17 de maio de 2026
Esta semana quero falar daquilo que me preocupou logo no primeiro instinto, antes sequer de ler ou ouvir tudo o que foi dito sobre a visita do presidente americano à China.
Artigo Exclusivo para subscritores
Há um sentimento de grande desconforto em ver estes dois grandes líderes juntos. Se por um lado ninguém quer um conflito entre estas duas grandes potências do mundo, por outro existe algo profundamente inquietante na aproximação entre modelos de poder tão intensos num tempo em que o controlo tecnológico cresce a uma velocidade absurda.
E talvez aquilo que mais me preocupa seja precisamente o fascínio que o modelo chinês de controlo populacional pode exercer sobre líderes de outros países. Vivemos numa era em que tecnologia, vigilância, inteligência artificial e gestão de comportamento humano começam a cruzar-se de formas que há poucos anos pareciam ficção científica.
Aliás, um dos pontos centrais das negociações entre os dois países continua precisamente ligado ao desenvolvimento tecnológico, aos semicondutores, aos chips e à disputa pelo domínio tecnológico do futuro. Porque hoje quem controla tecnologia controla poder.
Mas houve uma imagem que me ficou especialmente na cabeça.
Os dois presidentes passam e há crianças a gritar felizes à sua volta. Mal passam, as crianças param instantaneamente. Jon Stewart, ao comentar a cena, perguntou ironicamente: “As crianças foram desligadas?”
A frase ficou comigo.
Porque é exatamente isso que me preocupa: sociedades onde a espontaneidade humana desaparece lentamente e onde os seres humanos começam a parecer peças programadas dentro de sistemas excessivamente controlados.
Talvez o maior perigo do século XXI seja precisamente a estetização da obediência.
E depois houve outra coisa que me inquietou profundamente esta semana.
Israel celebrou 78 anos desde a sua criação, a 14 de maio. E sendo eu uma defensora clara dos direitos humanos, quero que fique absolutamente claro que não desejo qualquer guerra, qualquer massacre ou qualquer destruição da vida humana, seja de que lado for.
Eu própria considero que o atual governo israelita está errado em muitas, talvez em quase todas, as suas políticas atuais. Mas há uma coisa que me preocupa profundamente: a incapacidade crescente de distinguir governos dos seus povos.
Nenhum povo é uma coisa única. Nenhum país pensa da mesma forma. Existem judeus completamente contra o atual governo israelita. Existem vozes dissidentes em todos os lados. Existem nuances. E talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja precisamente a perda da capacidade de ver nuances.
Eu sou ainda uma criança dos anos 90. Cresci a ver documentários sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre os campos de extermínio, sobre o horror absoluto do que acontece quando se transforma um povo inteiro num alvo coletivo.
E por isso assusta-me profundamente ouvir, cada vez mais frequentemente, discursos de aniquilação de povos inteiros. Não importa de onde vêm. Não importa quem os diz.
Quem fala da aniquilação de povos, sejam eles quais forem, estará sempre do lado errado da História.
Vi uma imagem de um programa onde Bill Maher, esta semana , onde fala precisamente deste crescimento assustador de discursos de ódio e destruição dirigidos ao Estado de Israel. E independentemente das posições políticas que cada um tenha sobre o conflito, há uma linha que nunca pode ser ultrapassada: a desumanização coletiva. Como todos devemos lutar pare que acabe a desumanização e a opressão da Palestina, também que fique bem claro.
Quando deixamos de distinguir líderes de pessoas comuns, governos de cidadãos, políticas de vidas humanas, começamos a entrar em territórios perigosíssimos.
Talvez o grande desafio da humanidade seja precisamente este: recuperar uma certa redenção humana. Mantermo-nos atentos. Ler. Procurar. Saber o máximo possível. Não sermos vítimas fáceis da manipulação mediática, da manipulação ideológica e dos extremismos emocionais.
E acima de tudo manter uma coisa simples: compaixão no coração e nos nossos atos ( nas ações e omissões ).
Devemos apelar à paz. Devemos recusar discursos de destruição de populações. Devemos lembrar-nos de que, em qualquer guerra, quem mais sofre são quase sempre as pessoas comuns. Pessoas como nós! A separação é a grande ilusão de todas.
No momento em que aceitamos a ideia da aniquilação de povos perdemos o que nos salve , a nossa própria humanidade.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




