07 de junhoo de 2026
Esta semana dei por mim a pensar, “venham eles” que já ninguém atura este mundo que parece cada vez mais um filme de ficção!
Artigo Exclusivo para subscritores
Foi esse o meu primeiro pensamento numa manhã de sexta-feira, enquanto assistia à abertura do noticiário da BBC e ouvia Steven Spielberg, que tem mais um prometido sucesso de bilheteiras em estreia, mais um que fala sobre a possibilidade de existir já vida alienígena na Terra. Estou mortinha por ir ver o filme, confesso.
Voltando à manhã de sexta, há que também referir, para os jovens leitores, que sou uma criatura assumidamente antiquada. Continuo a gostar de ver noticiários em direto e gosto mesmo muito de televisão. Há qualquer coisa de reconfortante em receber um retrato do mundo que não foi escolhido pelos meus algoritmos, pelos meus cliques ou pelas minhas preferências. Durante alguns minutos, vejo aquilo que um conjunto de editores decidiu que importa. E não vejo só a BBC, aliás, quando tenho tempo, também vejo, para comparar o que me estão a mostrar, canais que vão da CNN, Fox News, EuroNews e outros canais que têm narrativas bem diferentes de um mesmo facto. Mas, nos tempos que correm, confesso que reduzi bastante o meu consumo de notícias, que era bem mais ávido. Não por desinteresse mas por mera higiene mental. E talvez por isso aquele alinhamento de abertura me tenha chamado tanto a atenção. E correu assim:
Guerra,
Política,
Poder,
Tecnologia,
Negócios,
Inteligência artificial!
E nem uma única notícia sobre mulheres. Nem uma cara feminina, nem uma! Dei por mim a pensar que, para uma mulher, aquele retrato do mundo parecia estranhamente alienígena. Onde estava a outra parte desta espécie de animais, a que chamam Homo Sapiens e Sapiens?! Bem se chamam “homo”, já devia ser indicativo para todos os que viessem a “encontrar” esta espécie. Reparem que poderiam ser simplesmente “Humanitas”, mas não, ainda lhe “damos no Homo”, o que me leva à piada da geração da televisão: “… lava mais branco”! Aqui o aviso de que esta piada seca, qual Pedro Ribeiro da Rádio Comercial (grande abraço de uma fã, se algum dia este texto lhe chegasse às mãos).
Mas seguindo…
Como se metade da humanidade tivesse desaparecido do enquadramento, num “puf”. Como se as histórias que sustentam a vida quotidiana, o cuidado, a educação, a saúde, as comunidades e as famílias fossem sempre remetidas para uma espécie de rodapé invisível da História. Foi então que surgiu uma das notícias da manhã. A Anthropic alertava para o facto de estarmos a falhar na reflexão sobre o impacto da inteligência artificial na economia e na sociedade. A minha reação imediata foi pouco elegante.
“A sério?”
Porque muitos de nós andamos a ter esta conversa há anos. Eu falo por mim, que tenho trabalhado tanto para “avisar” com uma organização que co-fundei e que se chama Humanity of Things Agency. Mas o rol de investigadores, professores, tecnólogos, artistas, profissionais de saúde, juristas e cidadãos comuns espalhados pelo mundo, que têm feito estes alertas e mostrado as suas preocupações, é vastíssimo. Talvez o problema nunca tenha sido a ausência de avisos. Talvez tenha sido simplesmente a ausência de escuta, ou pior, e foi esse o caso, sabiam, mas iam sempre dizendo que “se não fizermos nós, os outros fazem”. E pelos outros, acabava sempre na Terra do Dragão, ou o Reino do Meio, ou o berço da flor de lótus e tantas outras designações que o leitor lá chegará.
Mas o mesmo noticiário que trazia alertas também trazia esperança, uma reportagem sobre aquilo que poderá ser uma das primeiras vacinas desenvolvidas com recurso significativo à inteligência artificial.
E ali estava o paradoxo do nosso tempo.
A mesma tecnologia que nos preocupa pode também salvar vidas, mas isso todos também sabemos. Usada para o bem, a tecnologia podia de facto ser uma forma de milagre. A mesma ferramenta que pode amplificar desigualdades pode ajudar a resolver problemas que durante décadas desafiaram a ciência. Talvez seja precisamente por isso que não convivo bem com narrativas simplistas. Nem a inteligência artificial nos vai salvar. Nem a inteligência artificial nos vai destruir. Nós faremos isso, seja lá a escolha que fizermos.
A BBC passou para Spielberg e eu volto agora a ele. Curiosamente, no meio de uma abertura de noticiário cheia de guerras, disputas políticas, tecnologia, poder e ansiedade, ele falava de algo muito diferente. Falava de ligação humana, de empatia, da capacidade de nos encontrarmos uns aos outros, para descrever a mensagem levada ao grande ecrã, mais um clássico. O seu filme pode olhar para os céus e para a possibilidade de vida para além da Terra, mas aquilo que ele dizia é profundamente terrestre. Falava sobre nós, estas criaturas humanas, absurdas e fascinantes, que somos nós. Ao comentar estas notícias com a Estela, a minha companheira de reflexão aumentada, ela gerou uma observação que me ficou na cabeça e transcrevo:
“Num alinhamento noticioso dominado por guerras, política, poder e inteligência artificial, Spielberg estava a falar exatamente da mesma coisa através de duas lentes completamente diferentes.”
Os extraterrestres e a inteligência artificial colocam-nos perante perguntas aparentemente distintas, é verdade, mas talvez o desafio seja o mesmo. Se um dia encontrarmos vida inteligente para além da Terra, a questão será a nossa capacidade de compreender, dialogar e estabelecer relações. Ora, se continuarmos a desenvolver inteligência artificial, a questão continuará a ser exatamente essa.
Compreender.
Dialogar.
Estabelecer relações.
Empatia.
Confiança.
Responsabilidade.
Talvez seja por isso que o mundo me pareceu tão estranho naquela manhã. Porque ouvimos falar constantemente de inteligência.
Inteligência artificial.
Inteligência militar.
Inteligência estratégica.
Inteligência económica.
Mas cada vez ouvimos menos falar de humanidade. De uma inteligência una, de uma consciência universal de que todos somos parte. E talvez seja precisamente essa ausência que torna o mundo tão alienígena e não a possibilidade de existirem extraterrestres.
É a possibilidade de nos afastarmos lentamente daquilo que nos torna humanos que deve ser a preocupação de todos os dias e de todos os seres que habitam este tempo. Continuo a acreditar, e tantos outros como eu, que o futuro não será decidido pelas máquinas. Relembro que vimos já todos os cenários do que pode acontecer com “extraterrestres”. Temos uma cinemateca vasta de imaginação humana.
É tempo de uma maratona de clássicos. Estejemos preparados para qualquer encontro com inteligências de terceiro grau!
E como sempre, que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




