Esta sexta-feira foi um resumo perfeito do estado das coisas. Do lado mais sombrio, vi mais um desfile de desgraça humana, amplamente exposta nas redes sociais, transformada em entretenimento e partilhada sem pudor. Do lado do absurdo, o eterno South Park continua a caricaturar o ridículo da nossa estupidez colectiva com uma precisão desconcertante. E, no meio, a notícia do fim de alguns think tanks que, ironicamente, são exatamente o que mais precisamos hoje: lugares onde ainda se pense. Onde ainda se pense bem. Com método. Com tempo. Com coragem.
Nesta mesma semana, o Reino Unido, a França e a Alemanha vieram finalmente pedir o fim da destruição em Gaza. Uma posição que, embora à superfície pareça sensata, chega tarde e coberta de silêncio acumulado. Quando já não há escombros por destruir, dizer que é preciso parar é apenas uma forma diplomática de lavar as mãos. Esta declaração, apresentada como tomada de consciência, é afinal um Pôncio Pilatos pós-moderno. Ninguém se redime com palavras bonitas quando o sangue já secou nas paredes. A vergonha é coletiva, e a omissão prolongada não será resgatada por um comunicado de imprensa.
Outro sinal dos tempos chegou este “chega “ aos think tanks , do governo norte-americanos que, diante da polarização e da fragilidade institucional, preferem abandonar o debate público do que continuar a pensar em voz alta. Ao mesmo tempo, do outro lado da moeda, os que ousam pensar em voz alta com humor, como os criadores de South Park, voltaram a ser atacados por retratar, sem filtros, a figura de Trump num episódio recente que deixou meio país em cólicas de indignação. A isto somou-se o anúncio do cancelamento de Stephen Colbert, e o rugido de regozijo que se seguiu na conta de Trump no X (antigo Twitter) foi tão ensurdecedor quanto previsível. Os humoristas, como venho dizendo há muito, continuam a ser os verdadeiros canários nas minas da democracia. Quando os espaços de pensamento se fecham e os palcos do riso se calam, o que sobra é só o eco de uma sociedade que prefere não pensar, nem rir .
Por terras lusas, esta semana, em viagem de carro entre Bragança e o Porto vinha a reparar na paisagem das autárquicas. Os cartazes ! E a esmagadora maioria era do partido que está em todo o lado . Não como ideia, mas como marca. Uma marca com orçamento, com estratégia e com tempo de antena visual. A política já não se faz apenas de programas e convicções. Faz-se de visibilidade e narrativa. Influencers, slogans, segmentação de públicos. Os partidos que ainda vivem na lógica tradicional não estão apenas desfasados do esforço que se exige na comunicação dos dias que correm . Eu trazia malta das campanhas americanas para o contra-ataque , que estão habituados ao “show off “… “just saying “ .
E diante de tudo isto … e mesmo por isso, volto sempre aos livros. Os físicos. Os que se tocam, se cheiram, se sublinham a lápis. Tenho, confesso, uma paixão antiga, talvez patológica. Pertencerei à espécie dos livrólogos, aqueles que compram livros por impulso, por sede, por ansiedade de saber, mesmo quando não têm tempo para os ler. Mas acredito que neles habita uma forma de salvação. Não nos vão salvar de tudo, mas podem salvar o essencial: a capacidade de pensar com profundidade, de articular ideias, de fazer perguntas difíceis e de suportar o silêncio entre uma frase e outra.
Bauman dizia que vivemos tempos líquidos. Hoje arrisco ir mais longe. Entrámos em tempos gasosos. Já não fluímos com consistência. Evaporamo-nos. As ideias dissipam-se no instante em que são ditas. As opiniões explodem como bolhas, depois somem-se no ar. A política tornou-se marketing. A presença, um algoritmo. A memória, uma notificação que se apaga.
No meio deste cenário gasoso, onde quase nada permanece, os livros mantêm-se. Como âncoras. Como fósseis de um tempo onde pensar era um acto público e partilhado. Talvez sejam, afinal, a forma mais discreta de resistência. Ler continua a ser um gesto político. Comprar livros, sublinhá-los, partilhá-los. Discuti-los com os filhos. Passá-los adiante.
Fecho por isso, esta crónica, com uma nota que também é um convite à lucidez. A sugestão de leitura desta semana surgiu através da Blinkist Magazine, onde li o artigo publicado a 21 de julho de 2025, que dá conta das recomendações do psicólogo e Prémio Nobel da Economia Daniel Kahneman. Conhecido mundialmente pela obra Thinking, Fast and Slow, Kahneman destacou cinco livros que ajudam a compreender melhor como pensamos, decidimos e nos enganamos. A lista inclui o já referido Thinking, Fast and Slow, o mais recente Noise, escrito em coautoria com Olivier Sibony e Cass Sunstein, Judgment Under Uncertainty, em parceria com Amos Tversky, e ainda dois volumes complementares da série The Great Mental Models, de Shane Parrish e Rhiannon Beaubien. Numa era de opiniões instantâneas e certezas fabricadas, estas leituras são âncoras intelectuais … são ferramentas para não nos deixarmos dissolver por este tempo gasoso em que tudo parece escapar-se e escapar-nos.
Que esta crónica vos inspire ou vos provoque.Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
Fontes de referência desta crónica: notícias publicadas na SIC Notícias e no portal europeu Politico.eu; seleção de leituras sugeridas pela aplicação Blinkist.
Por Marisa Monteiro Borsboom




