12 de abril de 2026
Mais uma semana intensa. Uma semana marcada pela harpa do louco. Já ninguém se pode esconder a dizer que falamos apenas de excessos ou de retórica. Falamos de ameaças de extermínio de uma civilização, com hora marcada. Falamos da possibilidade, dita em voz alta, sem barreiras, sem medos e claramente sem consequências.
Artigo Exclusivo para subscritores
E talvez isso seja o mais inquietante. Não é apenas o que é dito. É a forma como é dito. A normalidade com que se diz. Como se fosse mais um passo, mais uma opção, mais uma hipótese no tabuleiro. Há uma imagem que me ficou de pequena ,que me assombra, que me vem agora à memória. Um filme, um clássico, um imperador a tocar a sua harpa enquanto tudo ardia. E a imagem de Petronius que nada podia fazer. Estamos assim. São todos Petronius? Ou estamos simplesmente a assistir, à espera que alguém faça alguma coisa?
Não sabemos se vamos cair no abismo. Mas a cair, já estamos.
E talvez seja isso que mais assusta. Não é apenas o caos. É a sensação de que o caos está a ser conduzido, empurrado, testado. Como se houvesse sempre mais um limite para ultrapassar, mais uma linha para apagar. Vivemos dias em que o impensável deixa de o ser no momento em que é dito. E ao ser dito, abre caminho. Normaliza-se. Instala-se. Não sei para onde vamos mas já estamos noutro lugar. Este já não é o mundo que tínhamos. E talvez nem nos tenhamos apercebido bem do momento em que deixámos de o ter.
No meio deste caos, surge um outro alerta, não menos aterrador. Um Nobel da Economia fala do risco de colapso do conhecimento provocado pela inteligência artificial. Como se, ao mesmo tempo que o mundo arde, estivéssemos a perder a capacidade de perceber o que está a acontecer.
E isso muda tudo.
Porque sem conhecimento, sem capacidade crítica, sem referência, não há sequer possibilidade de resistência. Não há sequer linguagem para nomear o que está errado. E talvez estas duas coisas estejam ligadas. Porque um mundo que perde referências, que perde verdade, que perde capacidade crítica, é um mundo mais fácil de conduzir. Mais fácil de empurrar. Mais fácil de manipular sem que se perceba que está a ser manipulado.
E nós?
Assistimos. Reagimos. Comentamos. Mas muitas vezes sem chão. Sem saber exatamente onde estamos. Sem saber se estamos a exagerar ou a minimizar. Sem saber sequer qual é o ponto de partida. Talvez essa seja a maior inquietação. Não o que sabemos, mas o que já não sabemos. Sabemos sequer o que temos que saber?
Numa semana em que o mundo parece perder-se, encontrei uma pequena centelha de sentido numa história simples. Uma portuguesa que regressa a casa, às suas raízes, para celebrar as bodas de ouro de um tio muito querido. Naquele momento, naquela pequena igreja em Paredes, em Portugal, está tudo. Não é apenas a celebração de um casamento. É a celebração de um caminho. De uma vida. De uma promessa cumprida no tempo. Fala-se de amor, de família, de paz, de fé. Mas fala-se também de legado. Do legado de uma geração de homens bons, que tentaram fazer o seu melhor, que protegeram as suas famílias, as suas comunidades.
E ali, naquele espaço simples, percebe-se o essencial. Percebe-se que houve quem fizesse o seu caminho com consistência. Que houve quem escolhesse ficar, cuidar, construir. Se o casamento é a promessa de um caminho, a celebração das bodas de ouro é a prova de um caminho feito. É prova de fé, de vida partilhada, de uma fonte de amor que não secou com o tempo, antes se tornou mais funda, mais serena, mais verdadeira. Num mundo em que tantas vezes nos perguntamos viver para quê, talvez a resposta esteja aqui: viver por amor, para o amor, do amor.Amor concreto. Amor vivido. Amor que não aparece nas notícias, mas que sustenta tudo o resto. As bodas de ouro não celebram apenas o tempo. Celebram a permanência. Lembram-nos que o amor verdadeiro não é apenas sentimento, é decisão, é cuidado, é recomeço. Por isso continua a ser sinal.Num mundo em que já não sabemos para onde vamos, talvez o que nos resta seja isto.
Esta é a bússola.
A que nos orienta agora e sempre. Talvez seja isso que ainda nos salva. Num mundo que cai, aquilo que permanece.
Como sempre… Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




