22.1 C
Vila Nova de Gaia
Sábado - 13 Junho 2026
No menu items!

Observatório da Emigração: Os portugueses no mapa étnico dos Estados Unidos (1970-80) – Ito-Adler, James

Destaques

James P. Ito-Adler, antropólogo social (PhD, Harvard), tem uma longa carreira dedicada ao ensino e investigação em instituições como Florida Internacional University e Harvard University, entre outras. Nos últimos anos, tem-se envolvido com ONGs, desenvolvendo o campo da international education. Com experiência de trabalho de campo entre imigrantes portugueses em Cambridge e Somerville, Massachusetts, famílias japonesas no Brasil, e comunidades indígenas do Alaska, é o autor de um estudo inédito sobre os imigrantes portugueses nos EUA na década de 1970, num dos períodos de maior migração entre os Açores e a Nova Inglaterra. Este estudo – The Portuguese of Cambridge and Somerville (Cambridge Department of Community Development, 1980) que esteve na base da conversa que se segue, está em fase de publicação pelo OEm.

Entrevista realizada em Lisboa, em Harvard University Campus, Cambridge, Massachusetts, USA, a 30 de outubro de 2025, por Graça Índias Cordeiro.


Observatório da Emigração (à frente OEm) – Jim, vou falar em português, mas podes falar em inglês, ou misturar com o português como nós fazemos habitualmente…O que for mais confortável para ti.

James Ito-Adler (JIA) – Pois não. Você sabe que esse é um dos assuntos. O meu português é do Brasil, oral, não académico. A linguagem académica, por um lado, é mais ou menos fácil porque a terminologia é parecida, umas vezes é em latim e não é longa, mas o estilo académico em português não podia ser mais longe do meu estilo de falar e pensar em português. Então, eu posso fazer a coisa em português para você corrigir sem perder o sabor do meu pensamento, mas apenas para facilitar a compreensão do leitor que não é tão confortável com o inglês. Mas vou deixar nas mãos de você e da editora. Como você sabe, a maior parte da literatura sobre portugueses, aqui, é em inglês; os portugueses não se interessavam pela colónia daqui, e tanto quanto sei, não havia estudiosos académicos de Portugal fazendo pesquisa aqui, ou havia muito pouco, naquela época, década de 1970.

OEm – Vamos começar por aí: o teu estudo de 1972 sobre os portugueses em Cambridge é um dos primeiros estudos,[1] anterior a outros que vieram depois, como o “clássico” de Leo Pap sobre os Portuguese-Americans,[2] de 1981. E quase todos fazem referência ao teu estudo, que foi pioneiro, apesar de não ter sido publicado e por isso ter tido uma circulação quase apenas local.

JIA – Pois é. Esse é um ponto importante. Havia algumas obras – The Zone of Emergence que refere os portugueses,[3] apesar de eles não serem o alvo; o estudo de Donald Taft e alguns outros autores mais recentes,[4] como Laurinda Andrade…[5] O livro de Leo Pap que usei foi o de 1949, sobre a fala Portuguese American.[6] E, claro, Francis Rogers, professor de português em Harvard, e John Jensen, que foi um graduate student, que fez uma tese de linguística, mas que recolheu dados sobre a história da migração portuguesa. Eu dei todo o crédito a John Jensen que me disponibilizou a sua tese não publicada para eu utilizar. Sobre o professor Francis Rogers, usei um estudo sobre o dialeto de Sāo Miguel na sua relação com o português “standard”.[7]

Mas começando pelo primeiro fato, o mais importante de todos: em 1971 eu era recém-regressado do Brasil, buscando emprego, e fui ter com uma ONG em Central Square (Cambridge, MA) para fazer uma entrevista de emprego, e me perguntaram: “Você tem algum talento? Alguma coisa especial, fora do comum?”, “Bem, eu falo português.”, “Ah! Fala português? Então talvez lhe interesse ir à East End House”, que é uma das settlement houses daquele tipo das referidas no livro Zone of Emergence, fundada por Margaret Fuller, a Fuller House. Então fui lá, em East Cambridge, que nessa época era, politicamente falando, a terra de Alfredo Velucci, que era um chefão. E ele tinha uma senhora que trabalhava no East End House, não como diretora, mas que cuidava dos seus interesses, para ele não ter problemas. Ele era o dono dos portugueses, politicamente falando. Teve uns concorrentes, um fotógrafo, Eduardo Pacheco, e também Manny Rogers, um dos líderes da comunidade, que tentaram ser eleitos como conselheiros (do City Council), mas que fracassaram sempre.

