Com participação em mais de cem películas, curtas, longas metragens, teatro, televisão, realização, atriz, encenadora, Maria de Medeiros nasceu em Portugal, bem como os seus pais, mas cresceu na Áustria, onde viveu a sua infância. Quando se deu o 25 de abril de 1974, regressou a Portugal e depois foi para Paris, onde se encontra a viver presentemente. A artista abriu-nos a porta da sua vida. Filha do reconhecido e famoso maestro António Vitorino de Almeida, carrega no ADN as artes, profissional na área de representar, também dá um toque musical, com três projetos: Áudios de Estúdio, “A Little More Blue” de 2007, Penínsulas & Continentes em 2010 e Pássaros Eternos de 2013. Outras melodias desafiam a pauta da sua vida: com uma clave de Sol e “ação” inicia a entrevista.

Figura incontornável da sétima arte a nível nacional e internacional, Maria de Medeiros revela-nos sobre a sua vida em várias etapas. Na adolescência viveu em Portugal, uma plataforma de onde parte para trabalhar um bocadinho por todo o mundo. É uma vida cheia de encontros muito bons, que os considera por vezes milagrosos e que foram bifurcando, porque quando era criança, destinava-se às belas-artes e o encontro com um professor de filosofia, marcou todos os seus alunos no liceu francês de Lisboa, incutiu em Maria que fosse para Paris estudar filosofia.
“Mas eu já tinha, feito cinema e teatro em Portugal, e ainda não estava decidida. Revela Maria, mas depois um amigo convenceu-a apresentar os concursos nas escolas de teatro de Estado em Paris, que são “extraordinárias” e entrou, passou no concurso e percebeu que era um sinal claro para que enveredasse pela via da sétima, a arte que seria o seu futuro. “O cinema foi uma maneira, nomeadamente a realização, de voltar às belas-artes.” Revela.

É uma artista de muitos ofícios e combina as várias facetas que trás consigo: é Atriz, “Realizadora, fez longas-metragens, curtas-metragens, televisão, realização, teatro, encenação e também se dedicou à música, que é muito importante na sua vida. O seu pai é músico, compositor e pianista. Além de ser musicólogo, grande conhecedor da história da música. A sua irmã, mais nova, a Ana de Medeiros, também é compositora, violinista, professora no Conservatório de Lisboa, e são pessoas que a impressionam muito pela genialidade no que fazem na música.
Maria entra no mundo musical com muita humildade e muito cuidado, porque não se considera música, embora esteja muito presente em toda a sua vida e na forma de criar, e apreender as coisas, de se posicionar, mas faz música enquanto atriz, também dança, para ter um controlo da gestualidade. Produziu três discos, até se atreveu a compor algumas das canções, mas sempre com muita humildade.
Tocava instrumentos ou era só vocal?
Tocou violoncelo, mas só quando era criança, “infelizmente não consegui perpetuar nessa trajetória”. Foi nomeada várias vezes aos Globos de Ouro, como melhor atriz no “Capitães de Abril” e melhor realização, onde desempenhou ambas funções.

Fazer esse filme representou 13 anos da sua vida, de pesquisa, obstinação, porque é um filme de guerra. “É um filme muito ambicioso”, salienta Maria, e conta a epopeia que foi para os jovens capitães de Abril realizar essa revolução tão portuguesa, que é uma referência e um exemplo quase único na história do mundo. “Uma revolução feita no respeito, das populações civis feita por militares, mas que instaurou uma Democracia civil”. Foi uma revolução “do bem” e deu-se conta na sua geração e viver essa mudança em Portugal na construção de uma Democracia na Europa.
Sentiu como um dever moral, um dever de vida, um objetivo de vida realizar esse filme e “estou muito feliz que ele exista”. Enfatiza. Recentemente foi restaurado e é muito bom poder revê-lo nesta versão, é como se fosse novo. Segundo a artista, pensa que hoje em dia teria sido talvez impossível colocar 50 blindados a percorrer Lisboa, colocar 700 pessoas no Largo do Carmo, e recriar a atmosfera que se viveu durante o dia 25 de Abril de 1974.
Hoje em dia “parece-me um bocadinho como um sonho ou um milagre de termos conseguido fazer o filme assim.”
Qual é que foi o projeto que lhe deu mais gosto em fazer?
“Sou péssima em listas” responde prontamente, e a minha lista está sempre a mudar. Tendo em conta que vai fazendo mais filmes, vai conhecendo mais pessoas, e estabelecer uma comparação não é tarefa fácil. Mas devo dizer que existem filmes portugueses em que participei, que fez com que esses realizadores portugueses me marcassem muito, nomeadamente a Teresa Villaverde, em “Três irmãos”. Foi o filme que a transformou em laureada por intermédio do prémio de melhor atriz no Festival de Veneza”.

