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Domingo - 18 Janeiro 2026
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EXCLUSIVO: Viver entre duas culturas: a identidade hifenada dos Luso-Canadianos

Maria João Maciel Jorge

O que é a açorianidade? Como retratar as identidades de um povo que imigrou e que se encontra entre duas culturas? Essas questões (e outras) alimentaram a reflexão da professora Maria João Maciel Jorge no seu livro “The Hyphen and other thoughts from the in-between” publicado em 2024 pela Arquipélago Press.

“Quis escrever um livro de ensaios para honrar os Açores de onde eu venho e também para homenagear a comunidade açoriana que sofreu bastante; como sofrem todas as comunidades que imigram. Portanto, é também uma homenagem aos emigrantes em geral”, explica a Maria João Maciel Jorge no seu escritório na Universidade de York em Toronto. Se ela convidou o Jornal Comunidades Lusófonas a entrevistá-la neste espaço, é talvez em parte porque quando ela emigrou para o Canadá (ou a décima ilha dos Açores como descrita no seu livro) com 18 anos, nunca pensou ser professora numa universidade.

Ela que nasceu na ilha do Faial na época em que não existia universidade nos Açores, nunca imaginou um dia ter acesso a um mundo que não era “para uma menina do campo”. “Desde de pequena, sou uma amante de literatura. Sou do tempo em que não havia acesso fácil às bibliotecas. Também sou do tempo da biblioteca ambulante. Ou seja, uma carrinha passava pela minha freguesia e eu levava sempre o maior número possível de livros para casa. Penso que a minha atração pela literatura era em parte uma forma de entretenimento porque cresci nos Açores muito tradicionais! Muito diferentes dos Açores de hoje! E de fato, como rapariga não havia muitas aspirações para eu ser algo. Portanto, acho que me refugiava muito na literatura. A literatura era também uma forma de ter acesso a outras culturas, a outra forma de ser e a outra forma de pensar o mundo”, conta com um sorriso nos lábios.

Assim, vários ensaios do seu livro tratam de temas feministas como o estatuo das mulheres Açorianas durante e pós-ditadura. “A única diferença que há entre as mulheres dos Açores e as do continente durante a ditadura é que, nos Açores, não há esperança nenhuma. Não há terra contínua. A ilha acaba aqui mesmo”, define a professora. E se durante a ditadura, por lei, as mulheres eram inferior aos homens, a religião (outro tema do livro) também teve um papel importante na falta de liberdades das mulheres, segundo a Maria João Maciel Jorge.

Portanto para a autora, a literatura é uma ferramenta para transmitir a condição humana. Através dos vários ensaios em inglês que representam a identidade hifenada da escritora, ela partilha partes da identidade açoriana. “Ao longo dos anos, percebi que havia um desconhecimento total dos Açores aqui no Canadá. A minha comunidade infelizmente tem sido vitimizada aqui. Até relativamente pouco tempo, tem sido um grupo discriminado dentro de uma cultura também ela um pouco discriminada. Penso que o problema original foi a questão do sotaque porque, quem veio para o Canadá quando houve a massa emigrante, foram em maioria os Açorianos de São Miguel e aqueles que vinham de Vilas piscatórias que tinham um sotaque muito mais pronunciado. E a falta de compreensão entre os Açorianos e os do continente deu início ao grande abismo entre eles e nós”, comenta.

Aliás no seu livro, a Maria João Maciel Jorge escreve que muitas pessoas pensam que ela não é Açoriana por não ter sotaque. “Tenho o sotaque da ilha do Faial e cada ilha tem o seu sotaque como no continente há sotaques diferentes. Portanto, quando os do continente não entendem alguém que vem de áreas como Rabo de Peixe, eu penso: Nem eu os entendo!” goza.

Mas além das questões ligadas à discriminação entre os vários Portugueses e a dificuldade da vida dos emigrantes no Canadá, a professora também explora a questão dos deportados. Ou seja, as pessoas que vivem nos Estados-Unidos ou no Canadá e que, por várias razões, são deportadas para o país de origem.

