Do 25 de Abril, do fim do medo?
26 de abril de 2026
Foi ao ver uma frase de Helena Roseta que me inspirei para esta coluna. No podcast “Geração 40” do Expresso, disse:
Artigo Exclusivo para subscritores
“Era contra a guerra e contra toda a opressão, contra ter medo de estar a falar na rua e alguém nos ouvir, medo que nos escutassem o telefone, olhar para trás e suspeitar que era a PIDE. Havia medos constantes e de repente deixa de haver. O 25 de Abril foi absolutamente extraordinário.” Extraordinário. Essa palavra ficou comigo. Neste texto vou ignorar as lições de português e vou usar de repetição desta data em abundância .
Porque eu sou filha desse extraordinário. Eu sou da geração que está nos 40. Nasci em liberdade, nascemos sem realmente entender o tesouro que nos foi dado. E, durante anos, vivi com ela como se fosse uma herança garantida, inabalável, permanente. Creio que estávamos todos convencidos desse futuro seguro. Será que vamos conseguir passar esse baú de valor incalculável aos nossos filhos?
Ao longo do percurso da minha vida, tenho visto essa liberdade ser perdida. Não de uma vez. Não com estrondo, com uma bomba a cair, como imaginava em criança depois de ver as ameaças do apocalipse atómico a passar na televisão. Esse terror dançava nos meus pensamentos e estava presente nas preces da minha avó, que no final do terço começava uma linha longa de preces, que incluía sempre “para que acabem as guerras… Pai Nosso, que estais no céu!”Esta perda da liberdade tem sido um longo e, tantas vezes, silencioso calvário. Chegou com a normalidade das coisas que se aceitam sem se nomear, sem contestar, sem se ter a noção de que é já de luta que se trata.Começou com o mundo das redes sociais. Um mundo onde dizer o que pensamos se tornou, em si, um perigo. A PIDE deu lugar a uma massa anónima, sem rosto, sem responsabilidade, mas com um poder real de destruição. A reputação de qualquer pessoa pode ser demolida hoje com mentiras, com trolls, com estruturas organizadas que enchem a internet de falsidades. Não é paranoia. É o que se passa. Está à vista de quem quer ver. Depois veio o tempo do politicamente correto.
Um tempo em que ter opiniões pessoais, questionar a narrativa dominante, discordar com fundamento, passou a ser prenúncio de aniquilação social. Não física. Não com prisão ou exílio. Mas com o silêncio forçado de quem percebe que o preço de falar é demasiado alto. Ficará nos livros de história como o tempo dos cancelamentos.
É assim que o medo renasceu. Olhando para trás, o fim do medo foi, afinal, curto. Talvez como um cravo… magnífico, mas que murcha tão rápido. E foi em tudo isto que pensei profundamente esta semana, em que estive em Portugal, em palco, como oradora num evento, numa sala dourada cheia “da Justiça”. Falei com a maior coragem que consegui reunir. Recebi palavras de apoio, no final, de muitos que se deslocaram a mim para me dizer, em quase surdina, como era preciso ser dito o que foi. Disseram-me que era uma mulher de coragem… mas não sou. Ah, se fosse, o que eu teria dito!
A verdade é mais dura, muito mais dura. E há outra verdade, que quero deixar aos que achem bem seguir o meu exemplo, principalmente os mais jovens. Não lhes quero mentir nem ser razão do seu desconforto, se de conforto forem as suas aspirações. Pois a verdade é que não são pessoas como eu que chegam a cargos ditos de liderança, e que raramente são mais do que cargos de poder. São exatamente as pessoas opostas. As que dizem o que os outros querem ouvir. As que perguntam à inteligência artificial o que devem pensar, o que devem dizer, o que devem até vestir, para agradar. E são aplaudidas por isso. É também assim que seguram as cadeiras a que se agarram com unhas e dentes. Porque, para eles, não é o que dão, o que deixam, mas o que levam para si que conta. E nem de propósito, no dia seguinte, vejo um outro palco. Lá, um Almirante usou a mesma metáfora que eu tinha usado no dia anterior. Quais as probabilidades?! Ao ouvi-lo, goste-se ou não do que diz, reconheci algo: coragem pura de quem tem visão, integridade e capacidade real de luta. Dos que dariam a vida para defender a liberdade dos outros.
A coragem de dizer o que se sabe ser verdade é um desmancha-prazeres tão vital para manter a liberdade como o ar que respiramos para nos manter vivos. Não são meras opiniões de circunstância, mas certezas do que se sabe porque se viveu, porque não se está disposto a compactuar com discursos politicamente inteligentes que mantêm tudo exatamente como não deve estar. Discursos que sustentam uma aparente verdade e impedem o verdadeiro desenvolvimento humano, da justiça, do Estado, de Portugal, do mundo. Deixei-o com as minhas palavras de apreço fraterno e vi-lhe nos olhos um brilho de verdadeiro apreço. Não ficou a foto, porque conscientemente não a quis, mas ficou a memória que o tempo não vai apagar deste encontro de coragens, de sentido de serviço a algo maior.
O 25 de Abril não foi só sobre a liberdade de falar.
Foi sobre a liberdade de lutarmos por um mundo mais justo. Um mundo onde as pessoas não são objetos. Onde não são bonecos conduzidos ao prazer de quem manda. O 25 de Abril das mentes é agora reclamado, por mil e por tantos que sabem que o tempo chegou para os que não poderão ficar em silêncio. Serão precisos os que não escolhem o lugar confortável da primeira fila do poder, mas o lugar desconfortável da verdade. Um lugar que, para muitos, custou a própria vida. Porque sabiam o que estava certo. Porque acreditavam, com ou sem fé religiosa, que nascemos para ser irmãos, para cuidar uns dos outros, para praticar a bondade.
Algo que não está hoje nas agendas globais de quem ocupa cargos de poder.Mas somos nós. Somos todos nós,com as nossas pequenas vozes, com as nossas vidas, que vamos deixando lastros de esperança. O Almirante disse ter pena de ser um desmancha-prazeres. Mas que alguém tem de fazer esse trabalho, tem. Reconheci-me nessa palavra. Somos nós os desmancha-prazeres. Os que dizem algumas verdades e calam tantas outras, porque, se as dissessem todas, por certo algumas das pessoas nas mesmas salas teriam de sair pela vergonha de serem quem são, do que representam. O caminho da verdade é difícil. Se não fosse, não estaria no livro sagrado como chave de liberdade e fim último dos filhos de Cristo. Esta luta custará sempre mais do que muitos estão dispostos a pagar, mas é esta a verdadeira luta de hoje e de sempre. A luta continua, 25 de Abril, hoje e sempre. Somos filhos da liberdade. E não podemos perdê-la, e só a conquistamos em verdade.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância. Procuro romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




