8 de maio de 2026
Numa entrevista à TSF sobre a celebração dos 100 anos de David Attenborough e sobre o impacto profundo que este teve na sua vida, Eduardo Rêgo dizia que temos um enorme défice de consciência e que precisamos de trazer para o centro as vozes que lutam profundamente por causas.
Artigo Exclusivo para subscritores
E talvez seja exatamente isso que define o nosso tempo.
David Attenborough, com a profundidade do seu olhar sobre o planeta e sobre a vida, mostrou durante décadas aquilo que tantas vezes insistimos em não ver. E Eduardo Rêgo teve razão ao sublinhar esta falta de consciência coletiva que atravessa o nosso século.
E eu acrescento: esta semana, em palco, em Lisboa, pedi que defendêssemos a humanidade usando a justiça e a sua defesa como pilar fundamental. Mas para isso temos também de trazer a literacia.
A verdadeira literacia do século XXI já não será apenas saber ler e escrever. Será saber o básico sobre quatro grandes vetores: o humano, o planeta, o digital e o tecnológico. Porque só assim poderemos continuar a ser cidadãos ativos, humanos livres e agentes conscientes da nossa própria humanidade.
A energia, os adubos, as guerras, a volta de se falar de fome e de tempos difíceis lembram-nos que temos urgentemente de voltar a ser família humana. Temos de voltar a cuidar uns dos outros.
Cuidar.
Sempre que penso em cuidar, penso na palavra mãe.
E foi no domingo passado o dia de todas as que cuidam e que, por isso mesmo, são mães. Este domingo será o meu dia da mãe, porque já estou em Portugal e celebramos uma semana depois.
E talvez seja precisamente disso que o século XXI precise: fazer renascer a centelha do cuidar. A centelha do amor pela vida.
Vivemos num tempo estranho, onde sabemos cada vez mais sobre tecnologia, mas parecemos esquecer o essencial sobre humanidade. Desenvolvemos inteligência artificial, automatizamos sistemas, aceleramos o digital, mas continuamos incapazes de resolver solidão, fome, abandono, violência e indiferença.
Talvez porque o problema nunca tenha sido apenas tecnológico. Talvez tenha sido sempre um problema de consciência.
Despertemos então esta consciência em todos nós. Para cuidar da Mãe Terra e para que ela cuide de todos nós. Para cuidarmos de cuidar. Para escolhermos a esperança num futuro menos madrasto.
E há ainda outra coisa que me ficou desta reflexão. Eduardo Rêgo tem, pelo que percebi, na parede da sede da sua organização, uma frase de O Principezinho que também levo comigo e dentro da minha alma: “o essencial é invisível aos olhos”.
E talvez seja mesmo isso que tantos de nós andamos a sentir.
Depois da minha experiência em Lisboa, acredito cada vez mais que existe um grito silencioso de muitas consciências que procuram os seus. Que procuram as suas irmandades, os seus companheiros, os seus pedaços de alma. Pessoas que se reconhecem nesta ânsia profunda perante um mundo presente que parece tantas vezes querer destruir tudo aquilo que de melhor existe na humanidade.
Mas talvez seja precisamente aí que começa a esperança: quando essas consciências finalmente se encontram.
Como sempre:
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




