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Quarta-feira - 13 Maio 2026

Jorge Moita: O “Camaleão” da Arquitetura, Design e Moda

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Foto: Guido Ramirez na Fundacion CajaBadajoz

Alentejano de gema, habituado a lidar com “nuestros hermanos”, Jorge Moita é o caso típico do habitante de zonas raianas. O seu percurso começa quando decidiu seguir Arte e Design com o Arquiteto Kuski Vieira, figura que marcou profundamente o seu percurso pessoal e profissional. Designer, arquiteto de moda e professor, o seu percurso cruza a Benetton e o Royal College of Arts de Londres, as malas La.Ga feitas por reclusas de Tires que chegaram ao MoMA de Nova Iorque, o prémio “Infante D. Henrique” para o melhor design do país, e comunidades migrantes em Almada. Tudo com uma obsessão constante: o design como ferramenta de transformação humana. O “Viajante” prossegue…

Foto: Guido Ramirez na Fundacion CajaBadajoz

“Fui um dos primeiros alunos do curso de Arquitetura de Design e Moda. Na altura, o curso foi pioneiro pela estrutura e corpo docente, conduzido por Eduarda Abbondanza, Manuel Alves e Manuel Gonçalves. Foi um grupo muito interessante de professores que já estavam ligados à moda, e que abriram as portas ao curso de Design de Moda.” Inicia desta forma Jorge Moite.

Na faculdade, Jorge acabou por cruzar com essa área que sentia ser a sua verdadeira vocação. Dividido entre Arquitetura, Design e Moda, optou por esta última por lhe parecer oferecer um espectro mais amplo. Através de colegas do curso de Arquitetura de Design, alguns oriundos da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, que o ajudaram a moldar as mãos com outras técnicas. Teve a possibilidade de assistir às aulas do professor Graciano da Silva e do professor Brandão, que o descreve como “muito importantes para a minha formação”. Dividiu-se assim entre o Design de Equipamentos, a Arquitetura e o Design de Moda.

Ainda no percurso académico, estagiou com a agência de comunicação de Xana Nunes e com a GlobalPress, de Isabel de Carvalho. No terceiro ano, uma experiência no Correio da Manhã através do prémio “Infante D. Henrique” abriu-lhe portas à escrita e à televisão, um outro fascínio, numa época em que o digital dava os seus primeiros passos. Jorge não ficou alheio a esse movimento, e pôs as mãos na massa.

A sua vertente camaleónica levou-o a projetos tão distintos quanto a revista Colors, criada por Tibor Kalman para a Benetton, com fotografia de Oliviero Toscani. Convidado em Lisboa para um evento de comunicação da marca, foi depois recebido em Itália, na sede em Veneza, onde visitou o espaço que viria a ser o laboratório de comunicação da empresa. Dessa visita resultou um artigo publicado no Correio da Manhã e uma entrevista a Toscani que o ajudou a clarificar o seu próprio caminho, algo que confidenciou à própria Eduarda Abbondanza, atual diretora da ModaLisboa.

No quinto ano, partiu para Londres para um curso de Verão na Central Saint Martins, onde o ilustrador Trevor Flynn deixou uma marca duradoura no seu percurso, e a mala do conhecimento ia-se enchendo.

Todas estas valências viriam a culminar num convite para integrar o laboratório de comunicação da Benetton como Project Manager. Geriu projetos da Features – com lojas no Chiado, em Bolonha, Istambul e Hong Kong – e, no fim desse período, entrou no Royal College of Arts de Londres. “Foi uma experiência única, que sempre ambicionei”, confessa. Foi admitido no mestrado em Products Design e, em simultâneo, recebeu um convite para trabalhar com a sua sócia Gala Fernandez no Instituto Europeu de Design (IED) em Madrid, não como aluno, mas como coordenador e professor. “Criámos o European Design Labs em Madrid”, relembra.

De regresso a Lisboa, o atelier que fundou nunca foi encarado como um espaço académico convencional, mas como um laboratório. Começou incubado num espaço da Vista Alegre no Chiado, num edifício pertencente à família dos Duques de Bragança – então em obras – onde D. Duarte e seu pai autorizaram a presença temporária de artistas. “Ficámos mesmo no coração do Chiado, ao lado dos Estúdios Victor Córdon. Foi uma experiência muito importante, porque encarávamos esse espaço também como lugar de formação contínua, de workshop, de aprendizagem”, recorda Jorge.

Foi desse laboratório que nasceu uma das parcerias mais marcantes da sua carreira: o protocolo com o Estabelecimento Prisional de Tires e o Ministério da Justiça. “Foi a vertente mais humana do meu percurso profissional”, assume.

