24 de maio de 2026
“The jobs apocalypse” (“O apocalipse dos empregos”), dizia a capa da The Economist de 16 de maio.
Artigo Exclusivo para subscritores
Mas será mesmo um Apocalipse no mercado de trabalho? Ou apenas mais uma gigantesca manobra comercial baseada no medo e na ansiedade coletiva?Esta semana quero falar da última revista que comprei no aeroporto, a caminho de Copenhaga, onde me desloquei como oradora convidada do HIMSS, um evento onde fiquei feliz por ver fim delegação portuguesa com representantes de vários hospitais, start ups , e outras organizações na área da saúde .
Foi precisamente essa capa brutal, que me saltou aos olhos e tive de a comprar, naturalmente.
Uma imagem desenhada para isso mesmo, agarrar a atenção . Um enorme buraco negro no centro da capa parecia sugar pessoas diretamente para dentro dele. Pequenas figuras humanas caíam sem controlo, como trabalhadores engolidos por uma força invisível e inevitável. À volta, um cenário escuro, quase cósmico, transmitia a sensação de colapso, vertigem e impotência perante algo muito maior do que nós.
Visualmente, a capa parecia misturar ficção científica com ansiedade económica. Não era apenas uma capa sobre emprego. Era quase uma representação gráfica de um medo coletivo: o receio de que a inteligência artificial e a automação estejam a abrir um vazio debaixo dos pés de milhões de pessoas.
E talvez tenha sido precisamente isso que me fez parar no aeroporto e pegar naquela revista. Porque percebi imediatamente que aquela imagem não vendia apenas informação.
Vendia emoção. Vendia inquietação. Vendia medo, por certo. E sabemos bem que hoje o medo continua a ser um dos produtos mais rentáveis do mundo.
Mas foi depois, ao folhear as restantes páginas, que percebi que aquela revista era quase um retrato clínico do estado do mundo.
Política fragmentada. Economias sob pressão. Tensões energéticas. Medo tecnológico. Polarização. Guerra. Instabilidade social. Ansiedade coletiva. E no meio disto tudo, uma pergunta silenciosa: estaremos preparados para aquilo que aí vem?
A verdade é que talvez isto não seja exatamente um apocalipse. A humanidade já sobreviveu a grandes revoluções industriais e tecnológicas antes. O problema nunca foi apenas a tecnologia. O problema foi sempre a velocidade da mudança e a capacidade, ou incapacidade, das sociedades se adaptarem sem deixarem milhões de pessoas para trás.
E desta vez, tudo parece acontecer à velocidade da luz.
A inteligência artificial deixou de ser um tema futurista. Já entrou nas empresas, nos governos, nas universidades, na saúde, na justiça, na segurança e até na criatividade humana. E talvez aquilo que mais me preocupa seja precisamente essa velocidade. A humanidade nunca viveu uma transformação tão profunda, tão rápida e tão global ao mesmo tempo. E no entanto, continuamos muitas vezes distraídos.
Distraídos com guerras culturais permanentes. Distraídos com tribalismos políticos. Distraídos com pequenos escândalos de ciclo rápido enquanto mudanças gigantescas acontecem silenciosamente debaixo dos nossos pés.
Uma das reportagens da revista falava precisamente da necessidade de preparar redes de segurança para milhões de trabalhadores que poderão perder relevância económica com a automação e a inteligência artificial. Na verdade esta discussão já não é ficção científica. Está a acontecer agora mesmo debaixo do nosso nariz !
O problema é que continuamos presos a modelos educativos, sociais e políticos desenhados para um século que já acabou.
Outra página falava da inflação, da pressão energética e dos mercados globais. Outra sobre conflitos internacionais. Outra sobre crescimento de tensões sociais. E no meio de tudo isto, houve também uma reportagem que me tocou particularmente: uma análise científica sobre mulheres que não conseguem produzir leite suficiente para amamentar.
E talvez alguém pergunte: o que tem isto a ver com o resto?
Tem tudo.
Porque no meio de inteligência artificial, geopolítica, guerra e economia, aquela página lembrava uma coisa profundamente importante: continuamos humanos. Continuamos frágeis. Continuamos dependentes do corpo, da biologia, do cuidado e da vulnerabilidade.
Talvez o maior erro do nosso tempo seja acreditar que evolução tecnológica significa automaticamente evolução humana.
Não significa!
Podemos criar máquinas extraordinárias e continuar emocionalmente perdidos. Podemos desenvolver inteligência artificial e ao mesmo tempo perder empatia, capacidade crítica e sentido comunitário. Talvez seja precisamente isso que mais me inquieta: a possibilidade de nos tornarmos tecnologicamente avançados e humanamente empobrecidos.
Vivemos numa era de excesso de informação e défice de reflexão.
As pessoas já quase não têm tempo para pensar profundamente sobre nada. Tudo é rápido. Tudo é imediato. Tudo é substituível. No entanto, o futuro que estamos a construir exigirá precisamente o contrário: consciência, literacia, capacidade crítica, adaptabilidade e, acima de tudo, humanidade.
Talvez o grande desafio do século XXI não seja competir com máquinas.Talvez seja impedir que nos tornemos iguais a elas.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
Declaração de responsabilidade: Todas as opiniões e reflexões expressas nos textos, entrevistas ou publicações da autora são estritamente pessoais. Não devem ser entendidas como representando posições oficiais de qualquer organização, empresa ou instituição com as quais mantenha ligação profissional ou institucional. Embora desempenhe diversos cargos de liderança, consultoria e direção, as suas reflexões pessoais permanecem independentes e não devem ser atribuídas a essas entidades.
Por Marisa Monteiro Borsboom




