Há semanas em que a realidade parece escrita por um argumentista com tempo livre, sentido de humor perverso e uma veia profundamente literária. Esta foi uma dessas semanas.
Ironia número um: o país que se queixa de imigrantes, mas exporta os seus próprios.
Entre os corredores da política portuguesa, o debate sobre o “excesso” de estrangeiros voltou ao centro da conversa . Com os mais de 1 milhão de residentes estrangeiros em Portugal a servirem, mais uma vez, como argumento para as narrativas do desconforto.
Mas, ao mesmo tempo, permanece o silêncio ensurdecedor sobre os cerca de 1,8 milhões de portugueses que vivem fora do país.
Ou seja: Portugal tem mais gente fora do que a que entra.
Se os que saíram tivessem tido condições para ficar, talvez o país não andasse agora a improvisar soluções para a sua própria falta de coesão.
Mas isso não se diz.
O discurso continua deslocado, amnésico, autocomplacente.
Ironia número dois: o país das vacas sem vacas.
Na televisão holandesa, dizia-se esta semana que o preço da carne de vaca atingiu valores absurdos.
O motivo? A alegada escassez de vacas.

Ora , e aqui entra o delicioso absurdo, a Holanda é, há décadas, um dos países com mais vacas por metro quadrado da Europa.
Mas, entre regulação ambiental, pressão sobre os agricultores e contradições políticas, o resultado é este: há vacas, mas não chegam; há carne, mas não há acesso; há produção, mas não há lógica.
E no meio disso tudo, ninguém come um bom bife.
A não ser, talvez, no simulador de realidade onde a ilusão sabe melhor do que o que é real como no Matrix, onde o bife é falso, mas satisfaz.
É esta a distopia do quotidiano: cheia de carne, mas vazia de sentido.
Ironia número três: o bilionário que funda o Partido da América … mas não é americano.

Elon Musk, nascido na África do Sul, nacionalizado onde convém, decidiu esta semana fundar um partido político: chama-se America Party.
O anúncio foi feito na sua rede social, com a mesma naturalidade com que um adolescente cria um grupo no WhatsApp.
Não se trata de uma proposta ideológica , trata-se de um gesto de ego.
Musk, que já comanda empresas aeroespaciais, automóveis, de IA e redes sociais, quer agora testar a elasticidade da democracia americana.
Não como cidadão , mas como oligarca tecnocrático com vontade de brincar ao sistema.
Como se fosse só mais um tabuleiro, uma aplicação, uma startup para experimentar.
É o ponto em que chegámos: em que os delírios individuais se confundem com projetos políticos e em que o capital compra não só influência, mas estrutura.
Três ironias.
Três sintomas de um tempo que se repete em absurdo.
E ainda há quem diga que está tudo bem.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procure concordância, mas romper as correntes da apatia.
Por Marisa Monteiro Borsboom




