O Jornal Comunidades Lusófonas este em entrevista com Sónia Silva, Presidente da FWBW, (For Women by Women). Como o nome indica destina-se “de mulheres para mulheres” no contexto atual. Esta iniciativa põe em cima da mesa temas muito sensíveis, cuja figura de destaque é ainda a masculina. A WWBW, centra-se na sua maioria às mulheres lusófonas com origem africana ou da diáspora. Na qual há uma camada adicional: “não é só o género, é também a origem, o sotaque, a representação.” Há um custo de legitimidade que não é distribuído de forma igual. Enquanto “não nomearmos com honestidade”, dificilmente o “resolveremos” e andaremos neste piso escorregadio em que a sociedade se move.

1 – Como nasceu a ideia de organizar este evento no Parlamento Europeu?
Nasceu de uma convicção: a língua portuguesa é um ativo estratégico que a nossa comunidade ainda não usa suficientemente no espaço europeu. Quando a Câmara de Comércio Belgo-Portuguesa nos convidou, senti que era o momento certo para colocar as mulheres lusófonas no centro desse palco. O Parlamento Europeu é um símbolo de pertença, e quisemos dizer alto e claro: nós também estamos aqui, nós também construímos a Europa.
2 – Qual foi a principal mensagem que quiseram transmitir às comunidades lusófonas?
Que a vossa identidade não é um obstáculo, é uma vantagem. Falar português, navegar entre culturas, compreender realidades tão diversas como Lisboa, Bissau ou São Paulo, isso é uma competência rara e valiosa. A nossa mensagem foi simples: parem de pedir desculpa por quem são e comecem a usar isso como alavanca.
3 – Porque é importante ligar a língua portuguesa ao empreendedorismo e à inovação?
Porque a língua não é apenas comunicação, é contexto, é confiança, é mercado. A lusofonia representa mais de 280 milhões de pessoas em quatro continentes. Quando ativamos esse ecossistema com intencionalidade, criamos oportunidades reais. E as mulheres são o elo mais subestimado desse ecossistema. Temos o dever coletivo de mudar isso.
4 – Entre liderança feminina, sororidade e mentoria, qual considera hoje mais urgente?

A mentoria. Sem hesitar. A liderança já é um conceito reconhecido; a sororidade cultivamos nos nossos espaços. Mas a mentoria é a ponte entre o potencial e a realização. Acredito profundamente que temos o dever moral de enviar o elevador de volta para baixo, para que outras possam subir. Quem chegou, deve abrir a porta.
5 – Como foi feita a escolha das mulheres convidadas para o painel?
Priorizámos autenticidade. Quisemos mulheres com percursos reais, não apenas histórias de sucesso, mas histórias com fricção e recomeços. Com raízes em Portugal, em África, no Brasil. Do mundo corporativo, do empreendedorismo social, da academia. A diversidade do painel não era cosmética, era a própria mensagem.
6. Qual é atualmente a principal missão da FWBW?
Empoderar mulheres e jovens na Guiné-Bissau e na África Ocidental lusófona, através de quatro pilares: liderança feminina, literacia digital, inclusão económica e bem-estar. Atuamos no terreno, com programas concretos. Mas a nossa missão é também de visibilidade, dar voz a contextos que raramente chegam às agendas globais. As mulheres guineenses são simultaneamente as mais resilientes e as mais invisíveis. A FWBW existe para inverter essa equação.
7. Que projetos concretos desenvolvem para apoiar mulheres empreendedoras e líderes lusófonas?
O mais recente foi o SheRises – Ela Ergue-se, um programa de capacitação para mulheres do setor do caju na Guiné-Bissau, em parceria com o WEECAP e a Fundação Mastercard. Temos também um programa de Formação em Informática Básica para 400 Raparigas, em parceria com o Orange Digital Center, Aldeias de Crianças SOS e o apoio da PNUD e da União Europeia. E estamos a desenvolver a Academia de Liderança FWBW, uma visão de campus em Bissau que combine liderança, literacia digital e incubação de negócios. Estamos também a preparar uma publicação que nos enche de orgulho: um livro com 100 mulheres lusófonas, intitulado ‘Vozes que Erguem’, uma homenagem a todas as mulheres que diariamente abrem as portas a outras, que lideram em silêncio, que puxam as que vêm atrás. É um ato de reconhecimento e de memória coletiva da lusofonia feminina. Projetos diferentes em escala, unidos por uma convicção: o investimento em mulheres tem o maior retorno que uma sociedade pode fazer.
8. Quais são os maiores desafios que as mulheres continuam a enfrentar no mundo empresarial e institucional europeu?
O maior desafio é a distância entre o discurso e a prática. Há um consenso declarado de que se acredita na igualdade, mas as estruturas de poder continuam amplamente masculinas. Para as mulheres lusófonas com origem africana ou de diáspora, há uma camada adicional: não é só o género, é também a origem, o sotaque, a representação.
Há um custo de legitimidade que não é distribuído de forma igual. Enquanto não nomearmos isso com honestidade, dificilmente o resolveremos.
9. Este evento pretende ser o início de uma rede permanente entre mulheres lusófonas?
É exatamente essa a ambição. Um evento inspira, mas não transforma sozinho. O que queremos construir é uma infraestrutura de conexão: uma rede ativa de mulheres lusófonas na Europa que partilhe oportunidades, invista em mentoria mútua e represente os nossos interesses junto das instituições europeias. O Parlamento foi o palco de lançamento. O que se constrói a partir daqui depende de todas nós.
10. Que mensagem deixaria às jovens mulheres lusófonas que querem liderar, inovar e empreender?
Que a vossa história não é um handicap, é a vossa maior vantagem competitiva. Não esperem ser convidadas para a mesa: construam a vossa própria mesa e convidem outras. Invistam em redes de confiança genuína. E sobretudo, não minimizem a vossa ambição para serem mais facilmente aceites. O mundo não precisa de versões mais pequenas de vocês. Precisa de vocês inteiras.
Por: Marisa Monteiro Borsboom (Correspondente no Benelux)




