo e o meu marido, muito desencantado com a política, não queria ir votar. Mas foi. Não desisti até que fosse e levámos o nosso filho para ver que não devemos acreditar na narrativa de que não podemos fazer nada. É essa a narrativa que nos querem fazer acreditar. Mesmo que o fim viesse, teríamos sempre a escolha de como queríamos viver até lá. É isso que esta crónica vos quer dizer hoje.

Resistam.

Os tempos difíceis já chegaram, só não chegaram ainda a muitas das nossas portas, como um tsunami que vai destruindo tudo de forma mortalmente e aparentemente lenta. E não percam a esperança. Trabalhem para não a perderem. Cuidem das vossas famílias, das vossas comunidades.

Isto é só mais um capítulo da história e muitos estarão, no futuro, a ver o que foram estes nossos tempos. Que vejam que, enquanto uns destruíam, outros se uniram para serem o contra-poder.

E como sempre… Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.

As inscrições para o evento encontram-se abertas e podem ser realizadas através da plataforma oficial do projeto.

Mais informações em https://nexomulher.qdelux.com

Marisa Borsboom

Marisa Borsboom / Correspondente no BENELUX
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