3 de maio de 2026
No meio de tantas coisas que vemos todos os dias, e das muitas mais que não conseguimos ver, uma notícia chamou a minha atenção.
Falava do chamado “Silicon Valley chinês”, desenvolvido entre Macau e a ilha de Hengqin, e do interesse em atrair startups portuguesas para um mercado de 1,4 mil milhões de consumidores.
E dei por mim a pensar: que mensagem estamos exatamente a passar às startups portuguesas?
O dinheiro corre, avança e chama os que o seguem com “olhos doces”. “Vem por aqui”, dizem. Mas e a liberdade?
Artigo Exclusivo para subscritores
Qual é o retorno do investimento da liberdade?
Enquanto advogada, não consigo deixar de olhar para isto também dessa perspetiva.
Fala-se muito das oportunidades gigantescas do mercado chinês, da escala, do investimento, da tecnologia e da velocidade de crescimento. Mas fala-se pouco do risco brutal de trabalhar num país onde o governo faz o que quer, quando quer, porque tem poder absoluto e incontestado para isso.
Não bastassem as limitações à circulação de informação, o controlo estatal massivo leva a uma dependência absoluta da vontade do poder político para se fazerem “negócios”.
Não viram as notícias de milionários chineses que tiveram “má sorte”, mesmo com tanto e tanto capital?!
E enquanto advogada, há uma questão de que quase ninguém fala com a seriedade necessária: que proteção jurídica real terão estas startups quando surgirem conflitos legais? Porque uma coisa é investir num mercado gigantesco, outra é depender de um sistema judicial profundamente condicionado pelo poder político.
Na China, os tribunais não funcionam dentro da lógica ocidental de separação plena de poderes e independência judicial. O Partido Comunista mantém influência estrutural sobre o sistema e, em matérias consideradas sensíveis ou estratégicas, o interesse político pode sobrepor-se facilmente ao interesse económico ou contratual. Já não nos basta ver estes mesmos sistemas ocidentais serem atacada a olhos vistos, como sabemos, na terra dos bravos e dos livres.
Logo, para empresas estrangeiras, investir em sistemas com tamanha diferença de sistemas jurídicos, significa viver com um nível de imprevisibilidade jurídica que não podem ser descorados. Quando surgem litígios sérios, propriedade intelectual, conflitos comerciais ou disputas regulatórias, a verdadeira pergunta é simples: quem decide realmente? A lei ou o poder?
Porque é exatamente aí que percebemos a diferença entre riqueza e liberdade. O dinheiro pode comprar influência, conforto e dimensão. Mas num sistema onde o poder político não conhece limites reais, até os mais ricos vivem dependentes da tolerância do regime.
E talvez seja isso que mais me inquieta em toda esta conversa entusiasmada sobre oportunidades económicas: a facilidade com que esquecemos que o verdadeiro investimento seguro continua a ser o Estado de direito.
Vivemos um tempo estranho, onde muitos defendem critérios éticos e democráticos para umas situações, mas suspendem-nos rapidamente quando entram em cena mercados gigantescos e oportunidades económicas.
Isto não significa negar a realidade: a China tornou-se uma potência tecnológica, industrial e económica impossível de ignorar. Enquanto muitos países europeus continuam presos à lentidão burocrática, a China planeia a décadas, constrói infraestruturas gigantescas e move-se com uma velocidade impressionante.
Mas talvez o mais perigoso seja precisamente o fascínio cego pela eficiência.
Porque a história mostra-nos que prosperidade sem liberdade pode rapidamente transformar-se em dependência. E dependência económica acaba quase sempre por gerar dependência política.
No meio disto tudo, pergunto-me também o que estamos a ensinar aos mais novos. Que o importante é crescer rapidamente, captar investimento e entrar em mercados gigantes, mesmo que isso implique fechar os olhos ao tipo de sistema onde se entra?Talvez o problema do nosso tempo seja exatamente este: confundimos demasiadas vezes sucesso económico com progresso civilizacional.
E não são obrigatoriamente a mesma coisa. As economias moldam sociedades. Moldam valores. Moldam até aquilo que as pessoas estão dispostas a tolerar em troca de estabilidade ou prosperidade, de um dado momento na história.
E talvez por isso seja tão importante continuar a discutir estas questões sem medo de parecer “antiqualquercoisa”.
Questionar riscos não é rejeitar progresso. É precisamente tentar impedir que o progresso se transforme numa nova forma de submissão.
O mundo está a mudar rapidamente, numa espiritual quase vertiginosa. A força económica desloca-se, as alianças transformam-se e muitos países europeus, em particular, parecem perdidos entre dependências antigas e novas vulnerabilidades.
No meio desta aceleração toda, talvez ainda valha a pena perguntar: quanto vale a liberdade?
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




