7 dezembro 2025
Estamos às portas de um novo ciclo político. Dentro de poucas semanas, a dezoito de Janeiro, o País irá escolher o seu próximo Presidente e, como sempre acontece em momentos de viragem, sente-se no ar uma tensão silenciosa, uma expectativa e também um cansaço profundo. Debatem-se partidos, ideias, figuras públicas e discursos que se repetem há anos, enquanto outras realidades, bem mais duras e persistentes, continuam sem verdadeira resposta. Neste contexto, parece-me indispensável regressar ao essencial: como pensamos o poder, que vozes ecoam do espaço político e para ele, que País somos e que País continuamos a tolerar ser. É neste enquadramento que escrevo esta reflexão.
Quem me conhece sabe que sou politicamente independente e que em mim convivem duas naturezas que não são contraditórias. Sou conservadora em muitos princípios e liberal noutros, até porque, atendendo à própria palavra, conservar é preservar o essencial e ser liberal é abrir-me ao novo.
E já agora, é também aqui que se manifesta outra faceta do meu conservadorismo: escrevo em português anterior ao Acordo Ortográfico, porque continuo a não concordar com ele. Até que seja revisto, escreverei o português que aprendi, aquele que preserva nuances gramaticais e ortográficas que considero fundamentais para que a língua escrita continue a ser o reflexo vivo da língua que falamos. E isto só porque sou feia e teimosa.
Sempre vivi bem com esta combinação. Permite-me valorizar a dignidade humana e certos valores estruturantes ao mesmo tempo que me deixa espaço para pensar horizontes diferentes e novas formas de compreender o mundo.
O problema é que vivemos dentro de um sistema partidário que, no cômputo global das sociedades ocidentais, é historicamente recente. Embora existissem associações políticas nos séculos dezoito e dezanove, a ideia de partidos como estruturas organizadas, com programas fechados, disciplina interna, aparelhos próprios e identidades rígidas só se consolidou verdadeiramente no final do século dezanove e sobretudo ao longo do século vinte. Este modelo nasceu para organizar a vida democrática, mas acabou por criar caixas identitárias estreitas. De repente, as pessoas passaram a definir-se politicamente como quem escolhe um molde permanente: sou isto ou não sou aquilo. E esta simplificação empobrece-nos.
Deixámos de considerar nuances. Deixámos de valorizar a capacidade individual de liderança. Automatizámos a política quase ao mesmo tempo que automatizámos a tecnologia. O que aconteceu com as máquinas aconteceu também com os partidos: perderam espaço para vozes realmente diferentes. Caso os partidos não fossem as máquinas que são, Ventura, outrora do PSD, seria hoje apenas uma voz interna diversa e não um novo partido. O fenómeno nasce menos dele e mais do fechamento das estruturas que o antecederam.
E não digo isto para o demonizar. Ventura é um homem que pensa o que pensa e diz o que pensa quando quer e como quer. O ponto realmente relevante é o País que o escuta e que o transforma em fenómeno político. Esta semana, apareceu-me no meu feed um programa onde André Ventura discutia liberdade de expressão ao lado de Pedro Santana Lopes. Ventura afirmava defender a liberdade de expressão acima de tudo, mas evocava também referências históricas que remetem para períodos em que essa liberdade simplesmente não existia. E Santana Lopes anuía. Esta incoerência tornou ainda mais evidente a fragilidade do discurso político contemporâneo.
No mesmo período, ouvi a música de Carolina Deslandes, Feia. E esta música não fala apenas de dor. Fala de um País que odeia mulheres, que lhes quer tirar os livros, a voz, a liberdade, que lhes grita aos ouvidos para as pôr no lugar. Fala também desse País que, quando as mata, lhes acende velas mas não acende luz sobre as causas. Carolina não oferece metáforas. Oferece realidade.
E a realidade é esta. Segundo os dados mais recentes da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, nos primeiros nove meses de dois mil e vinte e cinco as forças de segurança registaram vinte e cinco mil trezentas e vinte e sete ocorrências de violência doméstica, o valor mais alto dos últimos sete anos. No mesmo período foram contabilizados dezoito homicídios em contexto de violência doméstica, dezasseis dos quais mulheres. Já o Observatório de Mulheres Assassinadas identificou vinte e quatro mulheres mortas até meados de Novembro, vinte e uma em contexto de violência de género, e quarenta tentativas de homicídio. Estes números, incompletos porque o ano ainda não terminou, confirmam algo que atravessa décadas: em Portugal, muito antes de qualquer fenómeno migratório, a criminalidade violenta que realmente existia eram os crimes contra as mulheres.
