23 novembro 2025

Esta semana estive no fórum realizado em Cascais sobre o tema da longevidade. Para além do programa e de tudo o que foi dito, já amplamente coberto neste jornal que também esteve presente, ficam os meus pensamentos.
Quando penso na palavra reforma, penso sobretudo que não me quero reformar. Sinto-me próxima de mentes como a do Professor Agostinho da Silva, que lembrava que o valor de uma pessoa nunca pode reduzir-se ao seu trabalho assalariado. Somos, ou deveríamos ser, muito mais do que agentes económicos que vendem ou compram. Somos presença, consciência, experiência, criação.
Acredito que muitos da minha geração sentem o mesmo. E muitos que agora entram nos 60 ou 70 também sentem. A pergunta que permanece é simples. O que fazer com vidas que não deviam deixar de contribuir com a sua energia, a sua sapiência e as suas ideias.

No entanto, algo me marcou. Não vi jovens na plateia. E este é um tema que pertence a todas as gerações. A longevidade não é apenas sobre viver mais. É sobre como cada geração se reposiciona dentro deste novo tempo que já começou, e como construímos um pacto entre o passado que sabe, o presente que age e o futuro que chega.
Ao longo dos dois dias ficou claro que a longevidade deixou de ser apenas uma questão de saúde ou de economia. É uma questão de desenho de sociedades. Do envelhecimento saudável às cidades conectadas, da diplomacia ao desporto, da ciência à própria estrutura das democracias, cada painel mostrava um mesmo ponto de convergência. Não estamos apenas a prolongar vidas. Estamos a inaugurar uma era nova que exige repensar o lugar que cada geração ocupa, o que dá e o que recebe, e como podemos continuar a produzir valor humano em todas as fases da vida.
Ficou também a certeza de que o nosso Presidente, aos 77 anos, é um exemplo vivo de alguém que não se reformará no sentido tradicional. Vimos a sua vontade genuína de conversar, de ouvir e de interagir com todos. O homem que tira a selfie a quem está a tirar a selfie, como brincou no seu discurso, é alguém que continua a observar o mundo com curiosidade e presença. Se pensarmos bem, ele já estaria reformado se tivesse tido uma função normal. O que perderíamos. Pelo menos dez anos adicionais de energia, pensamento e ação que só a maturidade rica de uma vida longa pode oferecer.
E é aqui que deixo claro o essencial. O que escrevo é sobre o homem e sobre o exemplo humano. Não tenho qualquer ligação político-partidária e não sirvo qualquer agenda. Registo apenas aquilo que vejo e aquilo que me inspira enquanto cidadã que acredita no valor das pessoas para além dos cargos que ocupam.
Deixo também uma fotografia magnífica de Lisboa, tirada na despedida da tempestade Cláudia. A luz depois da violência das nuvens trouxe a imagem perfeita da esperança de que todos precisamos. Há sempre uma claridade que regressa, mesmo quando o céu parece não ter mais espaço para abrir.
Sem correntes, apenas o vento que pensa.
E como sempre, que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom



