Iniciamos a Sessão com uma pequena biografia de um dos três fundadores do Fantasporto, Mário Dorminsky. Tem um guião genético muito diversificado. Da parte da avó, era oriunda da Prússia. O seu pai nasceu em Terras de Sua Majestade, onde o Big Ben é Rei. E devido ao tipo de atividades que o seu avô desempenhava, a vida “nómada” era um habitué. Seguiu-se Portugal, onde se instalaram e fruto do casamento com uma lusitana, surge um filho, Mário Dorminsky, como resultado de uma longa metragem…nove meses. O mundo e o fascínio das artes está no sangue: abraçou “O Fantasporto” para rasgar velhos estigmas da ditadura, onde Salazar era ator principal, numa película demodê. A “Revista Cinema Nova”, surge em 1978, onde dava a conhecer ao público português o que se projetava no cinema internacional.

Mesmo antes do intervalo, surgiu a oportunidade de falar com Mário Dorminsky. Falou-nos sobre cinema e o seu Fantasporto, que nunca deixou a velhinha invicta. Eram épocas de grandes transformações sociais e políticas e ainda se vivia o rescaldo da Revolução, que também foi mote para muitos filmes, nacionais e estrangeiros, afinal não é todos os dias que se fazem revoluções com cravos, mais concretamente vermelhos.
Na altura era muito comum haver críticos de cinema, (agora não há). Mas a determinada altura decidiram que, além da Revista, deviam também organizar projeções de filmes. Que de alguma forma enquadrassem a lógica, da Revista, apresentando um mundo fantástico, mas na altura desconhecido. Estamos a reportar-nos à década de setenta (1978).

Vivia-se uma época em que muitos filmes tinham emergido a nível internacional e ainda não tinham chegado às nossas salas de cinema. Foi no descrito contexto que surgiu a oportunidade, para gente jovem avançarem com projetos, ciclos de cinema. Eram estruturados quer no cinema Lumière, quer nas duas salas e posteriormente em frente, no auditório Carlos Alberto, com regularidade, de 15 em 15 dias. Estavam a organizar um ciclo de cinema vocacionado para o mundo fantástico, que contavam com o número 11 da “Revista Cinema Novo”.
Decidiram fazer uma revista especial. porque a Revista, oferecia a facilidade de ir a festivais internacionais em condições favoráveis. Tudo pago, desde viagens, estadia e alimentação, para participarem em festivais internacionais.
Depois de uma ida a Espanha, ao Sitges, um festival de cinema de terror, perceberam que o terror não era propriamente aquilo que lhes interessava. Após a visualização, as conversas que realizaram com uma série de pessoas, particularmente duas, de quem se tornariam na altura amigos e que estavam também ligados à área jornalística, os estudiosos de cinema procuraram novos caminhos.
Pretendiam alargar o âmbito, da lógica de terror, a algo que se concentrasse mais com o imaginário, porque consideravam que o terror era algo que podia ser real.