OEm – Nessa época, Vellucci era o Mayor de Cambridge?

JIA – Bom, Mayor é uma figura meio fraca. Mayor é eleito não pelo povo, mas pelos conselheiros, do City Council. Aqui em Cambridge você não vota diretamente no Mayor e por isso ele não tem muita força política. É quase só cerimonial, não é como o Mayor de Boston que é eleito diretamente, e que é muito forte.  Aqui em Cambridge é o City Council que tem todo o poder. Velluci era membro do City Council, e Pacheco e Manny Rogers tentaram ser eleitos para este Conselho, mas nunca conseguiram. Os portugueses nunca chegaram a eleger um português, ou filho de português, como conselheiro, nunca. E Velucci era dono de toda aquela região, East Cambridge, área onde havia muitos portugueses na época, junto com Italianos e outros grupos étnicos. Então, essa senhora que trabalhava no East End House, que se chamava Jean de Pasquale, era italiana, e eu tinha de conversar com ela para ela ficar a saber que eu não ia criar problemas e que os meus interesses não tinham nada a ver com política em si. Então, do East End House fui mandado para o Planning and Development Department, que foi quem encomendou o primeiro estudo que acabei fazendo, em 1972. Entre os dois estudos, em 1972 e 1977, este departamento mudou o nome para Cambridge Community Development Department, mas era o mesmo grupo, a mesma repartição, só mudou o nome. Conversei com eles, eles ficaram interessados no estudo, e arranjaram um dinheirinho – bom, naquela época, era um dinheirão, 3000 dólares, o que para mim era uma fortuna, está entendendo? Eu estava só buscando um trabalho. E no outono de 71 conheci Linda, que depois, em 1972, se tornou minha esposa. E então, tudo aconteceu muito rápido…

OEm – Já eras antropólogo nessa época?

JIA – Eu já me considerava um antropólogo formado.  Quer dizer, eu fiz o meu curso na University of Pennsylvania, que eu acho que até era melhor do que Harvard em antropologia, pois tinha um departamento muito forte. Harvard era forte em arqueologia, e eu era em antropologia cultural. Harvard era dominado pelos britânicos, era mais Antropologia Social – você entende a diferença. E durante os meus anos no Peace Corps, no Nordeste, em Pernambuco, Brasil, entre 1968 e 1970, eu já era antropólogo. Todo mundo me conhecia como “o antropólogo”. Regressei a Cambridge em 1971.

OEm – E aprendeste português em Pernambuco?

JIA – Sim, um português oral, analfabeto, porque a maioria do povo com quem trabalhava era analfabeto, ninguém lia, nem jornal, nem revista, nada. Brincando, eu digo que aprendi português “na marra e na mata”: na zona da mata em Pernambuco um sotaque do interior, e na marra, quer dizer informalmente e não num curso, não na faculdade. A gente tinha três meses de aulas em português, no Peace Corps Training, tudo oral, não tinha livro não tinha coisas escritas. Tivemos um treino de seis semanas em Milwaukee, onde antropólogos de porte chegaram para dar palestras sobre o Brasil, inclusive George Foster, famoso pelos seus estudos de camponeses, Sydney Greenfield, e outros que chegaram para dar palestras durante o nosso treino, como Carlos Lacerda. Porque a Universidade de Wisconsin, Milwaukee, tinha Sydney Greenfield, e mais dois professores marxistas que trouxeram Lacerda. Quer dizer, foi um treinamento incrível! E depois fomos para o interior de Pernambuco, em Carpina, PE. Em Milwaukee, estudamos com professores brasileiros, a maioria não falantes de inglês, uma cozinheira baiana, então, a gente tinha de conversar em português ou passava fome. Muito, muito, muito bem feito, por isso o meu português na rua é muito melhor do que na universidade. Eu estou mais confortável a falar português na rua do que em ambientes académicos.

E, na realidade, os açorianos quase nunca tiveram problemas em entender a minha fala. Já eu não posso dizer o mesmo! Eu não sei qual foi a sua experiência com esses micaelenses da outra geração, o sotaque micaelense é um trabalho mesmo para portugueses! Totalmente. E já misturado com o inglês. E a frase que eu mais me lembro…vou contar. A maioria dos portugueses não tinha contato com os serviços sociais de Cambridge, mas havia uma exceção: a Senhora Barbosa, famosa na cidade. Ela utilizava tudo que tinha de graça, aí ela chegava quase diariamente no East End House reclamando, queixando-se, pedindo serviços e tudo isso. E ela chegou lá e disseram-me: “Oh, James, agora é a sua vez, conversa com ela”. Nossa! E ela chegou com raiva falando o português miguelense, e eu me lembro de uma frase. “Tam pártmante com três riumes.”, e repetia “…três riumes” Bom, graças a Deus eu entendi. Aí eu falei, “she says she lives in an apartment with three rooms”. Todos ficaram satisfeitos. Daí fui lá para a City, a prefeitura, que disseram que tinham os recursos para um estudo sobre os portugueses, mas avisaram-me que não podiam fazer um contrato sem eu ter uma recomendação de que eu era capaz de fazer isso. Então, eu já conhecia o Professor Francis Rogers, e fui ter com ele em Harvard e expliquei-lhe que tinha arranjado dinheiro para fazer uma pesquisa sobre os portugueses. E ele falou assim: “Que felicidade! Eu estava buscando dinheiro para os meus alunos fazerem pesquisa aí…”. Mas aí eu disse: “Professor, não, esse aqui é meu projeto, fui eu que o fiz.” E ele foi lá ao departamento nas minhas costas…, mas eles disseram: “Não, ou James ou mais ninguém.” Então ele…bem, ele não gostava de mim: não gostava de antropologia, não gostava do Brasil, não gostava do português brasileiro. Tinha um monopólio no Departamento de Romance Languages, em Harvard; nessa época, nem um brasileiro dava aulas ali. E ele era o chefão de português, e era tudo português de Portugal, Camões, literatura nobre de Portugal. No início houve atrito entre nós, mas, para dizer a verdade, depois desse encontro, nós fizemos as pazes. Finalmente ele mudou a sua perspetiva, lançou aquele livro – The Atlantic Islanders…[8] Um livro que ele publicou sobre Açores e Madeira; ele e o Jensen publicaram uma bibliografia, e no fim, ele deu aulas na Extension School, não dentro dos curricula de Harvard em si, mas na Harvard University Extension School. Ele organizou um curso à noite sobre os portugueses dos Estados Unidos e me convidou a dar uma palestra. Depois desse primeiro encontro, ele me tratou muito bem.

OEm – E fez-te a tal recomendação para o Department of Planning and Development da cidade de Cambridge?

JIA – Ele não tinha como fugir. Então, eles arrumaram isso e fizeram-me o contrato.

OEm – E o estudo foi feito em quanto tempo?

JIA – Mais ou menos seis meses. Fizemos a pesquisa no Verão. Tinha conhecido o pessoal de COPA.[9] E conheci Margarida Serpa e Zélia Valente da Foreign Language Referral Service. Margarida não tinha emprego formal dentro da comunidade. Ela trabalhava no escritório de uma agência de seguros, eu acho. Mas, como voluntária, ela fazia tudo.

OEm – No teu estudo referes Filhos de Portugal, que foi organizado por ela?

JIA – Sim, eu acho que sim, foi ela quem organizou.  Era um grupo folclórico, fizeram shows, apresentação na televisão. Todo o mundo conhecia Filhos de Portugal como organização de Margarida. Penso também que ela integrava o Conselho de COPA, que ela ajudou a fundar, e também a SPAL…[10] Ela foi um apoio enorme nesta pesquisa, e a falta de referência ao seu nome nos agradecimentos ainda me dói, sinto que não reconheci bastante a sua contribuição. E a irmã mais velha, Mary Ghioni, foi muita ativa na comunidade, mais em Somerville, onde vivia.  

OEm – Para além da Margarida, e da COPA, quem mais te ajudou?

JIA – Joel Oliveira, que era o padre e que me ajudou, oh, demais, demais, até! Fui conversar com ele, e ele dentro da missa falou: os jovens vão bater na sua porta, querendo fazer perguntas. Tá tudo bom, não tem nada de ver com o governo. Ajuda a eles, e tal, tal, tal…. Abriu as portas porque a igreja era uma força naquela época, a única organização da comunidade inteira. COPA estava entrando na comunidade, tomando terreno aos clubes tradicionais, Santo Cristo, Faialense, que eram aqueles clubes do Portugal tradicional. Santo Cristo era forte, fazia a procissão em Cambridge; COPA entrou do outro lado, aquela geração querendo se integrar, querendo ser eficaz no mundo americano. Mas naquela época eles ainda não eram tão fortes como vieram a ser mais tarde.

