25 de janeiro de 2026
Ontem houve uma reunião extraordinária do Conselho Europeu. Não do Conselho da Europa, que é outra instituição, dedicada aos direitos humanos, mas do órgão que reúne os chefes de Estado e de Governo da União Europeia. O tema foi sério. Relações transatlânticas, soberania europeia, tensões geopolíticas, a necessidade de uma Europa mais assertiva num mundo que se tornou instável, rude, imprevisível.
Artigo Exclusivo para subscritores
É neste contexto que surge o vídeo do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmando que “a Europa quer um mundo sem vassalagens, regido pelo direito internacional, pelo respeito mútuo e pela cooperação”. E é também neste contexto que volta à mesa aquilo de que se fala há décadas: a integração, a autonomia estratégica, um eventual corpo de defesa europeu.
Vejo com bons olhos uma Europa unida. Sinto-me profundamente europeia. Sou portuguesa, vivo na Holanda, e nada disto se exclui. Pelo contrário, completa-se. Mas é precisamente por viver a Europa por dentro que deixei de acreditar na ideia dos “Estados Unidos da Europa”.
Durante muito tempo achei que era o caminho natural. Hoje vejo nos Estados Unidos uma história de aviso. Um cautionary tale. Um Estado federal que começa a esmagar as especificidades dos seus próprios estados. Um centro que se afasta das pessoas. Um poder que se autonomiza.
E penso: é isto que queremos replicar?
A Europa nunca será uma só identidade. Nunca deixarei de ser portuguesa. Nunca deixarei de sentir a minha língua, a minha história, a minha maneira de estar. E não quero. Somos nações. Somos culturas. Somos memórias. Somos línguas. Somos desigualdades também. Económicas, sociais, históricas. E isso não é um defeito a corrigir. É a realidade a governar com inteligência.
Por isso, hoje defendo outra imagem. Não Estados Unidos da Europa, mas Nações Unidas da Europa.
Unidas, sim. Coordenadas, sim. Fortes, sim.
Mas soberanas. Diferentes. Plurais.
A própria União Europeia já é imperfeita. Representa 27 países, não representa toda a Europa. E sabemos que existe uma bolha em Bruxelas que muitas vezes decide longe das pessoas, longe das realidades concretas, longe dos cidadãos. Isso assusta-me. Porque essa assimetria já existe dentro da própria União Europeia. Já a vivemos entre países mais poderosos e países mais frágeis, entre centro e periferia. Vimo-la nas crises passadas, na forma como a Grécia foi tratada, na forma como Portugal foi enquadrado, na lógica de disciplina imposta de cima para baixo.
O que não podemos é tornar isso estrutural. O que não podemos é reforçar esse desequilíbrio em nome de uma união que, em vez de proteger, passe a hierarquizar. A vassalagem que não queremos em relação aos Estados Unidos não a podemos normalizar dentro da própria Europa.
O medo nunca é bom conselheiro. Mas ignorar o risco também não é prudência. A história ensinou-nos o que acontece quando o poder deixa de ser controlado. Não queremos uma Alemanha nazi. Não queremos Américas trampianas. E também não queremos que uma Europa de união se transforme numa prisão.
Unir não pode significar absorver.
Integrar não pode significar apagar.
Fortalecer não pode significar dominar.
Fechou Davos esta semana. Mais uma vez vimos a coreografia habitual. Uma elite global a falar de bem comum em salas de luxo. Muito discurso. Pouca ação. Uma encenação de responsabilidade que raramente se traduz em transformação real.
Gostei do discurso de Volodymyr Zelensky. Porque ali não vi teatro. Vi cansaço. Vi dor. Vi alguém que carrega um país às costas. Um líder que vê a sua população morrer. Há uma diferença abissal entre quem fala de mudança e quem vive a urgência da mudança.
Entretanto, Trump cria clubes de paz pagos a peso de ouro, com adesões milionárias e liderança vitalícia. Uma caricatura da diplomacia. Uma paródia da cooperação internacional. E Musk fala de um futuro com um robô por pessoa e uma inteligência artificial mais inteligente do que toda a humanidade.
Pergunto-me onde está a inteligência nesse delírio.
Onde vamos buscar recursos para um robô por pessoa
Que planeta sobra depois disso
Que energia sustenta esse mundo
A verdade é mais crua. Robôs não recebem salário. Não têm direitos. Trabalham vinte e quatro horas por dia. É isso que seduz esta nova aristocracia tecnológica.
Hoje, doze bilionários detêm mais riqueza do que metade da população mundial. Doze pessoas com mais do que biliões de seres humanos. E o mundo não melhora. Piora.
Eles poderiam resolver problemas estruturais da humanidade. Não o fazem. Porque este modelo vive da desigualdade. Alimenta-se dela. Autodestrói-se.
É aqui que entra uma história que ouvi de um humorista irlandês. Nos anos oitenta, dez mulheres na Irlanda decidiram boicotar produtos da África do Sul em protesto contra o apartheid. Eram funcionárias de uma pequena instituição pública. Foram ignoradas. Ridicularizadas. Disciplinadas. Mas persistiram. O caso cresceu. Tornou-se símbolo. Influenciou políticas. Mostrou que pequenas ações podem abrir fendas em sistemas aparentemente inabaláveis.
Essa história importa mais do que muitos discursos de líderes.
Porque talvez a verdadeira disrupção do século XXI seja esta
Percebermos que não precisamos de salvadores
Que líderes não são uma espécie diferente
Que eles também são nós
Somos todos pessoas.
E talvez o futuro passe menos por quem manda e mais por quem age. Menos por delegar e mais por assumir. Menos por esperar e mais por participar.
Se a Europa quiser mesmo ser diferente, terá de confiar nas pessoas. Formá-las. Dar-lhes agência. Abrir espaços reais de decisão. Criar uma união que não infantiliza, que não centraliza tudo, que não transforma cidadania em obediência.
Unidos, sim.
Mas como nações soberanas.
Como pessoas conscientes.
Como comunidades vivas.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




