A Professora Natércia Maia viveu a Ditadura, a preparação da Revolução e o princípio de uma nova era, assim como a luta contra o esquecimento. Um dever, que sempre cumpriu como o seu esposo, o eterno Capitão Fernando José Salgueiro Maia, cumpriu o seu dever como Militar e mais tarde como Revolucionário contra a Ditadura de Salazar e Marcelo Caetano. Falar com a Professora é falar com a História e ao mesmo tempo recuar ao passado. Uma viagem nas páginas dos acontecimentos do 25 de Abril, que culminou na Revolução dos Cravos Encarnados. E assim se foi compondo a história…

Natércia, esposa de Salgueiro Maia, conheceu o Militar quando era Professora. Decorria o ano de 1969, em que conheceu Salgueiro Maia. Natércia realça, que aconteceu encontrar o amor da sua vida, quando começou a dar aulas no Liceu Nacional de Santarém. O capitão foi colocado na Escola Prática de Cavalaria “EPC”, mas antes foi admitido na Academia Militar em Lisboa.
Entretanto não chegou a um ano de noivado e casaram-se em agosto de 1970. Salgueiro Maia recém-chegado da Guerra Colonial em Moçambique. Um país africano, que passava por muitas dificuldades. Para além da guerra, também existiam outros problemas sociais. A linguagem fazia-se com a força das balas, numa tentativa de Portugal controlar as colónias.

Salgueiro Maia disse-lhe, que seria bonito descer a avenida da liberdade com os carros de combate. Em 1968 já se preocupava com a situação que se vivia na guerra. Era sensível em relação à maneira como muitas pessoas viviam com dificuldades.
Hoje em dia também acontece um pouco, mas naquela altura era completamente diferente. Ele costumava contar, quando era relativamente miúdo, de cenas, que se passavam no adro da Igreja da Terra dele, Castelo de Vide: os trabalhadores juntavam-se para serem contratados e para trabalhar no campo. Recordava-se de uma pessoa, que tinha família doente, precisava muito de trabalhar, mas que não viu o seu pedido de trabalho ser aceite. Muitas vezes lhe ouvi referir esta história. Acho que a realçada história o marcou durante a sua infância. Dado o facto, das pessoas viverem com muitas dificuldades e em especial se calhar mais no Alentejo, onde a pobreza era maior.

Foi destacado para Moçambique, quando chegou de África, vinha com um sentimento de que não queria participar numa guerra, que estava a caminhar na direção de um impasse. Um impasse por falta de clareza. A Professora que frequentou um colégio em regime de internato, atendendo que no seu tempo, somente nas capitais dos distritos existiam liceus, menciona, que a disciplina era de tal forma espartilhada, que obediência era a ordem do dia. O que significaria que viviam muito alheios da realidade. O que se verifica nas palavras do Capitão.
Dizia, que quando foi para Moçambique ainda ia com aquele sonho dos cavaleiros defenderem a pátria. Grande ilusão. Um dia quando chegou a Lourenço Marques entrou num café e ouviu um comentário de um residente que o fez pensar um bocadinho. Foi em 1968 que falou com um alferes, que deu origem à frase: “Devia ser bonito eu descer à avenida da liberdade com os carros de combate.”

Foi quando a esposa do Capitão realizou: “Quando foi para a Guiné a forma de estar já era diferente. Eu lembro-me que ele disse, que o objetivo era trazer todos os militares vivos”. Não foi uma guerra fácil.
O ano passado no almoço que todos os anos se realiza com os militares que estiveram na Guiné, sublinharam a confiança que existia no Capitão. Isso revela muito. Fui um tempo de grande sofrimento.
Um dia, quando o meu marido estava doente no hospital, abri a porta do quarto e vi o senhor General Spínola que o tinha ido visitar. Estavam a falar sobre os tempos de outrora.
O Capitão era um ser humano especial. Porque, independentemente do aspeto militar e ter qualidades de líder, ser um bom comandante em relação com as pessoas, também era muito preocupado. Era uma pessoa atenciosa e generosa, que ia ao encontro quando dizia que era preciso. Não esperava que lhe pedissem. Ele ia ao encontro de tentar ajudar e preocupava-se muito, quando ouvia falar em atos de corrupção.

Gostaria de ver um país melhor, um país mais justo, um país em que houvessem mais condições para as pessoas viverem todas com mais dignidade.
Só a partir do 25 de Abril é que se começou a dar mais entoação à emigração enquanto antes era um fato que não se questionava. Procuravam melhores vidas, o que a expressão “dar o salto” diz tudo. Principalmente dá origem à admiração perante elevada coragem: partiam sem conhecer o idioma do país de acolhimento e por vezes sem certezas, que conseguiam dar a volta. Hoje vive-se também o inverso: imigração e emigração. As condições são completamente diferentes. Outro nível e outro tipo de trabalho, dado que verificam-se mais qualificados. Portugal devia oferecer outras condições para as pessoas não saírem e usufruir dos seus investimentos. Porém – as pessoas têm o direito de ir à procura de melhores condições.”
Uma Vida melhor – expressão-chave para as últimas perguntas da entrevista;
Se o Capitão Salgueiro Maia ainda fosse vivo, qual seria a mensagem, que pretendia dar a quem emigra ou pensa emigrar?
“Não sei, creio, creio que não era uma Mensagem a eles, mas sim, que pátria, que o país criasse condições para que as pessoas pudessem ficar e ajudar a construir uma Pátria melhor. Acho que era a mensagem fundamental.”
Última pergunta: Qual é a responsabilidade de ser a esposa de Salgueiro Maia?
“Responsabilidade – sinto-me até privilegiada de ter usufruído os melhores anos da minha vida com ele e infelizmente não foram mais por causa da doença. Mas a única, que eu sinto é o dever. Eu costumo dizer que a minha mãe e o meu pai também, insistiam mais nos deveres que nos direitos. Eram outros tempos. Por um lado sinto, que devia estar quietinha no canto, mas sinto, que também tenho o dever por muito pouco que seja, enfim. Dar alguma coisa, um testemunho e, em especial às vezes, quando vou às escolas. Fui professora de matemática, o que é que eu gostava, desejava despertar às vezes nos miúdos, nos jovens, algum interesse em conhecer melhor Salgueiro Maia, na medida da sua maneira de ser. Que o seu Ser, a maneira de estar na vida, pudesse exercer sobre eles alguma influência de maneira a torná-los também melhores.”
Artigo realizado por Lígia Mourão e Isalita Pereira