OEm – Como arranjaste os jovens para a recolha de dados do teu estudo?

JIA – Margarida ajudou. E o Professor Peter E. Siegle que estava na Lesley University, tinha um programa de interns (estágios) chamado Making Community. Ele arranjou um dinheirinho para pagar estudantes voluntários do high school (escola secundária) durante as férias de verão. Não havia estudantes na universidade. E contavam-se pelos dedos os estudantes da comunidade que frequentavam a escola. A irmã de Margarida, Clara, que eu me lembre, e Andrea, eu acho que a Andrea, a caçula, ela sozinha fez metade das entrevistas.

OEm – E aplicaram o questionário, porta a porta?

JIA – Sim esta metodologia era uma inovação. Dentro da área da pesquisa tentamos uma amostra de 100%. Utilizamos um mapa dos quarteirões e andamos de casa em casa, apartamento a apartamento. Deu certo por que as famílias estavam muito localizadas com divisões informais, bem claras, entre portugueses e hispânicos. Por isso falei da diferença entre população e comunidade. População eram os residentes legais de Cambridge – o alvo do estudo. Comunidade era quem participava na vida social e cultural fossem ou não residentes em Cambridge ou Somerville. Mas quero enfatizar algo que tem de ficar muito claro:  este estudo nunca foi concebido como um projeto académico e, para o melhor e o pior, nunca teve repercussão nos meios académicos. Nunca fiz nenhum trabalho académico com base nele, nunca dei uma palestra académica, dentro da AAA (American Anthropological Association), nada, nada. E o mundo académico ficou de costas voltadas para mim nesse sentido. Nunca recebi nada do mundo académico por este estudo e nem esperava nada.

OEm – Terá sido por que nunca foi publicado?

JIA – Não foi publicado academicamente. A única exceção, foi a referência de Stephen Cornell no seu livro sobre Ethnicity and Race a propósito de dois termos que usei, assertion and assignment.[11] E fui convidado, de vez em quando, para conferências mais informais, ou eu me colocava dentro. Fui convidado pelo Cambridge Hospital para fazer um medical round – levei Margarida Serpa, que era voluntária no Cambridge City Hospital. Sempre que tinham problemas com dificuldades de comunicação com portugueses, chamavam-na para traduzir. Ela contava histórias tristes sobre estas faltas de comunicação. Sempre que me convidavam para falar dos portugueses, eu tentava ir com Margarida, quase nunca aparecia sem ela. E nunca respondia a perguntas sobre o que os portugueses pensam sobre isto e aquilo. Dizia: não sei. Eu posso falar dos dados que nós colhemos e analisámos, mas eu não sou português e eu não falo em nome da comunidade portuguesa; agora a minha amiga, minha colega Margarida pode responder. De certa maneira eu dependia de Margarida e tentei abrir portas para ela num mundo em que ela antes não tinha participado.

Uma vez fomos, eu e Margarida, a uma conferência no oeste doMassachusetts, não em Boston. Estávamos todos sentados num círculo largo, eu apresentei-me e uma mulher levantou-se e disse: Are you Jim Adler? – Yes, I am. E ela disse: – I sleep with your study under my pillow every night! Era a Professora M. Estellie Smith. Que mulher forte! Nossa! Ela tinha força de vontade, uma presença poderosa, ela não era uma flor delicada, ela era um furacão.

OEm – Onde é que ela ensinava?

JIA – Naquela época acho que ela era professora numa das escolas de SUNY.[12] Fazia antropologia marítima e tinha escrito sobre mulheres portuguesas. Ela foi uma das primeiras antropólogas a escrever sobre portugueses.[13]

OEm – Depois de ti? Creio que o seu primeiro estudo é de 1973…

JIA – Bem, sim, mas ela começou a investigação antes, a data da publicação não é a data da pesquisa. Falámos, e voltei a encontrá-la algumas vezes em encontros de antropologia. She was a lovely and very gracious person. E depois, um desses grupos que então faziam parte da Southeastern Massachusetts University, que depois se veio a tornar UMass Dartmouth,[14] organizaram um congresso, convidaram-me e… eu fiquei tão zangado que decidi nunca mais lá voltar. Eles queriam que eu pagasse para ir a esse congresso, e lembro-me de dizer a Margarida: I will never pay to hear people more ignorant than me talk about the Portuguese. Isso não, isso não faço. Foi a última vez. E não colocaram o meu estudo nas bibliografias que emitiram. Foi muito frustrante.