Após trocarem certas ideias e opiniões, surge uma visão a três: criar com determinantes limites algo de diferente no Norte do país. Beatriz Pacheco, José Manuel Pereira e Mário Dorminski deram o pontapé de saída para a criação do Fantasporto. O cinema do imaginário como é o caso do filme de Alain Resnais, chamado “Providence”, seria exemplo disso.
Recorda-se que o nome fantástico aparece um pouco por todo o lado com a consequência, que foram de alguma forma absorvidos por esse mundo do fantástico. A sua inovação passou a designar-se como cinema fantástico. Escolheram um conceito muito amplo que passa também, por tudo o que é imaginário. O que não é real, surrealismo. Por essa valência do imaginário destinado a públicos muito mais amplos e não a públicos mais radicalizados, na área do terror, a ideia do fantástico como sendo, um novo género, devia ser explorado e assim foi concebido.
Realizaram um ciclo de cinema fantástico no Carlos Alberto. Durante 15 dias, no qual foram buscar algumas ideias do Festival de Cinema de Sitges (Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha, a 34 quilómetros de Barcelona), é o principal festival de cinema do mundo especializado em géneros de terror, fantasia e ficção científica.
De alguma forma “nós fomos copiando alguma lógica de funcionamento”, do festival. Apresentávamos mais filmes, porque existiam sessões a meio da tarde, algo que não era muito vulgar na altura, assim como sessões à meia-noite. Em resumo: bilhetes para 4 filmes no próprio dia. Bem como cartões que davam para todo o festival, o designado “livre trânsito”. Foi o primeiro evento com essas características em Portugal, um ciclo de cinema português fantástico!
Depois do intervalo: Cinema Batalha do Porto
45 anos a apresentarem o mundo fantástico: presentemente o Fantasporto exibe no cinema Batalha, mas nem sempre foi na designada sala do Porto. “Muitas coisas mudaram ao longo destes anos”. Segundo um dos fundadores, revelou que 2026 correu muito bem: passaram no Cinema Batalha, durante 18 dias, cerca de 15 mil pessoas. No entanto é difícil aferir, porque muita gente vai a uma sessão, ao fórum, ao “Summit das Movie Talks”. Mas os números rondam por aí.
Baixaram consideravelmente o número de espetadores em relação o que era o número de espetadores no Rivoli, quer inclusivamente no Carlos Alberto, que conheceram a sua génese nas duas salas emblemáticas da invicta.
O Fantasporto nunca foi para Lisboa. Desde a origem quiseram manter acima da linha centro do país, mais virados para a Galiza, para o Atlântico, ou seja para o mundo: a nível Internacional uma singularidade cinematográfica no meio dos festivais existentes em Portugal.
Verifica-se um aspeto, que é muito importante de salientar e que não é muito divulgado. É um festival de longas-metragens, de cinema que se vê nas salas comerciais de êxitos que existem em todo o mundo. Podem não ser aqui, mas são nos países de origem. É extremamente importante e, por outro lado, também cria uma imagem Internacional da existência de um festival no Porto, com características diferentes.
Do ponto de vista dos estrangeiros que nos visitam são sempre entre 150 a 200 por ano. Consideram o Fantasporto um festival que gostam de ver novamente e também vivemos repercussões e referências interessantes nas revistas americanas, considerando o Fantasporto um dos 25 mais “Cool festivals of the World”.
Mas nem tudo são rosas e o Fantasporto sofre de uma doença crónica como é regra geral da cultura: a diminuição dos orçamentos. Um dos grandes patrocinadores do festival, cortou bastante nos apoios, e isso reflete-se na oferta do próprio festival.
O festival no passado contava com um orçamento de cerca de 1milhão de euros. No presente momento, são números irreais para a nossa realidade. “Continuamos com o patrocínio da Super Bock, um patrocinador com 44 anos. No entanto movem-se muito por movimento mediáticos e existem outras áreas em que estão a receber muito apoio.” Refere Mário.
Segunda Sessão: Porquê o cinema Batalha?
O cortinado afasta-se novamente: “Não escolhemos, estamos dependentes da Câmara Municipal do Porto” diz Mário Dorminsky. Em relação aos espaços onde fazemos o festival, estivemos a exibir no Rivoli e quando reapareceu o Batalha, renovado e com boas condições, fomos para lá.
Pessoalmente, e mesmo a nível de equipa, revelam-se diferenças de opinião. Eu pessoalmente queria voltar ao Rivoli, e vamos tentar. Quanto mais não seja, até aos 50 anos do festival, e só faltam cinco. “Pretendemos voltar para o Rivoli porque é a sala mãe e o Carlos Alberto a sala pai, e o filho é o cinema Batalha”. Por esse motivo pretendemos voltar para a mãe. Gostamos muito dela e é uma sala com condições diferentes para nos poder receber em termos que são as necessidades de um festival: espaços físicos mais diversos, para se poderem fazer as exposições, manter os colóquios, e é um espaço para nós muito mais agradável”. Recolhem-se as cortinas, apagam-se as luzes.
The End.
Encerra a Sessão, enquanto um dos fundadores do Fantasporto com convicção promete, que para o próximo ano volta mais uma edição …




