Chefe da agência, Tedros Ghebreyesus, abriu 79ª. Assembleia Mundial da Saúde citando reformas na arquitetura global da saúde e cortes de verba; declaração de Emergência de Saúde Pública sobre variante Bundibugyo em surto de ébola mobiliza delegações internacionais.
Nesta segunda-feira, 18 de maio, Genebra acolheu a abertura da 79ª. Assembleia Mundial da Saúde com um balanço que mencionou tensões geopolíticas e um chamado urgente à ação coletiva.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, OMS, Tedros Ghebreyesus, abordou uma série de desafios que ameaçam a estabilidade sanitária internacional.
Mundo de conflitos e crises económicas
Ghebreyesus mencionou a situação do hantavírus e do ébola que aponta como duas das últimas crises num mundo que regista desde conflitos a crises económicas, mudança do clima e redução de ajuda em tempos difíceis e perigosos.
Além das ameaças biológicas imediatas, como o hantavírus e, de forma central, o novo e agressivo surto de ébola na África Central, Tedros citou o “efeito cumulativo e arrasador” dos conflitos armados e das “mudanças do clima” sobre as pessoas mais frágeis do planeta.

Um dos destaques foram os “recentes e severos” cortes de financiamento que forçaram uma reestruturação interna na agência, ao mesmo tempo em que o mundo enfrenta uma nova crise biológica de proporções alarmantes.
O chefe da OMS destacou ainda que como todos sabem, a OMS está a passar por um período difícil que resulta de bruscos e rápidos cortes para o financiamento num cenário global cada vez mais fragmentado. Ele alertou que os sistemas de saúde continuam sob pressões extremas.
Alerta máximo para variante rara de ébola
Mas o pano de fundo da Assembleia foi a decisão da OMS de declarar, neste domingo, o surto de ébola na República Democrática do Congo, RD Congo, como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional.

Investigadores de doenças infecciosas apontam que o vírus tem se espalhado de forma silenciosa e indetetável por semanas ou até meses na região que já teve confirmados pelo menos 10 casos no laboratório.
O total de infeções suspeitas supera 390 pacientes em rastreamento ativo. Estima-se que os óbitos ultrapassem mais de 100 e a taxa de letalidade atualizada para a espécie do vírus Bundibugyo está entre 25% e 50%.
A OMS diz não haver vacinas ou tratamentos aprovados especificamente para a espécie Bundibugyo, e a maioria dos testes de diagnóstico rápido de campo é projetada apenas para a cepa mais comum, a ébola Zaire.
Disseminação ativa
A preocupação internacional aumentou de forma significativa com a confirmação de que a infeção ultrapassou fronteiras.
Pelo menos dois pacientes confirmados cruzaram a fronteira congolesa para o vizinho Uganda, levando ambos os países a declararem oficialmente estado de surto epidemiológico na última semana.
Tedros Ghebreyesus realçou que as características da atual transmissão são altamente complexas, com casos notificados entre pessoas sem qualquer vínculo epidemiológico conhecido entre si.
A situação torna-se ainda mais crítica devido à contaminação intra-hospitalar: pelo menos quatro profissionais de saúde morreram no mesmo hospital na RD Congo, indicando uma disseminação ativa em ambientes clínicos.
Colapso potencial de sistemas de saúde
O chefe da OMS, abordou a tensão gerada pelo colapso potencial de sistemas de saúde sob crises consecutivas, com detalhes da “profunda reforma estrutural” pela qual a agência passou nos últimos nove anos, sustentada por três pilares estratégicos fundamentais.

Primeiro, o reforço da ciência e dos sistemas de dados com a modernização dos eixos de inteligência epidemiológica e consolidação de evidências científicas rigorosas para subsidiar decisões globais rápidas.
Em segundo lugar, falou de melhoras na preparação para emergências pós-Covid-19 com reformas na arquitetura de resposta internacional para mitigar a vulnerabilidade das nações diante de novas ameaças pandémicas.
Por último, a reforma do modelo de financiamento marcada pela transição para um ecossistema orçamentário mais estável, previsível e financeiramente independente, reduzindo a volatilidade institucional causada por cortes políticos.
Descentralização
Para Tedros, a dependência excessiva de doadores voluntários e agendas externas limita a capacidade de resposta da agência. Ele defende uma reconfiguração da arquitetura sanitária global que priorize a descentralização produtiva e a autossuficiência regional a que chamou de “soberania sanitária”.

Como exemplo prático dessa nova filosofia, o diretor-geral elogiou iniciativas de liderança local no Sul Global, destacando o programa “Accra Reset”, desenvolvido pelo Gana, que na abertura da reunião foi representada pelo chefe de Estado.
O projeto visa remodelar a infraestrutura de saúde e a produção local de insumos farmacêuticos na África, baixando a dependência externa crónica de cadeias de suprimentos intercontinentais.
Reformas de governança e financiamento
A sessão solene contou ainda com uma mensagem especial em vídeo enviada pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, expressando apoio irrestrito às reformas de governança e financiamento da OMS.
O líder da ONU sublinhou que o multilateralismo e a equidade no acesso global à saúde são os únicos caminhos viáveis para a segurança coletiva na era contemporânea.
No fim do primeiro período da plenária, a OMS realizou uma cerimónia de entrega do prestigiado Global Health Leaders Awards 2026.