Comecei a graduate school, em Harvard, em 1971 depois de ter arranjado este projeto. A única coisa que fiz com o estudo dos portugueses foi usar o computador para tratar dados num curso de metodologia; consegui uma pequena subvenção, e aprendi a usar IBM cards no IBM mainframe computer para tratar os dados. Tive de fazer code sheets com as respostas ao questionário e dar estas code sheets a uma senhora que criou os IBM punch cards para o computador. So, I had a deck of 2,500 cards, you know? E, com este primeiro estudo, fiz um projeto para este curso. Não para uma publicação, pois nunca cheguei a escrever um paper mas apenas um trabalho de um curso semestral de metodologia quando fazia o meu PhD em Antropologia. Mas fiz apenas uma estatística bem modesta, sem correlações nem nada. Só frequency counts and cross-tabulations.

OEm – Lembras-te do número exato de casas que trabalharam?

JIA – Sim, foram 721 households e cerca de 2 250 indivíduos. E deparei-me com um primeiro problema que ficou por resolver. Fui ter com os especialistas informáticos e disse: – Tenho dois tipos de dados, uns que pertencem ao household, família, e outros a indivíduos. Como é que os posso integrar? E eles disseram-me que não era factível. Ou você faz 2,250 entradas individuais e coloca os dados do household e repete, ou coloca por household e coloca indivíduo um, indivíduo dois, indivíduo três…. Mas nós não temos maneira de integrar, relacionar dentro de um programa no computador. Eles estavam tentando resolver isso para o censo de 1980, mas não foi resolvido no tempo em que o estudo foi feito.

Linda ajudou-me a codificar, Margarida ajudou-me, várias pessoas me ajudaram. Questionário a questionário, questão número 1, qual origem? E tínhamos um código para cada uma, São Miguel – 1, Santa Maria – 2, e assim por diante.

Foi relativamente simples. Eu criei tudo isso por minha conta e com o meu conhecimento de antropologia na época. Eu tinha uma base forte em community studies. Um dos maiores investigadores em antropologia que escreveu trabalhos importantes sobre isso foi Ward Goodenough, que foi meu mentor na Penn.[15] Ele e Anthony F.C. Wallace.  

Goodenough foi o que inventou Componential Analysis, ele era brilhante. Ele escreveu um artigo sobre como codificar os dados. E mostrou que dois antropólogos competentes podiam entrevistar na mesma comunidade e acabar com classificações de residência diferentes, por exemplo, patrilocal, matrilocal, virilocal, uxorilocal, usando aquela terminologia que saiu dos arquivos de George Peter Murdoch e da HRAF-Human Relations Area Files. Eu tinha aprofundado isso na Penn. Harvard não se interessava por isso, à exceção de um professor da velha guarda, John Whiting – que também foi um dos meus mentores mais próximos em Harvard. Mas outros, como Maybury-Lewis, eram mais do lado britânico, aquela etnografia profunda, aquela pesquisa em profundidade.  Nada de fazer levantamentos, nem estatísticas.

OEm – Mas tu fizeste um pouco ambas as coisas, levantamento e pesquisa em profundidade…

JIA – Não, com o estudo dos portugueses, eu não fiz uma etnografia profunda como fiz com os japoneses de São Paulo. Eu apenas organizei as entrevistas e tive um certo grau de convivência com eles. Também li as poucas referencias na biblioteca.

OEm – Gravaste as entrevistas?

JIA – Não, nunca. Eu fui na “marra”, com a Margarida…

OEm – O que significa “na marra”?

JIA – É Português do Brasil. Na rua, informal, na luta só para entender…sem instrução, sem aulas formais. Andei na comunidade, mas não posso dizer que tenha feito uma etnografia dos portugueses. Porquê?  Eu me considero antropólogo, mas esse aqui não foi um estudo antropológico, foi um estudo de consultoria informado pela antropologia.  Não foi feito para trazer contribuições à antropologia, mas sim para dar uma contribuição à sociedade.

OEm – Mas deste uma contribuição aos estudos sobre etnicidade, foste citado por Cornell & Hartmann, no livro Ethnicity and Race, como já referiste…

JIA – Na época nem pensei assim. Eu já comecei a escrever sobre isso na introdução do livro que vai ser editado sobre este estudo. Não é um estudo académico antropológico. Claro que eu tinha as minhas raízes, a minha formação e autoidentidade como antropólogo. Mas não é um estudo antropológico, por isso nunca publiquei sobre isso, nem sequer numa conferência académica.

