Pintura de Maria de Medeiros, fotografia de Frédéric Bourret
Frédéric Bourret, fotógrafo francês, falou-nos sobre a sua ligação quase umbilical da fotografia e o espaço circundante, sob a perspetiva de uma lente. Não sabia o que o futuro lhe reservaria. Licenciou-se em Marketing e Comunicação, não seguiu o caminho académico tradicional nas artes. A sua formação é uma mistura de estudos não diretamente relacionados à fotografia, mas com experiências profissionais que moldaram o seu olhar sobre o mundo.
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Ao longo do seu percurso profissional aprendeu muito mais do que qualquer escola poderia ter feito. Trabalhou em diferentes setores, mudou-se para várias cidades e gradualmente percebeu que observar os espaços urbanos estava a tornar-se essencial para a sua vida.
A fotografia surgiu mais tarde, quase naturalmente. O que começou como uma forma pessoal de documentar os lugares onde viveu, aos poucos transformou-se num compromisso a tempo inteiro. Ao longo dos anos, desenvolveu séries que evoluem e se reinventam, o seu trabalho começou a ser exibido regularmente em França e no exterior. A sua vida profissional foi construída progressivamente, sem um plano predefinido, como uma exploração contínua das cidades, os seus ritmos, silêncios e os vestígios que as pessoas deixam para trás.

A fotografia não era um sonho de infância para Frédéric, surgiu muito mais tarde, quase por acaso. Durante muito tempo, observava simplesmente as cidades em que morava, a maneira como as pessoas se movimentavam. Num determinado momento sentiu a necessidade de guardar um registo dessas impressões e a câmara tornou-se a maneira mais natural de o fazer.
A sua primeira série em Nova Iorque, foi feita quase inteiramente com uma câmara descartável. “Eu não pensava como um projeto à época, era apenas uma maneira de captar o que eu estava a viver. Só mais tarde percebi que essas imagens carregavam algo pessoal e consistente: Um encontro em particular desempenhou um papel decisivo no meu caminho artístico. Quando mostrei aquela primeira série de Nova Iorque, alguém reagiu com uma intensidade que não esperava, quase como um reconhecimento emocional.” Refere o fotógrafo.

Aquele momento fez-lhe entender que o seu trabalho poderia ter repercussões além da sua própria experiência, encorajou-o a levar a fotografia a sério, a confiar nessa direção, e moldou o rumo que a sua carreira tomou posteriormente.
Expôs em grandes galerias
“Expor sempre foi uma experiência significativa para mim”, explica Frédéric, não tanto pelo local, mas pelos encontros que proporciona. O que mais importa é ver como as pessoas reagem às suas fotografias, as emoções que projetam, as memórias com as quais se reconectam, os silêncios que invadem. É isso que o motiva.
“No fim, o que fica comigo são os momentos em que alguém fica diante de uma fotografia e sente algo pessoal, algo que eu jamais poderia ter previsto. Essa conexão, frágil, subjetiva, às vezes muito íntima, é a verdadeira recompensa de expor.” Salienta.
O seu fotógrafo favorito e que mais admira é Lee Friedlander, Norte-Americano. O que o fascina é a maneira como ele brinca com a perceção, como constrói imagens que parecem simples à primeira vista, mas que lentamente prendem o olhar do espetador. As suas composições são repletas de camadas, reflexos e tensões visuais que nos fazem olhar novamente.
Sentia-se próximo dessa abordagem mesmo antes de conhecer o seu trabalho. Quando descobriu um dos seus livros, comprou-o imediatamente, porque ele ressoava fortemente com o que Frédéric já estava a tentar fazer. Foi como encontrar uma linguagem visual que vinha almejando instintivamente.
Frédéric é muito atraído por muitas formas de arte além da fotografia, mas o que mais o comove é o próprio ato de criação. “Sou sensível a artistas que ultrapassam limites de forma significativa, que exploram novos territórios ou questionam o que uma obra de arte pode ser. Às vezes, sou mais tocado pela intenção, pelo processo ou pelo salto conceitual do que pelo resultado visual.” Observa.
