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Sexta-feira - 1 Março 2024

“Falava-se recorrentemente de crise e da necessidade de “apertar o cinto” “

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Estivemos em contacto com Paulo Rodrigues Ferreira, Professor na Universidade de Carolina do Norte. Abriu o seu coração dizendo o quão gratificante é o ensino, que ainda não ponderou regressar a Portugal. Está radicado nos Estados Unidos desde 2016. E por vezes sente falta de Lisboa.

Jornal Comunidades: Como foi parar a Carolina do Norte, e porquê Carolina do Norte?

Paulo Rodrigues Ferreira: Antes de me mudar para a Carolina do Norte, eu trabalhava em Nova Iorque. Ensinava Português no Queens College e também no Bronx Community College. Trabalhava também em part-time noutras escolas de línguas na área de Nova Iorque e Newark. Embora adorasse os sítios e os colegas com os quais trabalhava, tinha uma filha muito pequena e, passando demasiado tempo na rua, entre transportes públicos e aulas, não tinha tempo para a escrita. Por isso, candidatei-me para algumas posições de ensino que me trariam mais estabilidade. Acabei por ser chamado para a Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, e é aí que ensino desde finais de 2018.

JC: Pode revelar-nos o seu percurso académico?

PRF: Estudei muitos anos em Portugal. Licenciei-me e completei o mestrado e doutoramento na Faculdade de Letras de Lisboa e trabalhei em projetos de investigação patrocinados pela Universidade de Lisboa, como o projecto de Centenário da Universidade. Com uma bolsa de doutoramento da FCT, passei 4 anos a investigar na BN de Portugal e de Madrid – e também em arquivos diplomáticos portugueses e espanhóis -, e escrevi uma tese em história contemporânea sobre os Conceitos de Iberismo em Portugal e Espanha nas primeiras décadas do século XX. Depois de me doutorar em 2016, mudei-me para os Estados Unidos e tenho vindo a publicar artigos não apenas sobre as relações culturais entre os países ibéricos, mas também sobre escritores como Ruben A. ou António Lobo Antunes, que têm nas suas obras um interesse quase psicanalítico na análise de uma decadência portuguesa que está ligada ao fim do império. Nos últimos anos, tenho-me interessado em investigar sobre temas que se centram na identidade portuguesa, ou melhor, no que é ser português, e nas maneiras como esse ser português é entendido no estrangeiro. Interesso-me também por autores que exploram uma obsessão nacional por um passado de Descobrimentos que, segundo dizem, tem impedido os portugueses de se completarem no presente.

JC: Como encara este desafio? Já se sente integrado na comunidade?

PRF: Ensino na Carolina do Norte com a mesma naturalidade e paixão com que ensinei noutros lugares. Adoro ensinar, criar ligações com os estudantes, sentir que contribuo para criar homens e mulheres, e que das minhas aulas de língua os estudantes retirarão ensinamentos para a vida. Sinto-me perfeitamente integrado na comunidade, embora por vezes sinta falta de Lisboa e dos ambientes urbanos em que vivi, como Nova Iorque. A UNC é uma universidade fantástica que me possibilita fazer algo que me deixa feliz e contactar com jovens extremamente inteligentes que me ensinam a ser melhor a cada novo dia.

JC: Quais são os seus objetivos profissionais e pessoais, pode levantar-nos um pouco o véu?

PRF: Os meus objetivos profissionais e pessoais passam por me realizar enquanto homem. Tal inclui não apenas ser bom pai, amigo e colega, mas progredir na carreira de professor, publicar mais livros e artigos académicos, de maneira a que aquilo que faço influencie mais pessoas e me traga satisfação pessoal. No essencial, tenho espírito aberto e gosto de pensar que as melhores oportunidades chegam sempre no momento certo.

JC: Pensa um dia regressar a Portugal?

PRF: Não excluo essa possibilidade, mas não é algo que tenha planeado. Vivo no presente, ensino estudantes fantásticos, numa cidade bonita. Porém, não sei se no futuro poderá haver a chance de voltar a Portugal. Quando de lá saí, a sensação era a de não haver futuro para ninguém. Dizia-se que trabalhos em ensino eram impossíveis de encontrar. Falava-se recorrentemente de crise e da necessidade de “apertar o cinto.” Espero que a situação esteja melhor e que pessoas como eu possam ter oportunidade de cumprirem a sua missão de vida lá. Mas, insisto, adoro os Estados Unidos e, se ficar por cá até ao fim da vida, viverei feliz.

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