Carolina é, por si só, tudo aquilo que a norma não sabe onde encaixar. Uma mulher tatuada, intensa, não convencional, que diz o que lhe apetece e que, por isso mesmo, é alvo de gritos. Ela existe fora do molde e isso basta para incomodar.
E é aqui que surge o paralelo improvável. Ventura também diz sempre o que lhe apetece. Ambos têm convicções fortíssimas e ambos têm uma voz poderosa. A diferença, e vale a pena manter o humor, é que a Carolina canta maravilhosamente bem. O Ventura nunca o ouvi cantar. Não posso afirmar que não cante, mas desconheço.
Ela tem tatuagens. Ele não.
Ela é mulher. Ele não.
Ela fala de amor. Ele não.
E, mesmo assim, ambos revelam tensões profundas no País que os produz.
E isto importa. Um País que produz um Ventura também produz uma Deslandes. E é neste contraste que o País se equilibra, entre forças que empurram para dentro e forças que empurram para fora, entre contenção e libertação, entre medo e coragem.
Feia é, no fundo, um grito de liberdade. Um Abril cantado por mulheres.
É verdade que teremos sempre a Desfolhada, e será sempre uma das minhas músicas preferidas de Abril, mas tirando esse caso brilhante de talento, a grande maioria do que reconhecemos como cantar Abril foi feita e cantada por homens. Homens notáveis, sim, mas sempre homens. E nada contra. Precisamos das vozes dos homens. O que falta é acrescentar, finalmente, a voz das mulheres.
Hoje, ao ouvir músicas como Feia e vê-las assumir esta intensidade, percebemos como se tornam profundamente simbólicas. Mostram que as mulheres criativas do nosso País estão a pôr a sua força ao serviço da sua voz e da voz de muitas outras que ainda não têm lugar para falar.
E talvez mais do que tudo, mostram que Portugal só avança quando as mulheres podem cantar aquilo que tantos ainda têm medo de dizer.
Não resisto a recuperar este livro da minha infância, A Menina Insuportável, da Condessa de Ségur.

Quando o li em pequena, absorvi-o como muitas meninas da época, um guia para nunca ser “insuportável “ porque nenhuma menina quer ser chamada feia. Ao relê-lo em adulta, percebi o óbvio, o que a educação do tempo tentava esconder. A tal menina insuportável não era insuportável. Era livre. Era inteira. Era dona do seu corpo e do seu temperamento. E foi transformada num exemplo do que é ser uma menina feia, porque as meninas bonitas eram as dóceis, as obedientes, as silenciosas. Confundia-se carácter com desafio, liberdade com má educação, pensamento próprio com mau feitio. E claro, como mandava a moral da época, o livro oferece uma redenção final, mas apenas aparente. A menina só se torna aceitável quando se torna dócil. Caso contrário, permanece feia. Eis a pedagogia do passado, e tantas vezes ainda do presente. Meninas boas são as que cabem. As que não cabem, mesmo quando brilham, chamam-se feias.
E diz ainda o ditado popular, desses que atravessam gerações sem nunca serem questionados, que as meninas boas vão para o céu e as outras… As reticências fazem o seu trabalho. A versão moralista deixa subentendido que as outras vão para sítios impróprios, desviados, perigosos. Mas eu prefiro a versão dita em tom de travessura e que agora revejo com total seriedade: as outras vão para todo o lado. E esta brincadeira é uma verdade profunda. Ir para todo o lado é, em si, a liberdade que os homens sempre tiveram. É tão simples quanto isto. Usamos esta frase como humor, mas o que ela revela é o essencial. A liberdade de movimento, de presença e de destino continua a ser a grande diferença histórica entre os céus reservados às meninas boas e o mundo inteiro que durante séculos foi território masculino.
Estamos agora às portas de um ciclo eleitoral, com figuras partidárias que disputam não apenas o poder, mas o imaginário do País. Chegou o tempo de repensar tudo. Ou seja, é tempo de Chegar e inovar a política… isto não é delírio, é uma necessidade evidente e urgente.
