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Terça-feira - 20 Janeiro 2026

EXCLUSIVO: Sem Correntes – As três ironias da semana: vacas, emigrantes e oligarcas

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Há semanas em que a realidade parece escrita por um argumentista com tempo livre, sentido de humor perverso e uma veia profundamente literária. Esta foi uma dessas semanas.

Ironia número um: o país que se queixa de imigrantes, mas exporta os seus próprios.

Entre os corredores da política portuguesa, o debate sobre o “excesso” de estrangeiros voltou ao centro da conversa . Com os mais de 1 milhão de residentes estrangeiros em Portugal a servirem, mais uma vez, como argumento para as narrativas do desconforto.

Mas, ao mesmo tempo, permanece o silêncio ensurdecedor sobre os cerca de 1,8 milhões de portugueses que vivem fora do país.

Ou seja: Portugal tem mais gente fora do que a que entra.

Se os que saíram tivessem tido condições para ficar, talvez o país não andasse agora a improvisar soluções para a sua própria falta de coesão.

Mas isso não se diz.

O discurso continua  deslocado, amnésico, autocomplacente.

Ironia número dois: o país das vacas sem vacas.

Na televisão holandesa, dizia-se esta semana que o preço da carne de vaca atingiu valores absurdos.

O motivo? A alegada escassez de vacas.


Ora , e aqui entra o delicioso absurdo,  a Holanda é, há décadas, um dos países com mais vacas por metro quadrado da Europa.

Mas, entre regulação ambiental, pressão sobre os agricultores e contradições políticas, o resultado é este: há vacas, mas não chegam; há carne, mas não há acesso; há produção, mas não há lógica.

E no meio disso tudo, ninguém come um bom bife.

A não ser, talvez, no simulador de realidade onde a ilusão sabe melhor do que o que é real  como no Matrix, onde o bife é falso, mas satisfaz.

É esta a distopia do quotidiano: cheia de carne, mas vazia de sentido.

Ironia número três: o bilionário que funda o Partido da América … mas não é americano.

Elon Musk, nascido na África do Sul, nacionalizado onde convém, decidiu esta semana fundar um partido político: chama-se America Party.

O anúncio foi feito na sua rede social, com a mesma naturalidade com que um adolescente cria um grupo no WhatsApp.

Não se trata de uma proposta ideológica , trata-se de um gesto de ego.

Musk, que já comanda empresas aeroespaciais, automóveis, de IA e redes sociais, quer agora testar a elasticidade da democracia americana.

Não como cidadão , mas como oligarca tecnocrático com vontade de brincar ao sistema.

Como se fosse só mais um tabuleiro, uma aplicação, uma startup para experimentar.

É o ponto em que chegámos: em que os delírios individuais se confundem com projetos políticos e em que o capital compra não só influência, mas estrutura.

Três ironias.

Três sintomas de um tempo que se repete em absurdo.

E ainda há quem diga que está tudo bem.

Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procure concordância, mas romper as correntes da apatia.

Por Marisa Monteiro Borsboom

Marisa Borsboom / Correspondente no BENELUX
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