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Michel Chandeigne: Um francês com alma lusitana

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Michel Chandeigne

Fomos ao encontro de Michel Chandeigne, num “cantinho” em Tours, França. Mas foi em Borgonha, no ano de 1957 que viu nascer este amante da cultura portuguesa. Foi nomeado professor de Ciências Naturais no Liceu Francês em Lisboa decorria o ano de 1982. Trazia na mala muitos anseios e desejos de conhecer mais profundamente o modo de vida português, a cultura e suas tradições. Já conhecia um pouco da história, através dos livros que narram as suas vivências, cultos e demais experiências. “Descobri a cidade maravilhosa de Lisboa no período pós-revolucionário.” Era uma cidade muito pacata em termos de reboliço rodoviário e o turismo ainda mostrava uma face muito tímida. Tinha uma tela ao seu dispor. E bebeu das palavras de Pessoa, Eugénio de Andrade, passando-as para francês, bien sure, onde os grandes da escrita lusa começaram a falar em francês. O que diria Fernando Pessoa?!

Uma tela quase despida, era assim vista a cidade de Lisboa, no que diz respeito ao vai e vem de carros, e as pessoas também não se acotovelavam no metro, como hoje. Os passeios e estradas eram muito “respeitadinhas”. Lisboa, sendo a capital de um país com cerca de 8 milhões de habitantes, à época, não era muito corrida e concorrida, comparativamente com outras capitais europeias. Ainda mantinha o lado de “Menina e Moça, Varina”, E as suas sete colinas ainda eram os encantos da cidade, vista com várias perspetivas.
Os atores principais ainda eram muito ingénuos, e o traço ainda era de pequena dimensão. A cultura portuguesa era muito desconhecidas em França. Havia apenas uma dezena de livros traduzidos sobre Portugal, em terras Gaulesas. “Havia muito pouco.” Refere Michel. E depois de “dois anos de felicidade em Lisboa”, Michel voltou para França, ao encontro do “sol pálido”, que Fernando Pessoa a descrevia. Mas Michekl teve sempre em mente conservar uma ligação forte com o país, com Lisboa, e fazer a tradução da cultura portuguesa, não se ficou por menos, começou a traduzir Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade e outros vultos da literatura portuguesa.

Da cidade de Lisboa extraiu e dirigiu livros sobre a capital lusa, e debruçou-se sobre os descobrimentos, onde se encontram muitas linhas escritas e páginas preenchidas. Portugal tem sempre muito a contar, do seu passado, presente e futuro.

Na década de oitenta, noventa do século passado, Portugal, era uma “novidade”. Parecia um livro fechado à espera que o abrissem e lessem de fio a pavio. Michel escreveu um livro sobre Lisboa com uma nova perspetiva, mas “depois tudo mudou,” já estávamos na Comunidade Económica Europeia, e os trilhos a seguir começavam a disseminar e a percorrer novas latitudes. As estradas europeias também eram percorridas por portugueses, e deu-se a grande mudança. “Uma política cultural muito forte com ajudas institucionais para livros, traduções, e para fazer descobrir a riqueza da cultura portuguesa.” Diz-nos Michel Chandeigne, com a voz marcada pela saudade.

Em 1986, Michel fundou uma livraria de língua portuguesa que completou este ano 40 anos de existência, a “Librairie Portugaise & Brésilienne” em Paris . E também as edições Chandeigne & Lima, com Anne Lima, franco-portuguesa, que era uma antiga aluna do liceu Francês, em 1992. A Livraria e as edições são dedicadas à cultura portuguesa, de Portugal, mas também do Brasil, e da África Lusófona, com uma secção muito importante sobre a história dos viagens dos portugueses no mundo.

Na escola francesa não se aprende a História de Portugal, falam um pouco de Vasco da Gama, e pouco ou nada é aprofundado, apenas uma indelével noção dos descobrimentos. Michel aprendeu a conhecer Portugal pelos livros, sobre a cultura portuguesa.
Mas foi em Lisboa, que descobriu Portugal, também andou pelo norte do país. E embrenhou-se no Alentejo, “As migas” foi uma autentica descoberta.

