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Marta Da Costa: A guitarra Portuguesa arrebatou-lhe o coração e as suas mãos nunca mais lhe deram descanso

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Começamos em dedilhado esta entrevista, enquanto conversamos com a fadista e guitarrista Marta Da Costa. Abriu as partituras da sua vida para nos sonorizar os seus sonhos, e qual a sua missão. Desde pequena que sonhava ser pianista, mas a vida trocou-lhe as voltas e foi-lhe parar às mãos a guitarra portuguesa. Nunca mais a largou “deixava-me calos nos dedos, pois a minha inexperiência não me permitia parar. Só mais tarde me apercebi, que era necessário fazer pausas”, relata Marta – pois os dedos não são de ferro. Doze, são o número de cordas que agarra todos os dias, e o resultado é a sonoridade que traz encanto. Faz arrepiar e bater mais forte o coração da emoção que emana. Pausa curta para amainar os ânimos.

“Comecei por ir às casas de fado, toquei com muitos guitarristas, alguns chegaram a acompanhar Amália Rodrigues”. Aprendeu o repertório tradicional da guitarra portuguesa e apaixonou-se pelo som do instrumento. E a sua missão é levá-lo ao mundo, e dar a conhecer aos quatro cantos do planeta. Falar de Portugal, da nossa cultura, respeitar e honrar as tradições e tentar dar-lhe uma modernidade: criar pontes com outros géneros musicais, juntamente com outros instrumentos.

É também tentar manter vivo este legado que “nós trazemos da guitarra portuguesa” pelo mundo. Registá-lo em discos e apresentar-se nos palcos para onde tem andado, é uma forma de manter vivo esse legado e deixar também para as futuras gerações, e que elas também se inspirem. E com o seu trabalho, com aquilo que ouvirem, darem seguimento e fazerem os seus próprios caminhos,” desvenda a guitarrista.

Do silêncio ao rejubilo

Marta continua (…), “cada pessoa vai receber aquilo que nós entregamos em palco, vai-se emocionar de forma única, pessoal e o nosso maior retorno é a nossa entrega.” É aqui no nosso palco que emociona as pessoas e que elas se sintam tocadas, que façam parte desta pauta musical, onde saem sonoridades de fazer levitar, e quando o som terminar, “saiam de coração cheio! Com uma experiência emocionante, que mexeu com eles.”

A Guitarra Portuguesa

Não foi amor à primeira vista. Nem foi tocada em criança, era já uma jovem adulta com 18 anos. Quando tinha quatro, começou a tocar piano, queria ser pianista. Ser como Maria João Pires. Mas a guitarra portuguesa, era o seu fado, já lhe estava destinada! Só a maturidade dos 18 anos é que se apercebeu, que havia mais algo. Começou a tocar guitarra, porque o pai era um apaixonado por fado e pelo som da guitarra e incutiu em Marta esse gosto.

Foi-se apaixonando. Teve a sorte de ter um grande guitarrista, Carlos Gonçalves, guitarrista da Amália, que lhe deu as primeiras aulas. “É um instrumento difícil”, confessa. Mas muito cativante porque tem um som muito bonito e, com muito trabalho e perseverança, tudo é possível.

Cativou-a. Marta é muito obstinada, quando almeja algo, só para quando consegue lá chegar. Foi um longo percurso de aprendizagem e muitas, dores, os calos, contavam-se pelos dedos, que tocavam sem parar. Fez algumas tendinites no princípio, – excesso de trabalho! No início não tinha mãos a medir e tocava muito. Mas aprendeu a parar, pois as notas também fazem pausas, para se organizarem.

Ligação quando tocou pela primeira vez nos palcos internacionais

Estreou-se profissionalmente com o seu projeto em 2012, “ainda tocava muito mal”, revela mais um segredo, e este não lhe foi ao ouvido, veio-lhe da alma. 2012 estava mesmo no princípio e foi quando decidiu largar a engenharia e dedicar-se à guitarra portuguesa e foi atuar a Toronto, no Canadá. A um festival de música onde estavam presentes bandas portuguesas, como os Dead Combo, “foi uma experiência muito marcante”. Faz mais um dedilhado, “ai o meu fado!”

Não me esqueço, dia 18 de março de 2012. A reação das pessoas foi muito boa, “não sabia o que esperar. Estava bastante nervosa, e emocionada por ser o meu primeiro passo. A minha primeira estreia num concerto meu. Foi muito marcante e o que me tenho apercebido ao longo deste percurso é que a guitarra tem um som mágico, tem uma alma que é muito nossa e que não deixa indiferente a quem ouve”. Dedilha mais uma vez, e o som propaga pelo espaço, cala as cordas com as mãos, e faz mais uma pausa.