Entre os dois estudos fiz uma evolução no meu entendimento de identidade. No primeiro estudo, fui um guerreiro pregando autoidentificação. Quem somos nós para definir quem é português? São os portugueses quem tem de dizer quem é português. Eu estava 100 % naquele lado. Entre os dois estudos, cheguei a esse entendimento maior e melhor que tem dois lados. Um lado sai da sociedade, que tem suas categorias, que tentam impor e, por outro lado, um grupo tentando se definir. Identidade no sentido total está na relação entre estes dois polos ao encarar o problema. A única pessoa em Harvard que se interessou pelo meu estudo foi o Stephen Cornell, que era um jovem professor de sociologia interessado nos povos indígenas dos Estados Unidos. Sociólogo naquela época não fazia isso. Indígena não era o alvo do sociólogo, era a terra dos antropólogos. E os antropólogos, por seu lado, não se interessavam pelos grupos étnicos que ficavam do lado dos sociólogos. E uma vez ele pediu ajuda, um favor. Ele teve uma aluna nas suas aulas em Harvard que não encontrava espaço social. E ele era professor dela e ela escreveu um paper dizendo como é que sofria. Não encontrava comunidade em Harvard. Então eu cheguei a conversar demoradamente com ela. Ela era do Midwest, não da costa. O pai dela era branco e a mãe negra. E ela tinha uma história dentro da família desde a Guerra Civil, do século XIX, de casamentos entre raças. E ela disse, “Eu vou negar a minha história?  Eu vou recusar reconhecer meu pai, que me criou, que me adora e tudo isso? Não, eu não posso deixar nem um lado nem outro”. Naquela época eu já tinha juntado o meu nome com o sobrenome da Linda, você sabe, o primeiro estudo eu era Adler, porque em 72 depois de publicar isso, nós formalmente, legalmente e juridicamente, juntamos os dois nomes – e passei a chamar-me Ito-Adler. Depois de eu contar esta história ela ficou tão satisfeita…. Então, ele, professor Cornell, e eu ficamos muito, muito amigos, ele é muito bom. E ele pegou esse negócio de autoidentidade, assertion, e de assignment, a identidade imposta. E saiu no livro dele. Foi o único académico sério que reconheceu a minha contribuição formalmente. Outros académicos usam termos que cobrem a mesma distinção, mas o meu soava bem, dava para lembrar. Foi no segundo estudo que eu mudei de ideias. Não é que tenha lançado mão de autoidentificação, mas ficou mais bem entendido como uma relação entre os dois. E ele pegou isso e publicou no seu livro.

OEm – Portanto, em 1971 fizeste um estudo, publicado em 1972, e em 1976 fizeste outro, publicado em 1977, em que atualizaste os dados e incluíste Somerville, cidade vizinha de Cambridge, MA. Como surgiu este segundo estudo? Foi a cidade de Somerville que te pediu?

JIA – Penso que foi uma mistura de COPA e SPAL, não me lembro exatamente…

OEm – E qual foi a receção do primeiro estudo? Entregaste na cidade de Cambridge, houve comentários? Como é que eles divulgaram?

JIA – Eles divulgaram, sim. Foi impresso no departamento, a Juanita Ward, que era empregada da prefeitura (Câmara Municipal) datilografou. Elizabeth Hepner, que também era empregada do departamento, fez a revisão. Eles publicaram e distribuíram.

OEm – Lembras-te quantas cópias fizeram? Foi para bibliotecas?

JIA – Nem sei… Saiu através do departamento da prefeitura. Quem lá fosse, na época, eles ofereciam de graça uma cópia, a quem se interessasse. Eu não sei o que COPA fez para ficar com cópias, não me lembro exatamente.

OEm – Não houve nenhuma reunião pública, nenhuma apresentação do estudo?

JIA – Nada. Não, foi tudo através da City.

OEm – E, na tua opinião, este estudo influenciou de alguma maneira a política da cidade de Cambridge relativamente aos portugueses?

JIA – Sim. Influenciou positivamente a relação com os portugueses. Houve diretores na COPA que utilizaram bastante. Você tem de se lembrar, que essa foi uma reação às falhas do recenseamento nacional. Ninguém ficou satisfeito com os resultados do Censo sobre os portugueses, em 1970. Todo mundo sabia que os dados do Censo não mereciam confiança, por várias razões. A razão por que prestei tanta atenção à definição de etnicidade, era porque a maior falha do Censo era na questão “qual é sua identidade?”.  Português não tinha espaço: ou colocavam como hispânico, que eles rejeitavam, ou num grupo não reconhecido como um grupo que merecia uma classificação. Então, a luta naquela década de 70 era colocar os portugueses no mapa da consciência nacional dos grupos étnicos. Essa foi nossa luta. E os diretores de COPA utilizaram até ao máximo os dados desta pesquisa.