A partir dos anos 2000, começou a fazer conferências sobre os navios do Douro Azul para grupos de turistas franceses. E continua a fazer, seis ou sete vezes por ano. Descobriu o norte há 26 anos, “é um outro mundo, um mundo completamente diferente do sul, de Lisboa, mas gostei muito”.

Douro Vinhateiro

Quem se depara pela primeira vez com a paisagens das vinhas nos socalcos, mas em linhas retas a perder de vista, que vão descendo e beijam a margem do Douro, fica sem fôlego. É uma experiência inolvidável. Michel conheceu bem essa sensação, e da região Douro do Porto leu muito, até sobre a religião, os cultos, os arrais, as lendas do norte. E percebeu que era um mundo muito aparte em Portugal! Muito interessante, muito diferente. “Gostei muito de descobrir, em particular, as práticas religiosas e para-religiosas do norte. O místico é fascinante! Observa Michel.

Também conheceu e esteve no Vale do Douro, Braga, Guimarães, Bragança, Lamego, etc.

Participava em conferências e teve a ideia de lançar livros sobre “as temáticas nas nossas edições”, refere com orgulho, também “editamos em francês. Temos mais de duzentos livros sobre a cultura portuguesa no mundo.

Após 35 anos de edições. “Tem sido muito interessante. Também me tornei, um pouco especialista em alguns assuntos, como a história dos naufrágios, a história de Magalhães.” E em 2007, fez a edição de referência mundial sobre a viagem de Magalhães. Em colaboração com historiadores portugueses. O resultado foi um livro de mil páginas com todas as fontes sobre a viagem de Magalhães, o que não existia. Agora está tudo compilado num único livro no mundo que reuniu todas as fontes, tendo descoberto com a equipa, muitos erros e novidades sobre a viagem.

“E, foi assim, que me tornei o conselheiro de um grande documentário sobre Magalhães. Que passou na televisão francesa e na Televisão portuguesa.”

É sobre arte e também da exposição Magalhães no Museu da Marinha o ano passado. “Agora, posso dizer que é a minha grande especialidade. E com essa especialidade faço palestras sobre o estreito de Magalhães, todos os anos.” Revela.

O livro sobre Magalhães, está escrito em Francês, mas a edição de bolso do nosso livro sobre Magalhães, tem 400 páginas, foi traduzida para português na imprensa nacional em 2020.

O que é que os franceses conhecem de Portugal de uma maneira geral?

Com um tom de satisfação, mas ao mesmo tempo de nostalgia desabafou: “tudo mudou muito”! A visão de Portugal mudou. Claro que no início eram trabalhadores portugueses em França, mas agora, com o turismo, com os livros, os franceses têm uma visão muito diversa sobre Portugal. E um melhor conhecimento da história do país, da história das viagens dos portugueses e também dos romancistas.

Neste momento há mais de 400 traduções de literatura portuguesa, só portuguesa, traduzidas. Há um conhecimento de autores, os partidos e os que ainda se encontram entre nós.
O turismo, também deu uma força. Os franceses viram que Portugal era um país europeu, com uma rica história, e muita paisagem por descobrir. A visão atual sobre o país, está “normalizada”.

A mensagem

Leitura…muita leitura, é preciso ler, partilha Michel Chandeigne. A melhor maneira de entrar na cultura portuguesa é embrenhar-se nos livros, há vários, de história, de literatura, e muito mais. “Temos uma oferta imensa e temos de entrar na cultura pelos livros e em Portugal há muitos museus, muitos lugares muito interessantes e os franceses em geral são bons frequentadores dos museus em Portugal,” é o público estrangeiro que está mais presente nos museus portugueses. Tal é a curiosidade em conhecer o que há por cá…em Paris, lá estão os livros de Michel e a sua livraria. O amante continua a sua viagem pelas linhas dos seus livros, que em português encantam e em francês desvendam os seus segredos. Fim.

Lígia Mourão
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