“Tenho tocado para pessoas de muitas nacionalidades, não são só portugueses. Há uns anos atrás, os estrangeiros não tinham ouvido falar de Portugal. Mas agora, está muito na moda. Faço questão de perguntar nos concertos se ouviram falar de Portugal, e prontamente dizem que sim!” Mais uma pausa de emoção.

Como é tocar guitarra portuguesa?

Marta diz que a guitarra portuguesa tem o braço um pouco mais estreito que a guitarra clássica, no entanto, tem as cordas duplas, que têm que ser pisadas ao mesmo tempo, com uma tensão das cordas muito grande, que dificulta a tarefa de produzir sons. Dedilha um pouco mais, desta vez em Sol menor.

Mas é com a “Repetition Makes Perfection”, ou seja: repetir, repetir, repetir, até que o som saia cada vez melhor e procurar alternativas. A guitarra portuguesa tem uma afinação muito diferente da guitarra clássica e nós podemos ir buscar a mesma nota a sítios diferentes. “Só depois é que vamos perceber onde é que queremos ir buscar determinada nota. Que intenção é querermos dar a determinada nota, e isso passa muito também pela escolha pessoal de cada guitarrista,” vai explicando Marta.

Como é que foi tocar no Lincoln Center, Kennedy Center ou no Blues Alley?

Marta revela como são as três salas muito conhecidas e emblemáticas nos Estados Unidos. O Lincoln Center em Nova Iorque, o Kennedy Center em Washington e o Blues Alley também em Washington. Onde já passaram grandes nomes da música a nível mundial. “Eu senti-me muito honrada e feliz por ter essa oportunidade. O concerto da Lincol Center, tem 360 lugares na sala onde toquei, e estava esgotadíssima.” Havia dois quarteirões de fila no exterior, que não entraram. Foi a primeira vez que fez uma tournée nos Estados Unidos.

Marta nem queria acreditar no que no que estava a acontecer. As pessoas gostaram muito. Assinou discos no final do concerto, no Kennedy Center, esteve mais de uma hora a falar com as pessoas. No Blues Alley um bar do mundo de jazz, um espaço de pequenas dimensões, assemelha-se às casas de fado, com um ambiente mais intimista. Mas passaram nomes de peso por lá, e há sempre muita responsabilidade quando levamos a guitarra portuguesa e o “nosso nome até estes palcos. Mas foi inesquecível, todas muito diferentes. “A minha ideia é sempre chegar ao público em salas grandes, no Kennedy Center estavam 800 pessoas, muita gente, mas o tamanho da sala grande ou pequena, não importa. A minha ideia é trazer as pessoas para perto o mais próximo possível.” Troca de pauta.

O dedilhado continua…” A tasca do Chico em Lisboa

Marta tocou muitas vezes na tasca do Chico, quer no bairro alto ou em Alfama. “Já não vou há uns bons anos, mas gosto muito do fado vadio. Da espontaneidade e das pessoas que lá vão, porque gostam, porque querem cantar, porque querem participar. É tudo espontâneo, as portas estão sempre abertas, revela mais uma vez!

Entre o palco e o artista, existe sempre uma reciprocidade. Como é que se faz a ligação entre o autor e quem está a ouvir?

Cada vez que pisamos um palco, “estamos ali para servimos o público que nos vai ouvir. Tento sempre sentir a sala antes de saber onde estou. Se vou tocar no estrangeiro, muitas vezes eu preparo uma música uma versão na guitarra portuguesa daquele país, é um presente no final do espetáculo, e a reciprocidade é muito boa.”

A energia que vem do público pode entusiasmar-nos. Gosto muito de tocar para as pessoas. Peço para o meu técnico de luz acender as luzes da sala para ver a cara delas, olhar-lhes nos olhos.”

Antes era “consumida pelo medo”, hoje não. Não quero olhar para o vazio quero ver as pessoas, as suas reações. É uma relação muito próxima entre mim e o público.” Vai dedilhando, como se a sua guitarra fosse parte de si.

Perdeu-se uma engenheira ou ganhou-se uma música?

Com a nota bem afinada respondeu que se ganhou uma música. “Mas é certo que os pais aconselham sempre a tirarmos um curso.” Recebeu uma proposta de trabalho e ainda não se sentia preparada para arriscar e viver só da música. Até que chegou o momento, em 2012 em que “enchi-me de coragem” e disse que tinha que ser porque era da música que queria fazer a sua vida.

Foi o caminho certo?