Seja pintura, escultura, performance ou mesmo arquitetura, o que o interessa mais é o momento em que um artista ousa mudar algo, abrir um novo caminho. Esse impulso criativo, essa busca por uma maneira diferente de ver ou expressar, ressoa nele mais profundamente do que qualquer meio específico.
Conexão entre artistas portugueses e franceses: “falam” a mesma língua?
Para o fotógrafo, vê uma forte conexão entre artistas portugueses e franceses, mesmo que nem sempre “falem” a mesma linguagem artística. O que eles compartilham é a curiosidade pelo outro, o desejo de explorar e uma verdadeira abertura ao diálogo. Os artistas portugueses, em particular, impressionam-o com seu talento, a sua generosidade no processo criativo e sua capacidade de mesclar tradição com experimentação.
Foi exatamente isso que o inspirou a criar a Metamorfose Urbana (metamorfoseurbana.com), um diálogo artístico entre Portugal e Paris. O projeto baseia-se na ideia de que as cidades, assim como os artistas têm as suas próprias vozes e que reuni-las cria novas perspetivas.
Segundo Frédéric, trabalhar com artistas portugueses tem sido incrivelmente enriquecedor. São abertos, inventivos e profundamente comprometidos em expandir os limites artísticos de maneiras significativas.
“Para mim, a conexão entre as duas culturas não se resume a falar a mesma língua, mas sim a reconhecer as sensibilidades um do outro e deixá-las ressoar. É aí que a verdadeira conversa começa…”
A exposição Metamorfose Urbana será realizada de 15 a 21 de junho, e a vernissage acontecerá no dia 18 de junho de 2026.
Uma mensagem para os que fazem da arte a sua vida? Qual é o maior desafio que você encontra?
Para aqueles que fazem da arte a sua vida, diria simplesmente: mantenham-se próximos daquilo que os faz sentir vivos.
Criar nem sempre é fácil, e a parte mais desafiadora é muitas vezes continuar quando surgem dúvidas, cansaço ou incertezas. Mas esses momentos fazem parte do processo. Eles testam a sua sinceridade e a sua capacidade de se manterem conectados com aquilo que os motiva.
Muitas vezes sinto que a verdadeira recompensa de fazer arte não é a imagem final, mas o estado em que se entra durante o processo criativo.
É um espaço onde tudo se torna mais nítido, mais intenso, mais significativo. Como gosto de dizer: “Quando crio, não escapo da vida, sinto-a com mais clareza. Essa sensação é o que me mantém em movimento. Se a arte é o seu caminho, confie nessa sensação. É o guia mais confiável que você tem.” Aconselha Frédéric Bourret.
Este último projeto que passa por Portugal, abriu-lhe os horizontes sobre o país. Segundo Frédéric, o que mais gosta em Portugal são as pessoas. “Há um calor humano, uma sinceridade e uma gentileza natural que se sente imediatamente. As conversas começam facilmente, a generosidade surge sem esforço e há uma maneira de acolher os outros que parece ao mesmo tempo simples e profundo. O humor é mais discreto e subtil do que em França e cria uma verdadeira sensação de proximidade e cumplicidade. Também me comove muito a relação que as pessoas têm com suas cidades, as suas tradições e paisagens. Há uma força silenciosa na maneira como Portugal equilibra a modernidade com a memória, o movimento com a calma. A luz, o ritmo da vida, a sensação de espaço, tudo isso ecoa em mim. Mas se tivesse que escolher uma coisa, seriam as pessoas. A sua abertura, gentileza e capacidade de criar conexões genuínas. Provavelmente foi isso que me fez querer construir pontes artísticas entre Portugal e Paris.” Termina Frédéric Bourret.




