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Sexta-feira - 19 Abril 2024

EXCLUSIVO: O primeiro centro cultural português de Toronto

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Carina Paradela (esquerda) e Aurianne Fazendeiro (direita).  São de Aveiro

O que é comunidade sem as pessoas que trabalham todos os dias para manterem atividades, ajudas e espaços abertos para acolher aqueles que precisam? Fui ao encontro da Aurianne Fazendeiro e da Carina Paradela, duas mulheres cheias de energia que mudaram o rumo da vida do primeiro espaço comunitário português em Toronto.

Em Setembro de 1956, imigrantes portugueses decidiram abrir um local em Toronto onde podiam se encontrar e manter a cultura portuguesa mesmo estando longe de Portugal. “Além de ser um ponto de encontro, também era um sítio onde as pessoas que acabavam de chegar, vinham à procura de trabalho, de casa, etc. Era mesmo um ponto de apoio para as pessoas que acabavam de chegar de Portugal” explica Carina Paradela, diretora de operações do First Portuguese Canadian Cultural Centre (FPCCC).

Primeiro Centro Cultural Português de Toronto.

E foi assim que nasceu o primeiro centro cultural português de Toronto e da Província de Ontario. Segundo Aurianne Fazendeiro, diretora geral, o centro português foi aumentando de tamanho ao longo dos anos. “Teve restaurante, equipas de futebol e até tinha muito poder com o governo, para aconselhar quantos voos vinham de Portugal. E foi do FPCCC que partiram todas as outras casas que existem hoje”.

O centro teve desde então um papel de ponte entre Portugal e Canadá. Mas hoje, o papel do FPCCC mudou. Se a intenção de não esquecer as raízes e a cultura ainda faz parte da identidade do centro, ele tem agora um papel de pilar na sociedade de Toronto.

“Um dos nossos grandes focos é no centro de dia para idosos. Nos temos um centro de dia que está aberto todos os dias da semana e que recebe idosos portugueses ou não (mas maioritariamente são portugueses) para passarem o dia connosco. Temos varias atividades e eles tomam o pequeno-almoço e o almoço aqui. Temos ginástica, bingo, montes de atividades durante o dia para estarem entretidos e não ficarem sozinhos e combaterem a solidão”, descreve Carina.

Paralelamente, o FPCCC também mantém e ensina a língua portuguesa através de uma escola de português associada com o Instituto Camões. Os professores dão aulas ao sábado às crianças da comunidade. Além da escola, o centro português tem uma creche com cinco crianças onde falam português para as crianças, sejam elas portuguesas ou não, e também organiza campos de verão, na primavera ou de Natal.

Para a diretora geral, a ideia é “servir os mais pequenos como os mais velhos, e assim alcançar várias gerações”.

Mas para manter o centro cultural aberto é preciso dinheiro. Se no início, a organização podia funcionar somente com voluntários, quando as duas mulheres entraram na direção em 2017, elas aperceberam-se de que para manter o trabalho comunitário era preciso que esse fosse pago.

“Porque somos uma casa que está aberta todos os dias de segunda a sexta-feira, não podemos ter só voluntários. Todas as pessoas que trabalham connosco são pagas à exceção daquelas que trabalham no centro para idosos”, explica Carina.

Como o FPCCC é uma entidade sem fins lucrativos, uma parte do dinheiro que recebe para manter-se aberto vem dos seus sócios. As pessoas idosas pagam uma cota reduzida de quarenta dólares por ano para acederem ao centro todos os dias e comer pequeno-almoço e almoço gratuitamente. Essa parte é muito importante para as duas mulheres que trabalharam ao longo dos anos para poderem manter o centro de dia grátis para os idosos.

“Não queríamos que o impedimento para virem ao centro fosso o preço. Nós sempre acreditamos em dar de nós próprios à comunidade. Pusemos todo o resto a funcionar, cobramos os nossos outros serviços (e temos preços razoáveis quando se compara o que se vê na comunidade), para suportar os custos e manter um serviço grátis aos idosos. É a nossa maneira de dar a comunidade”, explica Aurianne.

Além das cotas, a organização também recebe alguns apoios governamentais, é recipiente do “second harvest”, um programa que salva produtos alimentares de supermercados e os traz até ao centro para serem usados na cozinha do centro, e oferece voluntariamente os seus serviços numa casa de bingo. “Esse voluntariado faz parte do programa OLG Charitable Gaming. Nos vamos lá para representar a nossa casa, receber as pessoas e limpar as máquinas. E em contra partida recebemos uma parte dos lucros da casa de jogos”, detalha Carina.