Com um solfejo no meio: “Sem dúvida!. Tenho a certeza disso, mas não é fácil. Há momentos em que em que me sinto cansada porque é um trabalho instável, não temos o nosso ordenado certo ao final do mês, mas é um trabalho apaixonante. “Não trocava nenhum dia, nem na altura da pandemia, em que fiquei mais nervosa com o futuro”. Mas criaram-se oportunidades. Não podia estar mais feliz com a escolha.

Qual é qual foi a sala que a marcou mais?

“Isso é muito difícil de responder, até parece um clichê, porque somos marcados por todos os palcos e todos vão ficando no nosso coração. Apercebi-me disso quando há uns tempos toquei em Leiria. Gosto muito de tocar em Portugal, mas as oportunidades, vão mais além-fronteiras. Quando toco em Portugal, faço-o com muita alegria, mas ao mesmo tempo também com expectativa de medir o público, a reação. Perceber se realmente estão a gostar e fiquei tão emocionada em Leiria, porque as pessoas gostaram muito. A sala estava cheia. A ovação foi muito calorosa. Emocionei-me muito, aquele que está no meu coração foi este último concerto em Leiria.”

Palcos Internacionais

Os palcos internacionais não são só para portugueses, mesmo no contexto da diáspora. São abertos ao público em geral. Todos os palcos são diferentes, mas uma coisa que os une “é o que eu sinto”. É esta adesão e emoção que a guitarra portuguesa passa e que cada pessoa que comenta comigo no final. Sente-se esse cantar da guitarra, a alma da guitarra, o gemer da guitarra e isso chega ao público, seja português, ou não. “Acho que esse é o ponto comum.”

Pegadas na história da música e da humanidade?

É muito importante registar. E passar para as gerações vindouras aquilo que está a ser feito. Por esse motivo, as discografias, os concertos ao vivo, as gravações que passam na rádio e na televisão e toda a divulgação daquilo que se faz de bom na música, tem que ser gravado e passar, para que não se perca e que sirva também de inspiração para futuras músicas e futuros caminhos na música.

Um sonho artístico ou um desafio artístico

Ainda tenho muitos, diz Marta da Costa. Mas pensa que ainda vai ter que esperar uns anos para chegar a esses palcos: O Sydney Opera House na Austrália, o Scala em Milão, o teatro Cólon em Buenos Aires ou Royal Albert Hall em Londres. Um concerto de guitarra portuguesa e orquestra “será para o futuro”.

Responsabilidade de levar a bandeira de Portugal?

Já depois de uma pequena pausa: “Sim, sinto essa responsabilidade e essa honra por ter a possibilidade e orgulho falar do nosso país, da nossa cultura. Mostrar a guitarra portuguesa cada vez mais longe. E essa missão emociona-me muito. Cada vez que tenho a possibilidade de o fazer fora das nossas fronteiras.”

A inspiração

“Nas asas das minhas viagens, o que vejo, o que sinto. Durante as viagens sinto a música dentro de mim, na minha cabeça, como se fosse uma banda sonora. Depois preciso da guitarra para servir de veículo, emociona-me a minha história, os meus pais, os meus filhos. Vários sentimentos, o quotidiano do dia a dia, a Portugalidade, o mar… o mar para mim é muito inspirador. O elemento água. Sinto-me inspirada pela vida e, tenho que veicular as minhas emoções através da música.”

Existência da saudade. No meio da diáspora? Sim, ou não?

“Sem dúvida, sem dúvida”, repete Marta. Os portugueses que ouvem a guitarra portuguesa lá fora sentem-na de uma forma muito especial e com um peso emocional muito grande e muito grata. Vêm-nos passar esse retorno de como lhes tocou, e das saudades que sentem, parece que os transportamos para Portugal e “termos a possibilidade de fazer isso é muito especial.”

Uma mensagem que gostava de transmitir às novas gerações em Portugal e na Diáspora

Os portugueses em Portugal ou fora, “temos uma missão: manter viva a nossa cultura, seja linguística, musical tradicional, os nossos instrumentos tradicionais. Temos a missão de ligar o passado com o futuro. Somos o presente e temos a missão de trazer ao presente o passado e de o levar para o futuro, para que as nossas memórias e o nosso legado, não fique no esquecimento e não se perca no tempo. Temos o dever de mantê-lo sempre vivo e com muito orgulho.” Desliza pela última vez os dedos pela guitarra, onde os sons se encontram num final feliz, “emigrar nunca me passou pela cabeça, adoro viajar e adoro regressar a casa” termina à desgarrada Marta da Costa, a guitarrista portuguesa, com certeza!

Lígia Mourão
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