Domingo de Páscoa, um marco para a tradição católica e cristã. A paixão de Cristo como metáfora, o renascimento como símbolo. A família sentada à mesa. E os emigrantes como eu, que tentam recriar, o melhor que podem, aquilo que perderam por não estarem no seu país. O desafio de ter uma família com várias tradições e pensar que, se por um lado é bom ter esta riqueza, por outro há uma nostalgia em estar apenas com os meus, com as minhas tradições. Neste pensamento tão simples vejo um sentimento à escala global. Passámos de mundos muito concretos e definidos para mundos onde muitas vezes já não há sequer tradições.
E ver a minha família a tentar perceber como alinhar tradições, sem perder a identidade de cada um, é um desafio, não haja dúvida.
Enquanto isso, deixo um eco, em forma de parágrafo, sobre o estado do mundo esta semana, que continua marcado pela combinação de tensão geopolítica e fragilidade económica crescente, com o conflito no Médio Oriente a provocar um choque energético que está a pressionar a inflação, a desacelerar o crescimento global e a expor vulnerabilidades estruturais nas economias mais dependentes de importações, especialmente na Europa, onde países industriais já enfrentam custos elevados e perspetivas de estagnação. Neste contexto incerto, ganha particular relevância a posição do Banco Central dos Países Baixos, que alertou que “tempos incertos exigem uma Holanda forte e uma Europa forte”, defendendo explicitamente uma maior integração europeia como resposta estratégica a choques externos e uma economia mais resiliente capaz de resistir a crises energéticas, comerciais e financeiras, sinalizando uma mudança importante no pensamento económico do norte da Europa, tradicionalmente mais cauteloso, ao reconhecer que desafios globais como guerras, fragmentação geopolítica e volatilidade dos mercados não podem ser enfrentados isoladamente.
Esta visão sugere que o futuro próximo poderá passar por políticas mais coordenadas dentro da União Europeia, investimento em autonomia energética e industrial e reforço de mecanismos comuns de resposta a crises, numa tentativa de evitar que episódios como o atual desencadeiem recessões profundas, sendo que tanto a Holanda como outros países europeus, incluindo Portugal, se encontram agora num ponto de inflexão onde a escolha entre maior cooperação ou vulnerabilidade poderá definir a sua estabilidade económica nos próximos anos.
Mas chega do mundo. Este domingo não quero senão deixar palavras de carinho para todos os que, como eu, sentem o peso de estar longe da terra que os viu nascer. E que, à mesa, entre tradições recriadas e memórias que nunca se perdem, falaremos inevitavelmente do mundo. Dos preços, das guerras, das incertezas. Neste simples gesto de celebrar a Páscoa, talvez sem darmos conta, reafirmaremos aquilo que nos segura: a família, a identidade, a memória e a esperança da ressurreição.
Que estas mesas, estes encontros, sejam a forma mais silenciosa de resistência num tempo que insiste em perder-se.
Como sempre… Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
Marisa Borsboom




