Enquanto o país parava em choque com a tragédia do Elevador da Glória em Lisboa, talvez tenha passado despercebido um momento que poderá ficar na história. Dois líderes mundiais, não propriamente os heróis do nosso tempo, deixaram escapar em público uma conversa sobre longevidade extrema, sobre a possibilidade de viver até aos 150 anos.
Se Chaplin dizia que enquanto os ditadores morressem a liberdade não pereceria, a ambição agora parece ser precisamente o contrário: não morrer. A tecnologia tornou-se o novo campo de batalha, onde a promessa de imortalidade é o sonho húmido dos poderosos. A ficção científica já nos avisou, em séries como Altered Carbon, que quando as elites conquistam a eternidade, o resto da humanidade paga o preço.
Mas há aqui uma ironia cruel. Enquanto discutimos o colapso de infraestruturas básicas, que revelam a fragilidade da vida e da sociedade que construímos, alguns já se preparam para viver séculos. Entre a fragilidade de um elevador que falha e a vida artificialmente prolongada de quem nunca sobe nem desce como os comuns mortais, abre-se um fosso ético, social e político difícil de imaginar.
Não resisti a”Twittar”( agora “xecar”?!) para que fique aqui o meu contributo público para a posteridade digital .
E no entanto, este é também o tema do nosso tempo. A longevidade é real. Vivemos mais anos, a ciência oferece-nos mais tempo e a sociedade não está preparada para lidar com esta transformação. Não basta celebrar a conquista da vida longa. É preciso pensar em que condições se vive, quem tem acesso a estes avanços, como se reconfiguram as relações entre gerações, entre trabalho e reforma, entre direitos e deveres.

Cabe-nos, enquanto cidadãos conscientes, garantir que a longevidade seja um bem comum e não um privilégio dos poucos que sonham com a eternidade.
Por agora já nos contentávamos com acesso a saúde e capacidade para manter as estruturas que temos .
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procure concordância, mas romper as correntes da apatia.
Por Marisa Monteiro Borsboom



