5 de julho de 2026
Escrevo este texto a 4 de julho. Será publicado amanhã, precisamente quando a América celebra os 250 anos de uma nação.
Artigo Exclusivo para subscritores
Duzentos e cinquenta anos depois da Declaração de Independência de 1776, os Estados Unidos continuam a ser uma das experiências políticas, culturais e humanas mais influentes da história moderna. Uma nação que inspirou o mundo, uma nação que nos fez sonhar, uma nação que nos deu o Super-Homem, o Capitão América e praticamente todos os grandes mitos contemporâneos que hoje habitam a cultura popular.
A verdade é que os super-heróis se tornaram, para a modernidade, aquilo que os deuses do Olimpo foram para os antigos. Sabíamos que não eram reais, mas isso nunca impediu ninguém de se deixar inspirar por eles. Durante décadas, milhões de pessoas cresceram com estas histórias. Eu fui uma delas.
Talvez por isso este aniversário me faça pensar menos em política e mais em mitologia.
Porque os Estados Unidos sempre foram mais do que um país. Foram uma narrativa. Foram a ideia da terra dos livres, do sonho americano, da possibilidade de recomeçar. Uma narrativa imperfeita, muitas vezes contraditória, frequentemente distante da realidade, mas ainda assim poderosa. Tão poderosa que influenciou gerações inteiras dentro e fora das suas fronteiras. A própria Estátua da Liberdade, curiosamente uma mulher, tornou-se um dos grandes símbolos dessa narrativa. Durante décadas iluminou não apenas a entrada de Nova Iorque, mas também o imaginário de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo que viam na América uma promessa de liberdade, prosperidade e futuro. São 250 anos de uma história complexa. De colónia a império. E agora, talvez, a uma nova forma de império.
Um império diferente, construído através da exportação da ideia de liberdade e democracia, mas também impulsionador de guerras e sustentado pela maior indústria de armamento do planeta. Um país capaz de produzir simultaneamente os maiores símbolos de esperança e algumas das maiores contradições da história contemporânea. E é impossível ignorar que, desde o presidente número 45, assistimos ao início de uma fase de erosão que parece ter deixado de ser episódica para se tornar estrutural. Naturalmente, cada leitor fará a sua própria leitura política destes anos. Mas é difícil ignorar a polarização extrema, a degradação do debate público e a transformação da imagem internacional americana.
Essa mudança tornou-se tão evidente que esta semana, numa simples interação com um banco holandês, me perguntaram se eu era holandesa, americana ou se tinha ligações aos Estados Unidos.A pergunta era meramente burocrática, mas deixou-me a pensar. Durante décadas, ter uma ligação à América era visto quase exclusivamente como um privilégio. Hoje é, antes de mais, uma questão regulatória. Para quem tem a minha idade, este é um mundo extraordinário. Nunca teria imaginado que a América viesse a ocupar a posição que ocupa hoje. Passou, aos olhos de muitos, de super-herói a supervilão. E existe um certo luto associado a essa transformação.
Mesmo sabendo que parte da narrativa nunca correspondeu totalmente à realidade, a verdade é que Hollywood inspirou-nos. A Estátua da Liberdade inspirou-nos. A ideia da terra dos livres inspirou-nos, naquilo a que chamámos sonho americano, e que era só o sonho humano, porque todos querem ser livres.
Talvez seja precisamente isso que muitos americanos nunca compreenderam. Esse sonho não lhes pertencia. Nem sequer nasceu exclusivamente ali. Os próprios Estados Unidos são o resultado de sucessivas vagas de pessoas vindas de todas as partes do mundo para construir aquilo que hoje chamamos América. Sem esquecer a população nativa, que sofreu séculos de violência, deslocação forçada, destruição cultural e um colapso demográfico de dimensão histórica.É uma história complexa, mas toda a história o é.
Quando comparada com a longa história europeia, marcada por séculos de guerras, trata-se de uma democracia muito jovem e de uma nação igualmente jovem. Ainda é um império singular, mesmo em queda é o império que conhecemos hoje. E agora que assistimos ao início de uma transformação cujo resultado ninguém conhece, resta ir vendo a longo queda até que só restem memórias e outros tomem o seu lugar.
Por agora estamos apenas a viver os acontecimentos que os nossos netos encontrarão nos livros da história do mundo.
Enquanto isso, as tragédias continuam.
Os fortes terramotos que atingiram a Venezuela deixaram um rasto de destruição difícil de ignorar. As guerras persistem. A fome continua a marcar a vida de milhões de pessoas. A falta de dignidade e de liberdade permanece uma realidade para demasiados seres humanos. Nós, aqui na Europa, mesmo os mais pobres, temos acesso a condições que grande parte da humanidade não possui. Vivemos, efetivamente, num dos cantos mais privilegiados do planeta e por isso a nos cabe ir pensando e agendo além da mera sobrevivência que ao outros ocupa toda a sua existência.
Duas notas finais.
A primeira prende-se com o novo Papa e com o regresso da questão das excomunhões ao debate público. Compreendo as razões institucionais que sustentam determinadas decisões e percebo a necessidade de preservar a unidade da Igreja. Mas a palavra “excomunhão” continua a soar estranha no século XXI.
Talvez porque, no fundo, nos recorde que também as instituições religiosas continuam a ser conduzidas por simples mortais. Homens que ocupam lugares de enorme responsabilidade, mas que continuam sujeitos às limitações, virtudes e fragilidades da condição humana. Independentemente das circunstâncias concretas de cada caso, a ideia de excluir alguém da comunidade parece pertencer mais ao vocabulário de outras épocas do que ao espírito de diálogo que tantas vezes procuramos defender nos dias de hoje. Talvez seja uma prática que mereça ser revisitada. Mas que fique claro que acho que a malta que quer missas em latim e tudo o resto que defendem são dos quer trariam mais depressa as fogueiras, não são de seguir, que fique claro.
A segunda é um momento de alegria nacional.
Eu, que tenho uma família luso-holandesa, vi a Holanda despedir-se do Campeonato do Mundo, o que certamente ajuda a manter a paz doméstica deste lado da fronteira. Mas fica a alegria de Portugal continuar em competição e a alimentar a esperança de milhões de portugueses.
Claro que há um paradoxo curioso no futebol: quanto mais avançamos, maior é a expectativa. E quanto maior é a expectativa, maior poderá ser a desilusão.
Mas, por agora, fiquemo-nos pela alegria.
Talvez os deuses nunca tenham desaparecido completamente. Apenas mudaram de forma ao longo dos séculos. Primeiro foram os deuses do Olimpo. Depois os heróis das epopeias. Mais tarde os super-heróis das bandas desenhadas e do cinema. Hoje encontramos essa mesma necessidade humana nos futebolistas, nos atletas, nos artistas, nos exploradores, nos cientistas e em tantas figuras sobre as quais continuamos a projetar esperança, admiração e inspiração.
Talvez porque os seres humanos precisem sempre de acreditar em algo maior do que eles próprios.
Talvez porque, mesmo no tempo dos simples mortais, continuamos a precisar dos nossos heróis.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




