António Ladeira, é natural de Setúbal, onde frequentou os estudos secundários. Entrou na Universidade Nova de Lisboa e fez licenciatura em Estudos Portugueses. Quando terminou o curso concorreu a uma bolsa de Doutoramento para Santa Bárbara, na Califórnia, nos anos 90. Após a licenciatura, foi para a Universidade da Califórnia com uma bolsa da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento). Fez o Doutoramento em Línguas e Literaturas Hispânicas com concentração em Estudos Portugueses, em Literatura de Portugal e Brasil.
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Começou a dar aulas de Português e Espanhol. Mas teve de fazer estudos pedagógicos, formação Pedagógica para validar a vertente de ensino.
Depois de terminar o doutoramento, foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Yale, na Costa Leste, durante cerca de 5 anos.“Foi uma experiência ótima, que me permitiu conhecer as Comunidades portuguesas, porque em Connecticut na altura já havia uma Comunidade Portuguesa que rodeava a Universidade de Yale. Era uma universidade de elites, privada e não havia muitos alunos inscritos de origem portuguesa, mas havia uma comunidade à volta que contactei como leitor”, salienta António Ladeira.
A sua tarefa principal era interagir com a Comunidade, vertia-se em convidá-los para eventos e atividades culturais portuguesas e fê-lo durante algum tempo. Mas o seu objetivo era conseguir um titularidade, entrar na carreira académica, com vínculo a uma universidade e surgiu a oportunidade de ir para o Texas nessa altura.
Conseguiu uma vaga, fez as malas e lá foi em direção a Texas. Beneficiou sempre do facto de poder ensinar espanhol e ter também formação em espanhol na Universidade do Texas. Em 2002, foi professor tenure. Seis anos depois conseguiu a titularidade, na Texas Tech University, uma universidade de prestígio e muito difícil de conseguir um lugar. É muito conhecida de prestígio, e muito grande, possui cerca de 40 mil alunos.
António Ladeira foi como diretor do programa de português, e com a ajuda de assistentes, constituiu um programa, em coordenação com o espanhol conseguindo “construir” o curso de Português numa área onde não há praticamente ninguém de origem portuguesa, ou brasileira.
No início, quando foi contratado, havia cerca de 8, 9 alunos inscritos no programa e chegaram aos 70 alunos por semestre, em português e outras áreas. O programa na altura funcionava muito bem. Era um programa com uma vertente de doutoramento, mestrado, pós-graduação e também de licenciatura. O português funcionava bem como minor, ou seja, como especialização secundária. “A maioria dos alunos eram do México e de países de língua da América Latina, falavam espanhol e aprenderam português comigo”, salienta António.
Em primeiro lugar tinham aulas de português para alunos com fluência em espanhol de pós-graduação. Aqueles que decidiam fazer um minor em português ao fim de mais ou menos um ano, já tinham conhecimentos suficientes para ensinar língua ao nível básico.
Esteve na Universidade do Texas 23 anos, mas naquela zona geográfica não há comunidades portuguesas e tinha chegado o momento de partir. Quando apareceu a oportunidade, (uma vaga na Universidade de Massachussets), que conhecia bem o programa – com grande visibilidade e muitos recursos, aliado à grande concentração de portugueses e lusodescendentes naquela área dos Estados Unidos: New Bedford, Fall River, Dartmouth, fez com que se sentisse novamente em casa.
“Concorri a esta universidade e fiquei, agora sou professor titular da Universidade de Massachusetts, em Dartmouth, com vínculo à universidade.” Refere o Professor.
O que que ensina?
A sua área de estudo é muito ampla, para os padrões portugueses, ensina desde literatura de viagens a partir do Renascimento, Camões, até à literatura do século XXI. Literatura contemporânea. Começa na literatura de viagens, depois século XVIII, século XIX, e XX. Mas a sua especialidade é o século XX e XXI, mais contemporaneidade.
Trabalhou Clarice Lispector, uma escritora brasileira do século XX. Tem muito trabalho publicado sobre ela, no Brasil e nos Estados Unidos e também obteve uma bolsa da Fulbright da Comissão Fulbright Americana, para trabalhar na Universidade de São Paulo, onde viveu um semestre a trabalhar sobre esta escritora e jornalista Brasileira.
Também nutre muito interesse em poesia contemporânea portuguesa. A sua tese foi sobre o poeta português Herberto Helder e gostava no futuro voltar a trabalhar, “é uma figura muito interessante, surgiu uma biografia há pouco tempo sobre ele, que está muito completa, uma área que talvez neste momento me ocupa mais,” diz o Professor. Lispector pertence, de certa maneira, ao passado. Foi um ciclo que se fechou. Agora será a literatura luso-americana, ou seja, dos emigrantes e seus descendentes. E está no sítio certo para se dedicar mais a essa área. Também tem publicações nessa temática, literatura de emigração luso-americana.
Uma Mensagem
O Professo António Ladeira, revela-nos que para além da língua portuguesa ter de ser mais apoiada pelos órgãos competentes, como por exemplo pelo Instituto de Camões, tem um grande futuro, sobretudo “se tivermos em conta o crescimento e a importância crescente do Brasil e dos países dos PALOP.” identifica.
Por outro lado, é preciso também não esquecer a importância da língua portuguesa em Portugal, ou seja: há certas leis de defesa da língua portuguesa que nem sempre são cumpridas. Pode parecer sem importância, “mas eu penso que simbolicamente tem relevância e interesse, por exemplo as ementas devem estar em português, ou por exemplo, em lugares como Lisboa começa a ser um problema. A língua portuguesa é um pouco mal tratada, pouco defendida em Portugal neste momento, ouve-se muito os portugueses a falar inglês, ou a fazer demasiadas interferências linguísticas nomeadamente anglófonas.
Defender a língua portuguesa, é uma prioridade, salienta o Professor, em relação ao inglês, “que é uma língua que tende a absorver as outras e acabamos por excluir o português. Há gerações que não falam inglês, como por exemplo, os meus pais que têm dificuldade em circular por Lisboa ou Porto. Precisam de alguém que traduza. E isso em Portugal não faz sentido. Há pouco tempo estive em Berlim, e em Madrid e noto que só falam a língua local, alemão ou espanhol, e o inglês, vem como segunda opção. Os locais, em Berlim, por exemplo não sentem dificuldade em se deslocarem pelo Centro de Berlim ou pelo Centro de Madrid. Em Portugal isso não acontece, parece que estamos submissos à língua inglesa e somos “obrigados” a falar inglês. Para mim é importante que haja a defesa do português relativamente a outras línguas que podem ser dominantes, e o português, ser uma língua bastante frágil, daí a importância em defendê-la porque é nossa, é a raiz, a nossa identidade, parece um clichê, mas é muito importante!” Termina o Professor Catedrático, António Ladeira.




