29 março 2026
Não somos espectadores. Somos o campo de batalha.
É da guerra que quero falar. Mas enquanto todos nós sentimos no bolso o efeito da guerra, com os preços a subir, a verdade é que há um outro elemento que me choca ainda mais. Esta patetice levada ao extremo da caricatura que é o presidente da maior potência do mundo, um misto dos Metralhas com o Pateta da Disney, elevado depois a todos os vilões que possamos imaginar, metidos num shaker, como se a realidade tivesse desistido de si própria. É esse lado surreal que me choca mais do que as próprias guerras, porque as guerras já conhecemos, a miséria humana faz parte da existência, a destruição, a fome, tudo isso regressa sempre, como se nunca tivesse saído daqui.
Artigo Exclusivo para subscritores
O que me choca verdadeiramente é esta caricatura, esta figura quase indescritível, este ruído constante onde devia haver sentido. Até na Segunda Guerra Mundial, aquele homem que destruiu tanto tinha um ar mais próximo de um demónio, uma presença pesada, reconhecível no seu horror, nunca esta caricatura parva, absurda, quase infantil, e talvez por isso ainda mais perigosa. Como é que chegámos aqui. Não há sequer uma ideologia, e talvez seja isso o mais inquietante, um misto dos Metralhas com o Pateta, um mentiroso compulsivo, a destruição da realidade em si mesma a acontecer diante de nós, tão ou mais violenta do que qualquer destruição material.
É esse cenário que angustia, porque nem sequer há uma forma clara de oposição, nem sequer um inimigo definido, nem sequer se percebe bem o que está em causa. E talvez seja esse o objetivo, o caos, a desorientação, a perda do chão. Quando as pessoas estão completamente perdidas já nem lutam, ficam suspensas, à espera de qualquer coisa que não sabem nomear. Por outro lado, este estreito mostra-nos também outra coisa, que as rotas da globalização nunca tiveram verdadeiros planos alternativos, que navegámos sempre com a ilusão de controlo. E, no entanto, há sinais de preparação. Portugal, com as suas ligações ao Brasil e com a sua aposta em energias mais sustentáveis, pode sentir um impacto menor em algumas áreas, como o petróleo ou o gás, e encontrar alguma resiliência energética. Também as chuvas recentes, tão destruidoras, deixam para trás uma maior capacidade hídrica, como sempre, do mal nasce qualquer coisa que, noutro contexto, poderia ser boa.
Mas no meio disto tudo não deixa de ser revelador ver certas caricaturas, uma que sigo, de um programa inglês, mostrava Putin a dizer que estava perdido e que agora, com todo este caos, está finalmente confortável. A desgraça dos outros como lugar de conforto. E isso lembra-nos que a desgraça da Ucrânia continua, que a Europa tenta gerir tensões como pode, num equilíbrio cada vez mais frágil. Vivemos num mundo em sobressalto constante, um mundo onde já nem sabemos se podemos contar com estratégia, com antecipação, com inteligência real, está tudo demasiado entregue à macacada, e essa é talvez a maior inquietação, não saber como vamos sair disto, nem sequer saber se alguém sabe.
Quero terminar com uma nota pessoal. Esta semana tive a oportunidade, enquanto advogada portuguesa, de participar num encontro da Ordem dos Advogados na cidade onde estou agora registada com o meu título de origem, e o encontro terminou com as palavras de um advogado mais antigo, de uma lucidez rara, que relembrou o papel essencial de quem resiste às injustiças, porque a justiça, como sabemos, está em muitos países sob ataque, e a destruição da justiça é sempre um dos primeiros passos dos regimes autoritários. Precisamos de uma justiça livre, precisamos destes combatentes. Numa semana em que também vimos uma decisão histórica nos Estados Unidos contra a Meta, responsável pelo Facebook e Instagram, condenada por causar danos aos seus utilizadores, há ainda sinais de resistência, mesmo neste cenário quase distópico há ainda alguma coisa que insiste em não ceder, porque é isso que nos permite continuar. E deixo-vos com as palavras de uma música que encerrou esse encontro, para terminar esta coluna e, talvez, deixar-vos com alguma luz nos dias em que tudo parece demasiado mau para ser verdade:
“Gostaria de terminar com a pequena canção com que costumávamos encerrar antigamente:
E quer discutas ferozmente ou protestes longamente,
Quer chegues a um acordo ou insistas no teu caso,
Para nós é tudo igual, ser advogado é algo tão maravilhoso,
Que nunca, nunca, nunca, não, nunca, nunca, nunca,
Queremos ser outra coisa.” Willem de Vries
Como sempre… Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
Marisa Borsboom




