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Terça-feira - 13 Janeiro 2026

EXCLUSIVO: Sem Correntes – Quatro momentos de uma semana demasiado cheia 

Destaques

Todas as semanas somos inundados por notícias:  umas que nos passam ao lado, outras que nos atravessam. Esta crónica não pretende dar conta de tudo. Não é um resumo da atualidade, nem uma seleção editorial neutra. É um espelho daquilo que, pessoalmente, me tocou, me indignou ou me fez pensar.

Cada edição do Sem Correntes traz quatro momentos. Nem sempre têm ligação entre si, mas todos me marcaram. São como capturas de ecrã da realidade : flashes de humanidade, de política, de absurdo ou de silêncio. Há sempre mais coisas a dizer. Mas aqui ficam as que escolhi dizer esta semana.

Começo infelizmente por um luto. Porque antes de falarmos do mundo que nos revolta, é preciso reconhecer o mundo que nos dói.

1. Um luto que nos uniu

Foi o meu filho mais velho quem me deu a notícia.

“Mãe, o Jota morreu.”

Confesso que não sabia quem era o Jota. Então o meu filho começou a explicar-me , com aquele brilho sério de quem conhece todos os jogadores da seleção portuguesa  e mostrou-me as primeiras imagens do carro acidentado. Fui lendo as notícias e percebi que dois irmãos tinham perdido a vida.

Antes de saber mais, o meu coração de mãe apertou-se ao pensar naquela mãe que perdeu dois filhos de forma tão cruel . A dor e o choque foram crescendo à medida que fui percebendo os contornos: um casamento recente, uma família unida, filhos pequenos que ficam, sorrisos que ainda ontem estavam vivos nas fotografias. Futuros promissores perdidos . 

E no meio dessa dor, assistimos a algo raro: uma comoção que atravessou fronteiras, clubes, línguas. Dos adeptos do Liverpool às equipas do Europeu de Futebol Feminino,  todos, não apenas a portugueses… o silêncio tomou conta do Campos. Tudo parou: ninguém gritou, ninguém correu, ninguém celebrou. Só presença. Só respeito. 

É nesse tipo de amor simples, espontâneo e verdadeiro que eu acredito. Porque quando a dor é partilhada, não há nacionalidades. Há humanidade. E é isso que, mesmo em silêncio, nos pode unir.

2. Justiça: quando o país já não acredita

Esta semana voltei a ver uma entrevista de Manuela Moura Guedes em que ela afirma, com a frontalidade que lhe é conhecida, que “José Sócrates conseguiu controlar a Justiça” –  revelando como, durante anos, o poder político terá manipulado ou condicionado o sistema judicial (sol.sapo.pt).

“José Sócrates conseguiu controlar a Justiça” – Jornal SOL

“José Sócrates conseguiu controlar a Justiça. O Procurador-Geral da República é indicado pelo primeiro-ministro e nomeado pelo Presidente da República. Indicou Pinto Monteiro que tudo fez para abafar os casos complicados de José

Mas esta reflexão não é apenas sobre um ex-primeiro-ministro. É sobre todos os processos que se arrastam durante décadas. É sobre a impunidade dos poderosos. É sobre o descrédito que se instala quando os cidadãos veem que a justiça só é célere – e implacável –  com quem não tem influência.

Venho dizendo há muito: o nosso futuro precisa do Direito e da Justiça como guardiões da liberdade e dos direitos fundamentais. Não há democracia sem justiça. Não há sociedade livre onde a justiça falha, se retrai ou se torna refém de interesses.

Quando a Justiça não é servida, uma sociedade não apenas se desilude, sucumbe! Porque sem justiça, reina a força, o medo, a desigualdade. E quem perde são sempre os mesmos: os mais frágeis, os que acreditam nas regras, os que ainda resistem à corrosão moral dos sistemas.

3. Nacionalidade, ruído e ignorância

Depois vem a nossa Assembleia da República e o “debate” sobre a nacionalidade portuguesa ,  que de debate teve pouco. O que ali se passou merece, sem hesitação, a classificação de autêntica peixeirada. O palco: um suposto espaço de debate democrático.