Esse filme também foi recentemente restaurado e voltou aos grandes ecrãs, “foi uma grande emoção”. E esteve ao lado de Teresa, nessa nova edição do filme. “Estivemos em festa, pois considero que foi das primeiras vezes que Portugal tinha obtido um prémio assim tão importante num festival como Veneza”, evidencia Maria.
Foi um filme que a marcou muito. Também gosta do filme do Serge Tréfaut, “Viagem a Portugal”, que também foi uma aposta muito desafiadora, porque representa o papel todo em russo, um idioma que não sabe falar, mas aprendeu com uma coach, excelente de russo. As suas deixas eram todas em russo, “foi um gosto de trabalhar pelo mundo” diz a atriz, e gosta muito de trabalhar em várias idiomas, mas, “alguns dos filmes mais importantes na minha carreira são portugueses”. Afirma.
Paris, Paris, je t’aime!
Vivo em Paris neste momento, tenho dupla nacionalidade, mas sinto-me portuguesa, e penso que ser português, é ser habitante do mundo. Toda a história de Portugal conta isso. Os portugueses estão por toda a parte, gostam de viajar, gostam de se integrar, gostam de sonhar com o que deixaram e com o que ainda esperam encontrar.” E o facto de não viver em Portugal não afeta nada o seu sentimento de pertencer à cultura portuguesa.
Veio para Portugal em 1974, estudou no liceu francês em Lisboa, e iniciou a Universidade em filosofia em Portugal.
Viveu nove anos em terras lusas e foram muito importantes, pois atravessou toda a adolescência, além de terem sido anos muito importantes também na história de Portugal, porque foi a consolidação da democracia no país.
Maria faz questão de dizer sempre que é portuguesa, mas salienta que é muito triste ainda prevalecerem certos preconceitos, “são muito resistentes”, salienta. E não se refere apenas aos preconceitos em França. Porque existem, infelizmente, por toda a parte, por todos os países, é uma espécie de doença crónica que tem de ser viver e combater praticamente toda a vida.
O preconceito faz parte da ignorância, e da vontade de permanecer ignorante. Eu simplesmente recuso qualquer proposta que desvalorize os portugueses ou a cultura portuguesa. Confessa. Maria não teve muitos problemas, porque em geral faz projetos que são e dão muito valor à cultura portuguesa. Atualmente vai voltar ao teatro de La Ville, com a peça do Robert Wilson sobre Fernando Pessoa. É um projeto muito bonito, como quase tudo o que fazia o Robert Wilson. “Este é o Portugal que eu gosto de representar.” Diz com orgulho Maria.
Como é que é visto atualmente Portugal?
Portugal, um pouco como todos os países, está sob a ameaça, adverte a atriz. Está sob a ameaça de grandes retrocessos de mentalidades selvagens, que desconhecem o valor da história. Que desconhecem todo o horror que representou o fascismo, estamos sob ameaça, mas não somos só nós. É um pouco geral. Perguntamos se estava a referir concretamente a frações políticas mais radicais?
– Sim, mas não é só político, a própria sociedade. Se houve grandes avanços, também tem havido grandes retrocessos.
As sociedades estão cada vez mais interventivas, mas corre-se o problema de cair em particularismos. Há uma transformação social a acontecer, e tem a ver um pouco com as realidades que se vivem em todos os países. Dar uma ideia geral dos povos, pode ser um caminho aos solavancos. Por exemplo, a história francesa instituiu um sentido do direito de protestar. E as pessoas aqui usam esse direito. Às vezes até nos pode parecer excessivo, mas a verdade é que é interessante e importante, porque perante a ameaça de grandes retrocessos, é preciso ter uma consciência, de estarmos alerta e disposta a protestar.
Talvez essa cultura não esteja tão presente em Portugal, mas o 25 de Abril, foi um marco de como se pode fazer uma revolução, mudar uma situação, em paz.”
Maria é otimista e acredita que as coisas se conseguem ultrapassar.
O próximo projeto
O espetáculo sobre Fernando Pessoa chama-se Since I’ve Been Me. E foi dirigido por um dos “maiores encenadores no mundo”, Robert Wilson, que nos deixou o verão passado. É uma referência no Teatro Mundial, é um espetáculo que vai passar por Lisboa também. Vai haver uma turné, é muito interessante porque os textos do Pessoa são extraordinários.
O espetáculo, é em várias línguas, completamente internacional, com atores internacionais, desde o italiano, português, de Portugal, atores brasileiros com o português do Brasil, francês e inglês. Pessoa tinha esse dom de ser multilingual. Começou por escrever em inglês, e também em francês: o escritor poeta, “o mundo era completamente interior.
Uma Mensagem aos emigrantes, os que estão e os que pretendam emigrar
Para Maria, considera que nós portugueses, podemos ter muito orgulho na nossa cultura
“Nós temos essa tradição de viagem, emigração, migração, de estar em contacto com outras culturas. Aliás, somos um dos países onde se fala mais e melhor os idiomas. Acho que está no nosso ADN histórico e cultural.” Desce o pano e termina a entrevista, Maria segue com as suas personagens…Pessoa, já viveu as suas.




