21 de junho de 2026
Nas últimas semanas tenho escrito sobre a inteligência artificial sobretudo na sua dimensão ética, seguindo os alertas lançados pelo Papa. Quando advertiu para os riscos de uma tecnologia desligada da dignidade humana, muitos leram a sua mensagem apenas no plano moral. Mas os acontecimentos recentes mostram que a questão já não é apenas ética ou económica. É também uma questão de poder.
Artigo Exclusivo para subscritores
Hoje, perante a crescente disputa geopolítica em torno da inteligência artificial, percebemos que quem controla a tecnologia pode também condicionar a liberdade dos outros. O acesso aos modelos mais avançados, à capacidade computacional, aos semicondutores e às infraestruturas digitais tornou-se um instrumento de influência estratégica. A soberania do século XXI mede-se cada vez menos em quilómetros quadrados e cada vez mais em algoritmos, dados e capacidade computacional.
Foi neste contexto que acompanhei as imagens do G7. Donald Trump chegou atrasado e, ao entrar na sala, comentou em tom jocoso: “I’m the Boss”. Não houve propriamente gargalhadas. O ambiente parecia antes o de quem já conhece demasiado bem o guião. Emmanuel Macron, anfitrião do encontro, esforçava-se por manter a compostura diplomática, mas o seu sorriso parecia mais cansado do que cúmplice.
Veio-me então à memória um velho ditado português: “a rir, a rir, vão-se dizendo as verdades”.
Porque talvez a frase não tenha sido apenas uma brincadeira.
Mais tarde, Trump seria recebido por Macron num jantar em Versalhes. O simbolismo é difícil de ignorar. O palácio que encarnou o poder absoluto da monarquia francesa acolhia um Presidente americano que cultiva deliberadamente uma imagem de homem forte e personaliza o exercício do poder até limites inéditos na política contemporânea.
Ao mesmo tempo, enquanto os líderes discutiam comércio, segurança e inteligência artificial, tornava-se evidente uma realidade incómoda: a Europa continua profundamente dependente da tecnologia americana. Dos modelos de inteligência artificial às infraestruturas cloud, passando pelos semicondutores e pela capacidade computacional, a autonomia estratégica europeia continua largamente dependente de decisões tomadas em Washington ou na Califórnia.
Durante muito tempo falámos de soberania tecnológica como uma abstração, uma ambição política distante ou um conceito académico reservado a especialistas. Esta semana deixou de o ser. Quando uma empresa privada, na sequência de orientações governamentais, pode limitar ou suspender o acesso a tecnologias fundamentais para investigadores, empresas, universidades ou governos estrangeiros, percebemos que a questão já não é apenas quem inova mais depressa. Estamos perante uma questão política e civilizacional, porque aquilo que está verdadeiramente em causa é a capacidade das democracias preservarem a sua autonomia num mundo cada vez mais organizado em torno do poder tecnológico.
A questão deixa então de ser apenas quem desenvolve a inteligência artificial. A verdadeira questão passa a ser quem pode desligar quem. E, nesse contexto, a frase “I’m the Boss” ganha uma dimensão muito menos humorística. Terá sido apenas uma provocação ou uma descrição bastante rigorosa da atual distribuição global do poder?!
Do líder da máfia americana à primogénita da casa Branca, que toda a boa máfia é negócio de famila, continuam a multiplicar-se notícias e protestos relacionados com investimentos internacionais lnomeadamente na Albânia. Tudo isto contribui para uma crescente sensação de sobreposição entre negócios, influência internacional, relações pessoais e exercício do poder. Um desespero ver isto tudo confesso, em total impunidade …
É aqui que reside uma das grandes questões do nosso tempo. Quando o poder político, económico, tecnológico e financeiro se concentra nas mesmas redes de influência, as democracias não devem apenas perguntar quem manda. Devem perguntar quem fiscaliza quem manda. A resposta é um big, fat , NINGUÉM.
Volto aos alertas do Papa que ganham renovada atualidade, sobre inteligência artificial e quem define os seus fins, quem beneficia dela e quem fica para trás. Uma sociedade pode produzir os algoritmos mais sofisticados do mundo e, ainda assim, perder de vista os princípios que sustentam a liberdade, a dignidade humana e a democracia.
Trump entrou atrasado e disse, a brincar, que era o chefe. Talvez a pergunta que a Europa ( e o mundo) deva fazer a si própria seja : se não investir seriamente na sua soberania tecnológica, na sua defesa, quem mandará afinal amanhã?
Porque, a rir, a rir, já nos deram a resposta. Mas quem ri por último ri melhor e não se esqueçam que só mandam em nós enquanto deixamos.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




