A vida é um segmento de reta. Tem início e tem fim. E não, está muito longe de ser um conto. Não é de estranhar que o grande filósofo Schopenauer tenha comparado a existência a uma prisão na qual nós, condenados, estamos confinados a existir, vivendo de perto com sofrimento, injustiça e o maior juiz de todos – a aleatoriedade.
Não escolhemos como nascemos, com que família ou com que saúde, com que condições, em que país ou em que cultura, e até mesmo os sonhos de infância e juventude são moldados por todos os que foram referência na nossa infância. Mesmo no mundo do trabalho não escolhemos chefes, colegas e até mesmo tarefas. Os amigos que temos, ou melhor, como o tempo e a energia são curtas, as pessoas em que investimos dependem muito de encontros e desencontros, de momentos.
Dito isto nada parece estar sobre controlo e o niilismo parece ser a única certeza da vida, mas diria que não. Não podemos definir o que nos chega mas podemos construir o carácter e o gosto com que o fazemos.
A justiça de todos os valores é o mais perigoso porque cria a noção de injustiça, de perda, de falta de sentido. Porque razão nascemos com uma doença? Porque razão um jovem morre? Porque razão o acidente acontece?
E se fosse de outra forma?
Pois bem, nada mais neurótico e niilista do que procurar responder a porquês ou ponderar ses. O mundo, recordem-se, é um segmento de reta e como toda a reta, só existe um caminho – frente.
Não deve ser o contexto que define o indivíduo, mas aquilo que faz o indivíduo apesar do contexto, e apesar da perda, o caminho continua a ser em frente.
Esta semana um amigo parou a sua patrulha e a sua reta, a olho nu, esvaneceu. Apesar de todas as dificuldades com que se viu desde sempre, no fim parece que se fala somente de sofrimento, mas o que eu vi não foi isso. Vi momentos de alegria, partilha e criação. Ele fazia as próprias peças para a sua ação. Ele foi um criador e isso nada tem a ver com paz ou felicidade, porque as emoções são momentos, mas o partilhar e viver o gosto, isso é eterno.
Obrigado M. porque não foste conto de fadas nem, no polo oposto, uma epopeia, porque o que deixa marca e cicatriz, mas também amor e honra é o que é real. Sim, foste mais do que potência, foste seja no silêncio, seja na revelia, gosto e vontade.
Foste não, és! Cabe ao humano seguir-te o exemplo e mesmo que por centelhas de tempo ser senhor da sua vontade.
Autor: Pedro Miguel Santos







