19 de abril de 2026
Depois de ganhar as eleições de forma épica , veio o artigo do perfil de Péter Magyar no The Guardian desta semana que o apresenta como aquilo a que chamam, em inglês, um “black horse”, uma figura inesperada, difícil de prever, que emerge fora dos circuitos tradicionais e conquista atenção num contexto de desgaste político.
Artigo Exclusivo para subscritores
A expressão não é inocente. Um “black horse” não é apenas uma surpresa. É alguém sobre quem se projeta potencial precisamente porque ainda não está totalmente definido. É nesse espaço de indefinição que o artigo constrói a sua narrativa.
Magyar surge como um homem de contradições. Antigo próximo do poder que agora contesta, crítico feroz de um sistema do qual fez parte, figura emocional, por vezes descrita como volátil, com posições ainda pouco claras em matérias estruturais. Ainda assim, nada disso o desqualifica. Pelo contrário, alimenta o interesse. Mas tendo em conta os últimos anos, esta descrição faz lembrar alguns que ascenderam ao poder e que se tornaram pesadelos !
Há, neste artigo que refiro, uma oscilação constante entre desconfiança e fascínio. O seu mau feitio, a intensidade, a agressividade retórica, não surgem como obstáculo definitivo, mas quase como um traço de autenticidade. Como se a irritação fosse sinal de verdade e a inconsistência promessa de movimento. Ora, isto não vos lembra nada ?!
Mais que a análise política, é a parte cultural das figuras do “poder “ que me intriga .
Porque esta margem de tolerância em relação a estes “actores” não é neutra.
O arquétipo do homem imperfeito, impulsivo, até contraditório, mas ainda assim visto como potencial líder, está profundamente enraizado. É o rebelde, o reformador improvável, o homem que erra mas avança. Um modelo antigo, repetido, reconhecível e, por isso, facilmente aceite.
A pergunta impõe-se. E se fosse uma mulher?
Se fosse descrita como volátil, emocional, ambígua nas suas posições, com um passado ligado ao poder que agora critica, seria lida da mesma forma? Ou a narrativa mudaria de tom, tornando-se menos indulgente, mais desconfiada, mais centrada na sua credibilidade do que no seu potencial? Eu já imagino a longa lista de insultos que seriam usados ….
Ao ler o artigo, fica a sensação desconfortável de que o mundo mudou menos do que gostamos de acreditar. Continua a ser, para já, um homem no centro da expectativa. Um homem que, em jovem, admirava o líder que agora simbolicamente desafiou e derrotou. Um novo homem sobre quem, curiosamente, pouco se discute em relação à sua posição face às mulheres, como se essa ausência também fosse tolerável.
E há algo quase irónico na forma como é descrito. No essencial, como alguém com mau feitio.
Mas é precisamente aqui que convém uma reflexão sobre este ponto em concreto . Há uma linha muito ténue entre coragem e calhordice, como sabem. Entre o uso da emoção como forma de libertação e o uso da emoção como instrumento de manipulação. E essa linha nem sempre é evidente. É difusa, muitas vezes desconfortável, e exige mais do que entusiasmo, exige discernimento. A emoção é um veículo , a índole o que a move! O foco deve ser na índole e no carácter.
Não podemos confundir dizer o que se tem a dizer com fazer do excesso uma estratégia. Nem tomar o ruído por liderança. Mas nunca pensar que o “polimento “ e a diplomacia é sinónimo do bem por si só. São tantas as expressões populares que nos lembram disto . Os “lobos em pele de cordeiros por exemplo “ .
E talvez seja por isso que esta figura surge como um “black horse”. Não apenas porque é inesperado, mas porque ainda não sabemos de que lado dessa linha se posiciona além das promessas de mudança.
E aqui , permito-me um desabafo, com uma nota de humor que também é preciso.
Sendo mulher, sendo cada vez mais uma mulher do Norte de Portugal, e vivendo num país frequentemente descrito como direto, reconheço que este alegado “mau feitio “ pode ser problemático. Mas há uma diferença fundamental que importa preservar.
Dizer o que se tem a dizer não é falta de medida. É escolha. É coragem.
É falar quando outros se calam. É expor aquilo que muitos reconhecem, mas poucos verbalizam. E é curioso como, depois, surgem sempre os ecos. O “sim senhor, tem razão ”. Mas até ali, ninguém disse nada, andou tudo caladinho. O silêncio do polimento que não é sofisticação, que é disfarce. E, muitas vezes, esse disfarce serve apenas a cobardia e a manutenção de uma aparência confortável.
Mas também é verdade que nem toda a frontalidade é virtude. Nem toda a emoção é legítima. E é aqui que entra aquilo que falei atrás , a índole.
O que se faz com a emoção? Para quê? Ao serviço de quê?
Num tempo em que a falta de liderança permite que a apatia de uns abra caminho ao autoritarismo de outros, esta pergunta torna-se central.
Resta esperar que este “black horse” não seja apenas expressão, mas direção. Que não seja apenas reação, mas construção. Que a sua energia não se limite a mobilizar, mas seja capaz de transformar.
Porque, no fim, mais do que o homem, importa o momento.
E esse momento é claro. Foi um grito. Um país que, de forma inequívoca, rejeitou o peso de um sistema prolongado, com traços de autoritarismo que muitos já liam como uma forma de ditadura moderna. E foi uma derrota para o Trumpismo e o seus amiguinhos “do mal “.
Este “black horse” pode ainda ser uma incógnita.
Mas o que já não é incógnita é a vontade de mudança.
Esperemos que, desta vez, conduza à liberdade.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
Declaração de responsabilidade: Todas as opiniões e reflexões expressas nos textos, entrevistas ou publicações da autora são estritamente pessoais. Não devem ser entendidas como representando posições oficiais de qualquer organização, empresa ou instituição com as quais mantenha ligação profissional ou institucional. Embora desempenhe diversos cargos de liderança, consultoria e direção, as suas reflexões pessoais permanecem independentes e não devem ser atribuídas a essas entidades.
Por Marisa Monteiro Borsboom