OEm – Que interessante…essa continuou a ser a preocupação da MAPS. Em 2009, quando vim pela primeira vez a Boston, lembro-me bem da luta da MAPS para que a contagem do Censo desse visibilidade, nessa época, aos Portuguese Speakers…

JIA – Claro, porque sem números você não ganha recursos. Tem de provar que tem os números. Mais tarde, através de Boston Redevelopment Authority (BRA), Álvaro Lima criou um espaço brasileiro em Boston e em Massachusetts para luso-falantes. Claro que a maioria eram brasileiros. Já não se interessavam por portugueses naquela época. Porque o censo tem dois lados: um é o Censo Nacional, que buscam fazer uma contagem a 100%; nunca conseguiram, e tem vários truques estatísticos de preencher esses vazios, mas a ideia é uma contagem de 100%; o outro é The American Community Survey, que em cada cinco anos faz uma amostra aleatória de households. Saiu em 75, em 85 e, Álvaro Lima, que trabalhava na estatística em Boston, analisou os dados do American Community Survey. O que foi interessante, claro, eu conheci-o, é um cara muito inteligente. Ele era afiliado do Thomas Menino, que foi um mayor muito forte de Boston, e o Álvaro Lima tinha base no Boston Redevelopment Authority que tinha recursos e tinha peso. Eu me dava muito bem com ele.

Depois, eu tive duas experiências, meio académicas, com a comunidade portuguesa. Uma foi com seu querido colega Gilberto Velho. Eu já falei, né? Nós fomos lá para uma reunião – eu acho que foi na COPA – com ele e com Yvonne Maggie, eu acho que era a esposa dele na época. Para mim, ele era um pouco auto importante, mas não é que não fosse inteligente – era demais! – academicamente falando, muito forte mesmo. Ele estava pensando fazer um estudo com os portugueses de Cambridge e queria que eu o apresentasse à comunidade. Mas eu não era dono dos portugueses, eu não era o gatekeeper, não era eu que podia dizer “você pode, você não pode”. Não queria fazer esse papel. Mas eles confiavam em mim e, se eu pedisse, eles aceitavam recebê-lo. Então, levei ele para uma reunião com esses velhos açorianos, imigrantes, micaelenses na maioria. E eu apresentei-o – gostaria de apresentar o professor Gilberto Velho, é um professor de antropologia no Brasil que está interessado na comunidade. Aí, ele deu uma palestra que no Brasil, no meio académico, teria sido ótimo, com aquela linguagem carioca da alta, bonita, e eles ficaram… O que é isso? E disseram-me: “James, a gente não entende. O que é que ele quer?”, “Não sei, fica com vocês de decidir”. E no fim, ele fez uma entrevista com uma portuguesa, uma jovem secundarista… você leu, né? que ele publicou muitos anos depois…[16] não sei, não… ela era da Terceira, de uma família totalmente diferente do resto da comunidade. Quer dizer… não é que não fosse bem feito, mas não representava a média. Mas eu nunca escreveria nada negativo sobre o estudo.

O segundo caso foi pior. Um amigo meu que era ex-voluntário de paz, aluno de sociologia, teve um projeto sobre alcoolismo e ele queria fazer um estudo entre os portugueses. Ele pediu, eu ajudei a facilitar o estudo. E na comunidade se zangaram, ficaram com raiva do estudo, não gostaram. Ele era um graduate student de Sociologia, em Harvard, e conseguiu fazer, era um projeto de escola. Ele era um grande amigo, mas eles não gostaram. E falaram para mim “James, nunca mais faças isso de novo.”

OEm – Esse estudo foi publicado?

JIA – Não sei. Foi um trabalho dentro de um projeto de pesquisa, eu lavei daí as minhas mãos… Mas, na comunidade, me pediram para eu nunca fazer isso, e desde aquela data nunca mais forneci uma amostra para ninguém. Teve um médico que queria fazer uma pesquisa sobre uma doença conhecida na época Saint Michael’s disease, que é uma doença genética.[17] Aí eu falei “Nossa, não, eu não estou vendendo amostras”. Tem COPA, tem SPAL, você pode ir lá, mas eu não. Eu não vou fazer isso, nunca mais fiz.

