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Sem Correntes – Do querer e de quem quer afinal!?

Destaques

19 outubro 2025

Fonte: Observador

Continuamos a alegar o “querer” e a liberdade de quem a tem. A defesa do indefensável. A defesa da liberdade de uma religião que oprime.

Quero bem a todas estas mulheres, mas não posso deixar de defender com unhas e dentes a sociedade que tentou libertar as suas. Não é apenas sobre a burca, é sobre tudo o que implica uma religião que, levada ao extremo, nos extermina a capacidade de sermos livres.

Bill Maher chamou-lhe o verdadeiro apartheid do nosso tempo, o de género. Onde, em tantos países, as mulheres simplesmente não são livres. Respeito todas as crenças, mas como pensadora não posso negar que sonho com um mundo de mulheres livres. Ponto.

Penso sempre como humanos treinam animais … sabiam que um elefante é treinado por condicionamento, acorrentado desde pequeno , achando que não tem a força que teria em adulto para quebrar as correntes que o aprisionam? 

Nós, humanos, também crescemos com correntes, condicionados por políticas, religiões , laços  emocionais. Regimes, dogmas e relações que moldam o medo e perpetuam a servidão.

Mas não devemos atacar as mulheres nem as burcas, devemos atacar as correntes da servidão humana. Atacar a ausência de coragem para pensar sabendo que vamos ser atacados …. Mas não o deixar de fazer . 

Quando os homens muçulmanos colocarem burcas também, talvez eu ache aceitável. Quando deixarem de matar irmãs e filhas por crimes de honra, sem impunidade, então poderei reavaliar a minha posição. E tanto tanto que sabemos todos e que continuamos em nome de “tolerância “ e “respeito “ a tolerar e a aceitar. 

Já nos esquecemos da revolta no Irão ? Mahsa Amini tirou o lenço. Um gesto simples e proibido que incendiou uma revolução. No Irão, milhares de mulheres seguem-lhe o exemplo e enfrentam a prisão, a violência, até a morte, apenas por quererem mostrar o cabelo, o rosto, o ser. Mahsa e todas as que se ergueram depois dela lembram-nos que a liberdade não se pede, conquista-se. E que cada vez que uma mulher ergue a cabeça, o mundo inteiro dá um pequeno passo para fora das suas próprias correntes. Não vou sequer falar das mulheres invisíveis do Afeganistão porque afinal, é tudo em nome de uma religião ! 

Mas até estas mulheres serem de facto livres , não me permitirei a hipocrisia de defender o uso deste símbolo que, como disse a ativista afegã Yasmin Alibhai-Brown, “não é um pedaço de tecido, é uma prisão portátil”.

E neste mesmo tempo em que o país discute a liberdade das mulheres, assistimos também a um raro momento de elevação política. O novo presidente da Câmara do Porto, no seu discurso de vitória, mostrou que é possível vencer sem humilhar, discordar com respeito e reconhecer valor num adversário. O seu tom sereno e consciente contrasta com o ruído a que nos habituámos , esse discurso de purga e de fúria travestida de “nova política”, que afinal de novo pouco tem. O resultado destas eleições é também um sinal de que as pessoas começam a cansar-se dos bullies da política, dessa teatralização constante da agressividade e da vaidade. Talvez estejamos, finalmente, a reencontrar a decência do diálogo e a coragem do respeito.

Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro  concordância, mas romper as correntes da apatia.

Declaração de responsabilidade: Todas as opiniões e reflexões expressas nos textos, entrevistas ou publicações da autora são estritamente pessoais. Não devem ser entendidas como representando posições oficiais de qualquer organização, empresa ou instituição com as quais mantenha ligação profissional ou institucional. Embora desempenhe diversos cargos de liderança, consultoria e direção, as suas reflexões pessoais permanecem independentes e não devem ser atribuídas a essas entidades.

Por Marisa Monteiro Borsboom

Marisa Borsboom / Correspondente no BENELUX
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