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Sábado - 24 Janeiro 2026

EXCLUSIVO: “Todos somos Migrantes”

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A brasileira Emilene Lima vive e trabalha no Porto como formadora, atriz e produtora cultural. Está ligada à dinamização de oficinas de poesia, é apresentadora do podcast “Fado em cidades históricas” que cruza referências expressões artísticas de portugueses, brasileiros, africanos e indígenas e, em relação à questão da emigração, defende que somos todos migrantes.

Emilene Lima chegou a Portugal em 2017. Apanhou a fase da pandemia e, apesar de uma adaptação difícil, começou a integrar-se na cidade do Porto.

“ Não foi fácil a minha adaptação, sobretudo nos primeiros anos”, disse ao Jornal Comunidades Lusófonas. Pouco a pouco foi ganhando uma ligação à terra que a acolheu e desenvolvendo um sentimento de pertença, que lhe permitiu ter novas oportunidades.

Uma dessas oportunidades surgiu através de um trabalho de cooperação com uma cooperativa cultural, Bairro dos livros e de trabalhos esporádicos. Essa colaboração mantem-se até hoje e, junto com outros projetos pessoais e profissionais, permitiram-lhe fazer o seu percurso.

“A área da educação e formação não é fácil nem aqui, nem no Rio de Janeiro, de onde venho, e quando cheguei aqui senti diferenças, por exemplo, na língua, que é a mesma e é diferente”, assinala. Mas simultaneamente, essas diferenças foram positivas, diz-nos, na medida em que vinha com um receio que ia ser tratada com preconceito e essa expetativa não se cumpriu.

“ No princípio não foi fácil, até porque aqui se fala muito rápido, mas não estranhei assim tanto o sotaque portuense, com a troca dos vs pelos bs, por exemplo, já que no interior do Brasil, próximo de Mato Grosso, onde nasci, também acontece isso com outras palavras”, afirma.

O sotaque foi curiosamente pretexto para um projeto em que participou, o coro intergeracional da palavra dita. Um projeto que “partiu do novo Cancioneiro do Porto e reuniu moradores do Porto, locais ou emigrantes para escreverem um texto sobre a vivência da cidade e que foi uma experiência muito rica”, explica Emilene Lima.

A outra vertente profissional que tem desenvolvido é a formação de públicos para a leitura e interpretação de poesia, em espaços culturais como o Macaréu ou o Gato Vadio. Nesse sentido, afirma que o público português é mais participativo em oficinas e eventos poéticos, enquanto o público brasileiro adere mais a eventos relacionados com a música.

Outra diferença, assinala, é o “ facto do público aqui ser mais velho e ter um interesse grande em participar e ler em voz alta poesia”. Essa predisposição faz com que eventos, como as oficinas de leitura poética, tenham uma grande adesão do público.

Os alunos encaram a voz, nas oficinas, como uma ferramenta de transformação, um caminho. E esse trabalho de interiorização e leitura é simultaneamente “de intuição e de repetição e precisa que o aluno faça as suas escolhas, e desenvolva a sua autoestima”, refere.

Emilene Lima também está envolvida em projetos que atravessam o Atlântico e cruzam a Lusofonia. É o caso do podcast do Fado em cidades históricas “que cruza expressões artísticas de brasileiros, portugueses, indígenas e africanos em localidades como Petrópolis, Teresópolis e Ouro Preto”, afirma.

Além dos projetos profissionais, Emilene Lima mostra-se preocupada com as questões da emigração. “ Nós somos todos migrantes e, por isso, é com muita pena que assisto a estes fenómenos de intolerância que repetem o que aconteceu no Brasil”, assinala.

Desafiada a deixar uma mensagem final aos leitores do Jornal Comunidades Lusófonas, afirma que “há um poema de Sophia em que se diz que nenhum momento só podes perder a linha musical do encantamento, e a Lusofonia é a expressão dessa diversidade, e é um alimento para os países que fazem parte dela”.

Rui Marques

Eduardo Lino
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