OEm – MAPS,[18] agora, depois da fusão entre COPA e SPAL, nos anos 1990…

JIA – Sim, depois mudaram para MAPS. Eu falei a mesma coisa para você. Eu acho que MAPS foi a única saída, mas na realidade nunca achei que o idioma, que a língua servia como base suficiente para o longo prazo, porque a língua estava desaparecendo e nos únicos lugares em que estava subindo, era com brasileiros. Então, na época (1990) resolveu o problema: dei uma década de existência para MAPS poder trabalhar entre brasileiros, portugueses e cabo-verdianos. Era o único jeito. Mas no longo prazo – e quando você chegou aqui, foi a base teórica de seu trabalho, será que o idioma servia?  foi essa a sua pergunta. Eu falei abertamente. Não, não me parece factível ao longo prazo. E nem por isso recusei ajudar você, mas nunca tive fé nessa ideia. Serviu no curto a médio prazo, foi a única forma das organizações sobreviverem.

OEm – Falando agora um pouco sobre a tua tese de doutoramento,[19] iniciada depois deste estudo. Disseste-me que a tua tese sobre famílias japonesas em São Paulo, Brasil, se afundou como uma pedra na água…

JIA – Pois é. Então, os japoneses de São Paulo, na indústria de avicultura, não eram pobres, nem camponeses, eram até milionários. Saíram-se muito bem na agricultura de São Paulo. Quando chegamos em 1975, eu e Linda, eu soube que a Ruth Cardoso, antropóloga, tinha escrito uma tese de doutorado na USP sobre os japoneses de São Paulo. Entrei em contato com ela, ela me convidou para o apartamento dela em Higienópolis, bairro nobre, e passámos um dia correndo atrás dessa entrevista com ela.

OEm – Já era casada com Fernando Henrique Cardoso?

JIA – Claro, já fazia tempo. E eles nos convidaram, gastamos um dia a viajar entre São Bernardo do Campo, onde a gente morava, numa colônia japonesa, até Higienópolis, um dia de viagem lá, ida e volta, e chegamos no apartamento dela, o Fernando Henrique estava lá, e ela diz “James, aqui é meu marido, o Fernando Henrique, muito bom conhecê-lo”, mas ela era antropóloga e ele sociólogo. Eu já conhecia o trabalho dela, me interessava, e ela me deu um exemplar em xerox da tese dela. E estava bem escrita, ela analisou os dados de um recenseamento da colônia japonesa, que é um dos melhores recenseamentos feito em qualquer canto do mundo, como só os japoneses podiam fazer, em 1968. Quer dizer, eles entraram em contato com quase 100 % dos japoneses dentro do Brasil e os dados são riquíssimos. E ela analisou mais ou menos da mesma maneira que eu fiz. É que na minha tese falo que são dois caminhos para a ascensão social. Um, que ela tocou, é urbanização e educação superior. E uma parte dos japoneses fizeram isso. Enviaram os filhos para a universidade, para serem engenheiros, farmacêuticos, etc. E outro caminho era elevar sua empresa simples tornando-a uma empresa de porte, uma sociedade anônima, uma grande empresa – e os parentes da minha esposa, os Itos do Brasil, tinham a maior granja na América Latina, quer dizer, eram milionários.

OEm – Foste pioneiro mais uma vez…

JIA – Faltavam décadas para isso sair como assunto em antropologia. A única coisa que eu levei do estudo português, das coisas que eu descobri na pesquisa dos portugueses – e acho que fui um dos primeiros a falar abertamente, francamente – foi o foco em estratégias familiares. Quer dizer, havia estratégia do grupo étnico e estratégia individual, mas ninguém falou de famílias como tendo uma estratégia familiar. São dois grupos que eu conheço, os portugueses de Cambridge e os japoneses, por várias razões. Então, eu trabalhei essas estratégias familiares. Louise Lamphere quase tocou nisso,[20] mas na verdade ela se interessava por assunto femininos como o título do seu livro indica. Há várias pessoas que se aproximaram, mas ninguém falou exatamente em termos de estratégia familiar.

Jornal Comunidades Lusófonas
Ver Também

AILD propõe a criação do Dia do Lusodescendente e pede audiências no Parlamento

A Associação Internacional dos Lusodescendentes (AILD) anunciou no dia 5 de junho, uma iniciativa para instituir oficialmente o Dia do...