“Os deportados são um produto da nossa falta de integração e nossa pobreza emocional e física. Pouca gente fala dos deportados porque é uma vergonha para nós, para os portugueses que emigraram. Ter consciência que os filhos e os netos não triunfaram. E aliás, não só não triunfaram, também têm a marca do deportado. Não se fala nos discursos políticos”, critica antes de adicionar, “Nós viemos obcecados pelo dólar. O objetivo quando viemos para cá era o dinheiro e ganhar dinheiro é: trabalhar, trabalhar e trabalhar mais! Portanto, quando é que se dá atenção aos filhos? Como é que se dá atenção aos filhos? Por acabar, estes filhos e estes netos podem ser pessoas que, por vezes, desenvolveram problemas quando eram muito jovens com droga ou de alcoolismo. E os pais estão ocupados e cansados de trabalhar e nunca notaram. Nunca perceberam que aquilo talvez fosse importante.”

Para ela, os deportados são um produto do processo brutal da imigração. Portanto, mesmo se o governo dos Açores e outras pessoas tentam ajudar os deportados, muitos deles são marginalizados porque vêm com os seus traumas, não têm família e nem falam português. “Em Ponta Delgada, é muito óbvio que essas pessoas são como uma peça que não cabe ali”, descreve.

“Houve muitos casos de gente deportada que podia ter qualquer mancha no registo criminal quando eram adolescentes mas que tinham uma vida totalmente normal enquanto adultos. E portanto, os governos canadiano e americano iam buscar aquele incidente como justificação para a deportação. Acho que a maior tragédia é que muitos desses deportados não sabiam que não eram cidadãos e foram deportados para um país com o qual nunca tiveram uma ligação”, acrescenta.

Através do ensaio sobre os deportados (tal como com os outros ensaios do seu livro), a escritora tenta promover uma ligação com a condição humana e fazer surgir empatia e compreensão pelo outro. “Queria escrever sobre os Açores mas não queria que seja só para os açorianos porque a saga imigratória afeta tantas pessoas”, explica. Daí surgiu a ideia do hífen no título porque todos os imigrantes fazem a experiência de sentirem que “não são bem nem de um lado, nem do outro”. São o hífen que se encontra entre dois mundos. E por vezes, uma pessoa encontra-se mais de um lado do que do outro ou até perde totalmente a conexão com uma das partes. Por vezes nesses momentos, acontece que um evento reestabeleça essa conexão perdida. Algo que a escritora experimentou graças ao autor José Dias de Melo (que faleceu em 2008).

“Eu regressei aos Açores por causa dele. Não estou a falar de regressar fisicamente mas sim emocionalmente e intelectualmente. Quando li Pedras Negras que fala da experiência baleeira nos Açores aprendi muito. Não sabia muito sobre esse tópico apesar de ter visto a última baleia que foi caçada. Ele é o escritor mais influente nos Açores na questão da baleação. E na ilha do Pico, que era o núcleo da baleação, toda gente sabe quem ele era porque ele era um homem do povo”, conta com emoção.

A professora conheceu o José Dias de Melo em pessoa após ter correspondido com ele durante um certo tempo. “Aprendi muito com ele sobre a ligação entre quem escreve, o que escreve, porquê escreve e o valor daquela escritura. Ele era aquilo tudo. Era um homem que foi perseguido pela PIDE. Era um homem com convicções de esquerda muito fortes. Também aprendi muito sobre a velhice, sobre o nosso legado que deixamos nesta terra, sobre o valor da literatura como um veículo de expressão humana, como uma forma de resistência e como uma forma de dar a conhecer um passado desconhecido”, descreve.

E talvez por ele lhe ter mostrado o caminho de volta para os Açores e lhe ter ensinado tanto sobre a vida, a Maria João Maciel Jorge escreveu um ensaio sobre o José Dias de Melo. “Ele deu voz às pessoas marginalizadas. E sinto que devo dar voz ao fato que um escritor daquele calibre sentiu-se marginalizado até à morte”, conclui.

Andreia Portinha Saraiva

Andreia Saraiva / Correspondente em Toronto (Canadá)