Segundo as duas mulheres, sem este programa, elas não seriam capazes de pagar a renda e as despesas mensais do FPCCC. Uma conclusão ao qual elas chegaram quando em 2017 tomaram a direção do centro português.

“Quando entrei na direção como vice-presidente, passamos as passas do Algarve como se costuma dizer. Tivemos uns anos valentes e muito difíceis onde vivi as coisas muito intensamente. Cheguei na organização através da creche. Para mim era importante que a minha primeira filha andasse na creche aqui. Lembro-me de ter sido extremamente ativa para tê-la aqui porque havia poucas vagas. Para mim havia qualquer coisa que me fascinava nas crianças terem interação com os idosos. O centro é o tipo de sítio que, de uma maneira ou de outra, como uma onda embrulha-te e já não consegues (nem queres) sair”, conta Aurianne com os olhos a brilhar.

“Quando estávamos na direção, o nosso objetivo foi de reduzir a carga de trabalho porque estávamos como voluntarias na direção e ao mesmo tempo passávamos sessenta horas por semana nas questões administrativas do dia-a-dia. E então queríamos chegar a um nível onde teríamos fundos para ter uma direção voluntária que tem um papel bem claro e uma parte com funcionários pagos para o trabalho do dia-a-dia”, acrescenta.

“Eu entrei de uma maneira um pouco diferente, foi para fazer trabalho voluntario porque fiz o liceu em Portugal mas não me deram equivalências aqui e então tive que fazer o liceu aqui. E em Toronto, eles pedem quarenta horas de trabalho voluntario para completar o liceu. Então vim ao FPCCC para isso mesmo e passado uns meses, eles estavam a procura de alguém para trabalhar na cozinha.

E eu queria um trabalho onde tivesse tempo de ir levar e buscar minha filha a escola. Não estava propriamente à procura de um trabalho de cozinha, nunca tinha cozinhado para tanta gente na minha vida, não tinha experiência nenhuma mas tive a sorte que o presidente que cá estava contratou-me. E depois chegou um momento em que eu já não trabalhava aqui mas estavam à procura de pessoas para a direção e eu quis voltar e contribuir à minha maneira.

Convenci a Aurianne juntar-se a mim na direção, nós nem nos conhecíamos! E foi assim que começamos uns anos de trabalho intenso para mudar as coisas nesta casa”, explica Carina sorridente.

Se as mulheres apanharam a organização num período difícil de muitas mudanças, elas também tiveram que contar com a pandemia para modificar os planos que tinham feito. Aproveitaram todas as ajudas governamentais dadas durante a crise da pandemia e usaram muita imaginação para manterem as operações e continuarem a ajudar a comunidade.

Também aproveitaram para diminuir os custos (e até os espaços) para poderem crescer melhor em 2022.

“A nível pessoal, o centro manteve-me sã durante a pandemia. Foi um apoio, uma casa, outro sitio para visitar que não era minha casa, foi uma ocupação muito grande. Para mim, eu admito que foi uma salvação. E ainda hoje, sinto-me aqui como numa segunda casa”, conta a diretora de operações um sorriso nos lábios.

Agora com espaços renovados mais acessível a uma mobilidade reduzida, as duas mulheres esperam poder manter as ajudas e crescer. O objetivo delas é poder ajudar 100 idosos nos próximos anos. “Temos capacidade de fazê-lo e de os acolher”, exemplifica Aurianne.

“Também temos vontade, nos próximos cinco anos, de comprar uma casa para reduzir os custos. Não é fácil encontrar financiamento para uma casa sem fins lucrativos. No entanto, temos esperança que isso vai acontecer e será possível. Não tenho dúvida nenhuma que vamos conseguir. Já conseguimos muito nos últimos anos e acho que podemos continuar a sonhar e trabalhar no duro para atingir estes sonhos”, adianta Carina.

Há nas vozes das duas mulheres muito orgulho no projeto do FPCCC. Além de ajudarem a comunidade à volta delas todos os dias, a Carina Paradela e Aurianne Fazendeiro deram uma energia nova, cheia de esperança, a um centro que cria conexões humanas profundas necessárias para manter uma sociedade feliz.

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