As La.Ga Bags viriam a tornar-se um dos projetos mais emblemáticos do seu percurso. Criou o atelier Krv Kurva, com Daniela Pais, para as comercializar. Cada mala – produzida em edição limitada de 199 peças, em Dupont Tyvek® – tem o exterior criado por um designer ou artista convidado de diferentes países, tornando cada peça única. Mas o que verdadeiramente distingue o projeto é a sua dimensão humana: feitas à mão por reclusas do Estabelecimento Prisional de Tires, que adquirem assim uma competência transferível para a vida fora da prisão. O reconhecimento nacional veio em 2002, com o Prémio Nacional de Design. O internacional também não tardou. Em 2010, a mala La.Ga foi inclusivé selecionada pela diretora de merchandising do MoMA de Nova Iorque, Lauren Solotoff, para integrar a coleção Destination Portugal da loja do museu. Uma distinção que Jorge Moita descreve simplesmente como “o grande salto”. 

Quantos anos esteve emigrado?

“Estive muitos anos fora, uma espécie de ioiô, vai e vem.” Percorreu o mundo e regressou com a bagagem ainda mais cheia de experiências únicas. “Tenho a sorte de ter Badajoz à vista em Elvas e através da sua janela já antevia o que iria ser o seu futuro, acabando por ter uma ligação com o estrangeiro. Para mim, o estrangeiro foi sempre a passagem da fronteira – ainda da antiga fronteira. Desde miúdo que tenho esta relação com os dois lados. Como eu digo, é uma bipolaridade: Portugal e Espanha. Muito presente nas zonas raianas, mas aqui sente-se especialmente este contrabando cultural.”

Os pais estiveram sempre ligados ao comércio: o pai com um restaurante de marisco muito popular em Elvas frequentado pelos espanhóis que vinham buscar o melhor da costa portuguesa; e a mãe com uma loja de roupa vinda do norte, de Guimarães e Braga, igualmente procurada pelos vizinhos de além-fronteira. “A emigração acaba por ser um elemento de nascença para quem é da fronteira.”

Carreira na Rússia e regresso a Portugal

Esteve em Espanha, Itália, França, e Inglaterra, motivado tanto pela formação como por projetos profissionais. Passou pela Dinamarca por razões familiares (a sua filha nasceu naquele país) e envolveu-se com marcas dinamarquesas. Visitou a Rússia como lecturer convidado da British School of Art and Design, um país pelo qual desenvolveu um fascínio assumido.

“Tinha trabalhado com o Museu Hermitage, mas para o nosso Ministério da Cultura. Fiz um projeto para eles em Portugal, como peça de convite à comitiva do Hermitage quando esteve no Palácio da Ajuda.” Casou com uma cidadã russa de origem ucraniana e, já em 2014, face ao agudizar da situação política, decidiram regressar a Portugal. “A antever algumas situações complicadas. Se não fosse isso, teria permanecido na Rússia.”

Em 2021, foi convidado para fazer um episódio de “O Fungagá das Artes”, um projeto online do Museu Nacional de Arte Contemporânea. O projeto recebeu o prémio APOM de Melhor Projeto Educativo no país. Esta colaboração abriu outros projetos, como a edição de novas La.Ga Bags desenhadas pelos artistas António Faria e pelo Nelson Ferreira: somando à lista impressionante de artistas portugueses que representa a coleção destas malas premiadas, que incluem a Paula Rego e a Helena Almeida.

Atualmente, Jorge Moita desenvolve um projeto na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, a convite da sua Diretora Executiva, Cesalina Frade e equipa, centrado na economia circular com impacto social. “A trajetória que desenvolvo tem sempre o impacto social como elemento definidor, aquilo que hoje se chama Human Centered Design.”

O projeto, iniciado há dois anos, trabalha com uma comunidade migrante indo-asiática na zona de Almada, onde foi instalado um atelier que gerou uma coleção de objetos com impacto também na comunidade académica do campus. Denominado “Formação de Informação em Futuro”, foi distinguido no ano passado com o Prémio ADM, que reconhece boas práticas de inclusão no grupo Nova.

O modelo tem sido replicado noutros contextos: o município de Peniche, o município de Loulé, a Casa do Esparto, o Instituto Politécnico de Beja, e ainda um projeto de acervo e memória em Elvas, em parceria com o Museu Militar, num espaço do Exército Português com protocolo estabelecido para documentação e recolha de elementos.

No passado 22 de abril, Jorge Moita prestou testemunho no Palácio de Queluz, na presença da Ministra da Justiça, sobre o projeto iniciado em 2005 com o Estabelecimento Prisional de Tires: uma investigação que procura perceber como metodologias de design podem mudar vidas, criar produtos com impacto ambiental e social, e melhorar as condições de quem está envolvido nestes processos.

“O centro foca-se nas questões humanas e na valorização de todos os participantes.” É este o universo que Jorge Moita tem vindo a desenvolver com a Universidade Nova de Lisboa, atualmente como convidado de uma pós-graduação de Inovação, Tecnologia e Empreendedorismo. “…onde lecionei a cadeira de Human Center Design. É este o universo onde me movo agora com outros convites, outras questões ligadas sempre a esta temática.” Revela-nos Jorge Moita.

Lígia Mourão
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