1 novembro 2025
Esta semana participei num festival de impacto que celebrava dez anos de existência. Um momento de celebração, sim, mas também de introspeção. Porque, entre os painéis e as conversas, havia um tema que pairava no ar com o peso de um suspiro coletivo: as pessoas estão cansadas.
Cansadas do ritmo que o digital impôs a todos nós. Cansadas da aceleração constante. Cansadas da exigência de estar sempre ligadas.
Falava-se, claro, de inteligência artificial, esse novo espelho onde procuramos respostas, mas onde tantas vezes nos perdemos. E percebi que a exaustão digital é apenas o sintoma mais visível de algo mais profundo: uma humanidade que se robotizou sem dar por isso. Não é uma ideia nova. Já Byung-Chul Han escreveu sobre a Sociedade do Cansaço. Mas talvez estejamos a entrar numa nova era, a das pessoas-robô ou pessoas-máquina.
Pessoas levadas ao limite da exaustão pela necessidade de interação constante: mensagens, e-mails, notificações, redes sociais, WhatsApp. A cada toque, uma distração. A cada distração, um pedaço de presença que se perde.
Falava hoje com uma grande amiga que me dizia: “Nunca me senti assim.”
E percebi que ela não falava apenas de cansaço. Falava da sensação de estar a perder o ritmo humano da vida. Estamos sedentos de relações humanas. Famintos de conversas verdadeiras. E ao mesmo tempo, incapazes de as sustentar por muito tempo sem olhar para o ecrã.
Hoje é sexta-feira, o dia em que, lá em casa, comemos pizza e nos permitimos relaxar. Mas pedi uma coisa simples:
“Sem telemóveis. Sem jogos. Só nós.”
Porque o cansaço também é isso, o reflexo de um tempo em que desligamos, mas não nos reconectamos.
E acredito cada vez mais que vamos precisar de criar espaços só para pessoas. Lugares onde a presença humana seja o único acesso permitido. Onde possamos restabelecer a arte da conversa, aquela sem guião, sem filtros, sem urgência.A conversa onde o humano volta a ser humano. Tudo o que estamos a viver é demasiado novo. É urgente parar para pensar, para sentir, para nos reconhecermos.
E é isso que decidi fazer esta semana: nenhuma notícia, nenhum mundo. Apenas reflexões. As minhas e as dos humanos com quem cruzei caminhos. Percebi que, mesmo exaustos, as pessoas ainda querem ajudar. Que há uma sede de propósito, uma vontade de cuidar. E talvez seja esse o antídoto para a exaustão: ajudar os outros como forma de nos ajudarmos a nós mesmos.
Porque o digital não pode ocupar tudo. Porque a liberdade humana começa no direito ao analógico. E talvez este seja o verdadeiro impacto a celebrar: redescobrir que a presença é o novo luxo e que a alma precisa de repousar fora da rede.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