O guião: provocações xenófobas e populismo rasteiro. O tom: palavras ocas, frases feitas, gritos. Muitos gritos. E, pelos vistos, uns julgam que estão na casa deles e outros comportam-se como se fossem donos da casa.

Sabem, escrevo isto a partir da Holanda ,  ou melhor, dos Países Baixos (deixo a nota da designação correta, mas vou manter “Holanda” por opção consciente). Aqui, assistimos recentemente à queda de uma coligação de extrema-direita. Por isso agora já se pode ir dizendo com mais liberdade: o que é que esta malta faz quando chega ao poder? Nada.

Claro que todos queremos melhor gestão dos recursos públicos, menos fraudes, uma imigração regulada. Mas o populismo não resolve nada  porque o mundo que temos é complexo, e exige coragem para ver a amplitude dos problemas, não para ficar a apontar o dedo sempre para o mesmo lado (seja ele “de fora” ou “de dentro”).O que querem, verdadeiramente, as pessoas?

Segurança.

Trabalho digno.

Habitação.

Saúde.

Educação.

Focar-se apenas na imigração e na sua demonização não resolve o que já era estrutural. Ou será que já nos esquecemos que, mesmo antes, já havia milhares de portugueses a sair? E continuam a sair.

Alguém respondeu a esse debate com uma frase certeira, algo nesta linha ( que não tenho a frase precisa agora presente ): 

“Os nomes portugueses estão nas listas das escolas de toda a Europa?” 

É verdade. E do mundo. Estamos por todo o lado. Somos um povo em movimento. Cresci a ouvir os meus primos “franceses “ com os seus nomes entre os que “soavam “ a portugueses e os que já tinham nomes franceses, mas os pais: emigrantes portugueses !  E quando os nossos nomes deixarem de ser bem-vindos, para onde voltamos? A nossa “terra” já é múltipla. Já não se esgota num só território. E, talvez por isso, é mais forte do que pensam. Falo com a experiência de quem deu nomes portugueses aos filhos, luso-holandeses, e com total apoio do pai holandês, que se orgulha dessa herança.

Eles nasceram aqui, neste país que também é deles, mas amam Portugal. É por isso que, como contei no início desta crónica, o meu filho mais velho sentiu tão profundamente a morte do Jota. Porque, mesmo à distância, Portugal vive neles. A nacionalidade, afinal, é uma questão muito mais complexa do que a gritaria de certos plenários nos quer fazer crer.

4. Trump, o palavrão e o costume

No dia 24 de junho, enquanto no Porto ainda se recuperava da noite de São João, Donald Trump disse, em direto para a televisão:

“They don’t know what the fuck they’re doing.”

E os noticiários enlouqueceram de choque.Nunca um Presidente tinha dito um impropério em direto, diziam, escandalizados.

Será que esteve no Porto e nós não soubemos?Fica uma tentativa de humor –  que espero não falhada, mas se for paciência, o humor como sabemos é coisa pessoal ( não tenho tempo de falar de anjos e humoristas, fica para a próxima).

Ora, referia-se aos responsáveis do conflito Israel-Irão. Mas o palavrão fez mais manchetes do que a guerra. Como se a linguagem fosse mais grave do que os actos que a antecedem. Dias depois, voltou a ser notícia por usar o termo Shylocks  ( um estereótipo antissemita ) para se referir a banqueiros, gerando reações duras da Anti-Defamation League.Mas, mais uma vez, o escândalo durou um ciclo de 24 horas. Porque também… não há energia para mais.

O que me impressiona não é o que ele diz. É que ainda haja quem se escandalize com palavras, quando tantos se resignaram perante os atos.

Vivemos tempos em que o ruído linguístico serve de cortina para o esvaziamento moral. A verdadeira distopia é esta: já nada nos surpreende. Estamos na linha do abismo de uma terceira guerra mundial, com troca de bombas … e a malta com pruridos linguísticos.

Fecho

Estes foram os quatro momentos que me prenderam esta semana. Poderiam ter sido outros. Ficam estes , porque me doeram, me indignaram, me fizeram pensar. Que esta crónica não vos traga certezas, mas perguntas. E que sirva, acima de tudo, para mantermos viva a capacidade de sentir.

Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.

Por Marisa Monteiro Borsboom

Marisa Borsboom / Correspondente no BENELUX
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