E voltando assim aos partidos, há algo que sempre me intrigou. Conseguimos ter partidos para tudo neste nosso mundo, falo até mais inspirada nos Países Baixos que têm “resmas “ de partidos para defesa de tudo e mais um par de botas, mas nunca tivemos, de verdade, um partido das mulheres. Estou errada ? Ignoro ? Se sim por favor enviem prova e eu faço de bom grado uma errata . Até lá, que eu saiba , nem aqui nem em Portugal, alguém ousou criar essa força política transversal, que eu imagino, não ser de esquerda nem de direita, mas que defenderia o essencial: segurança, liberdade e dignidade do feminino. O mínimo vital para quem continua tantas e tantas vezes a existir com medo de viver.
E já agora, se há partidos que hoje se chamam simplesmente Chega, poderíamos imaginar um partido Mulheres ! Aliás , no caso do Chega, convém notar a ironia temporal da nomenclatura . Porque Chega, em abono da verdade, tem limite. Um Chega até quando! E se forem para o poder? Também se recandidatariam como Chega? Nesse caso, teríamos a imagem perfeita da cobra a comer a sua própria cauda. Um verdadeiro chega ao Chega, imaginem bem!Um baste de si mesmos. Eu, que só quero contribuir com honestidade conceptual, até defendo um rebranding caso pretendam longevidade política.
Mas voltando ao que interessa. Não seria difícil imaginar um partido que se chamasse simplesmente Mulheres. Esse, garanto-vos, teria uma nomenclatura perfeita, que nunca passaria de “moda” e é nome para durar enquanto as houver. E entendo bem a ironia disto tudo. Sendo eu mulher, o que me impede de começar este partido? Nada. Só a antecipação certeira de que me gritariam aos ouvidos como gritam à Carolina Deslandes e de que me chamariam louca, no mínimo. E eu teria que dizer para “berrarem baixinho “ uma expressão deliciosa da minha terra , que não gosto de barulheira e por isso não vale a pena. O que vale é fazer aqui um apontamento de humor: esta conversa da loucura fez-me lembrar a famosa música de Vítor Espadinha, em que diz: “Por pouco, muito pouco, eu voltaria a ser louco.”
E isto faz-me pensar na loucura e nos homens e nas mulheres. Tema que claramente está também na base da construção política e do mundo que vivemos. Senão, vejamos:
A loucura nos homens foi sempre recebida com fascínio, quase como marca de génio. Aliás, um dos meus livros favoritos é A Loucura, de Mário de Sá Carneiro. Há aqui um silogismo aristotélico que se aplica aos homens e às mulheres de forma bem diversa.
É homem – é louco – logo, é génio.
É mulher – é louca – logo, internem-na.
As mulheres geniais, quando ousam sê-lo, continuam excelentes candidatas a internamento. E é aqui que o humor se transforma em arma. Porque talvez seja tempo de devolver às mulheres o direito ao excesso, ao delírio, à criação e àquilo que durante demasiado tempo pertenceu ao território masculino. A liberdade de ser inteira sem pedir desculpa.
Se o André criou o Chega, que venhamos e convenhamos tem tanto de louco, porque não um Mulheres? Não se aflijam, que não sou, ainda, tão louca. Mas, se o ambiente merece defesa, se os animais merecem defesa, como aceitar que metade da população humana continue a ser tratada tantas vezes abaixo de cão? Nunca vi esta luta na linha da frente de partido nenhum. Talvez por isso nunca criamos ideologias partidárias e partidos. Talvez por isso a participação das mulheres na vida política seja são parca, da extrema esquerda à extrema direita e por todo o “meio “ . Talvez porque tantas de nós fomos ensinadas a calar a raiva justa, a dor fundadora, a força ancestral que estas músicas despertam. Porque elas recordam-nos aquilo que somos por natureza e que tantas vezes nos tentam ensinar a não ser. Inteiras, no nosso poder de ser, o Graal divino que somos. E são estas as forças que os homens usaram para criar tudo que criaram, à sua imagem e semelhança, e partidos também.
Cinquenta anos depois do primeiro Abril, o que renasce não é o mês. É o sentimento. Um sentimento de Abril, agora das mulheres, vivido à séria e não só de mentirinhas. O que criaríamos nós se fosse à nossa imagem ?
E como sempre… que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom





