1 de fevereiro de 2026
Esta foi uma semana de retrospetiva quase obrigatória. Daquelas em que a realidade se impõe sem pedir licença.
Artigo Exclusivo para subscritores
As tempestades atmosféricas que atingiram o Portugal Continental provocaram um drama sério, com perdas humanas e danos significativos. O Sul do país, historicamente habituado a invernos mais moderados do que o Norte, foi novamente afetado por fenómenos extremos. Nas Regiões Autónomas, tanto nos Açores como na Madeira, não se registaram impactos comparáveis. O contraste é relevante e reforça uma evidência que continua a ser negada por alguns.
As alterações climáticas não são uma hipótese académica. São um dado. Discutir se existem é hoje um exercício estéril. A questão real é outra. O que fazemos enquanto sociedade.
Estas tempestades estão a tornar se mais frequentes e mais violentas. A resposta não pode continuar a ser reativa e improvisada. É necessária maior capacidade de alerta, mais literacia cívica e uma preparação séria da sociedade civil. Em determinados momentos, ficar em casa ou resguardar se não é alarmismo. É responsabilidade coletiva.
Vivendo nos Países Baixos, num país que há décadas convive com a ameaça permanente da água e investe fortemente em prevenção, planeamento e infraestruturas, é evidente que mesmo sociedades altamente preparadas enfrentam limites. A força da natureza não é negociável.
Mas esta semana não foi feita apenas de tempestades climáticas.
O mundo continua a ser atravessado por tempestades políticas e civilizacionais. Muitas delas têm o seu epicentro nos Estados Unidos, um país que neste momento exporta instabilidade. Essa instabilidade repercute se na Europa, alimentando discursos extremos, polarização e normalização da violência.
O comportamento da polícia de imigração conhecida como ICE, ironicamente chamada gelo, é um exemplo disso. Mais um assassinato em plena luz do dia. Desta vez de um enfermeiro, alguém que trabalhava no cuidado de soldados do exército americano. A ironia é brutal e revela um padrão que não é acidental.
Há um guião a ser seguido. Um processo de desumanização progressiva que lembra mecanismos históricos bem conhecidos. A tentativa de criar medo, identificar inimigos internos e legitimar a violência como ferramenta política. Um eco inquietante de períodos que a Europa jurou não repetir.
E, no entanto, vemos na Alemanha o crescimento de um novo partido de extrema direita com expressão real. Num país que durante décadas manteve um cuidado consciente com este tipo de discurso, este sinal não pode ser relativizado.
Portugal não está fora deste contexto. Dentro de dias, teremos também uma escolha a fazer. Até lá, continuaremos a ouvir tempestades artificiais. Narrativas fabricadas para confundir, distrair e reduzir a complexidade do mundo a slogans fáceis.
No meio desta semana pesada, houve também espaço para outro tipo de acontecimento. A abertura do Festival Internacional de Cinema de Roterdão com um filme português, pela segunda vez. Um sinal de que a cultura continua a ser um espaço de resistência.
Como afirmou o realizador João Nicolau, é o apoio à cultura que permite a existência de obras menos comerciais, mais exigentes e menos imediatas. E são precisamente essas obras que enriquecem uma sociedade. As que não se esgotam no fácil. As que obrigam a pensar.
Num tempo de tempestades, talvez seja essa uma das poucas âncoras que ainda vale a pena segurar.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




