31 de maio de 2026
Ao longo desta semana deparei-me com quatro peças que, embora provenientes de universos completamente diferentes, acabaram por se cruzar na minha cabeça de forma quase inevitável.
Artigo Exclusivo para subscritores
A primeira foi a Encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial.
A segunda foi um documentário da VICE News sobre o futuro da guerra. Não se trata de um exercício especulativo nem de ficção científica. São militares, estrategas e especialistas a descrever, na primeira pessoa, a transformação em curso dos sistemas de defesa, das capacidades operacionais e da própria natureza do conflito armado.
A terceira foi uma notícia que me parece ter passado relativamente despercebida no fluxo incessante da atualidade: a Coreia do Norte a anunciar progressos na integração de inteligência artificial em sistemas de orientação e capacidade militar.
E a quarta nasceu num contexto muito diferente.
Durante uma palestra em Amesterdão, no lançamento do livro Leading with Human Skills: Thriving in the Age of AI, foi-nos lançado um desafio simples: desenhar a forma como vemos a relação entre a inteligência artificial e o nosso futuro.
O próprio livro é uma reflexão sobre cinquenta competências humanas consideradas fundamentais para prosperar numa era cada vez mais moldada pela inteligência artificial. E isso, por si só, já me pareceu interessante. Porque enquanto uma parte do debate público insiste em perguntar o que a inteligência artificial será capaz de fazer, este livro procura perguntar o que continuará a ser importante que os humanos saibam fazer.
Peguei numa folha e comecei a desenhar.
O resultado foi aquilo que se pode esperar de alguém sem qualquer talento artístico.
Mas a ideia estava lá.
Por brincadeira, decidi depois recorrer à inteligência artificial para transformar aqueles rabiscos numa imagem mais próxima daquilo que eu tinha imaginado.
E foi aí que aconteceu algo curioso.
O meu desenho inicial era dominado por aquilo a que chamo o “efeito Sarah Connor”.
Quem cresceu nos anos 80 e 90 dificilmente escapa ao imaginário do Exterminador Implacável. A ideia de máquinas que escapam ao controlo humano faz parte do nosso património cultural. Crescemos rodeados por futuros distópicos, por inteligências artificiais hostis e pela permanente sensação de que a tecnologia acabaria por se virar contra nós.
No meu desenho havia precisamente isso: uma Sarah Connor armada com uma “boa IA”, pronta para enfrentar uma “má IA”.
Mas quando a inteligência artificial reinterpretou os meus rabiscos aconteceu algo inesperado.
A narrativa mudou.
A luta entre humanos e máquinas transformou-se numa visão de ampliação humana. Surgiram conceitos como curiosidade, aprendizagem, empatia, propósito, impacto e ligação entre pessoas.
Em vez de um ser humano substituído, apareceu um ser humano aumentado.
Curiosamente, só mais tarde, ao assistir ao documentário da VICE News, voltei a ouvir referências ao Exterminador Implacável. Afinal, aquilo que durante décadas pertenceu ao território da ficção científica começa lentamente a entrar nas conversas dos estrategas militares, dos governos e das grandes potências.
Foi nesse momento que percebi porque estas quatro peças se tinham juntado na minha cabeça.
O documentário da VICE mostra-nos para onde o pensamento militar está a caminhar.
A notícia da Coreia do Norte recorda-nos que esta corrida já não pertence apenas às grandes potências tecnológicas ou aos laboratórios de investigação. Está a entrar numa nova fase, mais imprevisível e potencialmente mais perigosa.
E a Encíclica surge quase como um contraponto civilizacional, perguntando aquilo que poucos parecem querer perguntar: quem estabelece os limites? Quem define as regras? Quem protege a dignidade humana quando a velocidade tecnológica ultrapassa a velocidade da reflexão ética?
Talvez seja precisamente aqui que reside a questão.
Durante anos falámos de inteligência artificial como ferramenta de produtividade, inovação ou transformação económica. Tantas promessas …
Hoje começamos a vê-la (de forma pública), integrada em sistemas militares, infraestruturas estratégicas, processos de decisão e mecanismos de poder. E quando olhamos para regimes como o da Coreia do Norte, não estamos apenas perante mais uma notícia tecnológica. Estamos perante a possibilidade de assistir à amplificação tecnológica de um dos regimes mais opacos, imprevisíveis e militarizados do planeta.
Se a Coreia do Norte já representava um desafio à estabilidade internacional, a perspetiva de uma Coreia do Norte aumentada por inteligência artificial deveria merecer muito mais atenção do que aquela que parece estar a receber.
Não se trata de alarmismo.
Trata-se de reconhecer que algumas das tecnologias mais poderosas da história humana estão a entrar num contexto geopolítico marcado por rivalidades, desconfiança, corrida armamentista e crescente fragmentação internacional.
Mas houve ainda outra reflexão desta semana que me ficou na memória.
Assisti recentemente a uma entrevista com uma investigadora especializada nestas matérias. Não recordo neste momento o seu nome e prefiro não o mencionar sem confirmação, mas a ideia que partilhou pareceu-me particularmente importante.
Ela defendia que devemos ter cuidado com a forma como falamos do futuro.
Porque muitas das afirmações que ouvimos diariamente não são factos.
São projeções.
São cenários.
São hipóteses.
São narrativas.
São histórias que nos contam …
Ouvimos frequentemente que os humanos serão substituídos. Que determinadas profissões desaparecerão inevitavelmente. Que certas transformações são irreversíveis. Que este ou aquele cenário é inevitável.
Mas a verdade é que o futuro ainda não aconteceu.
Voltarei a encontrar a real entrevista e voltarei a falar dela. Que termina a dizer que, existe um risco real quando projeções passam a ser apresentadas como certezas.
Porque as narrativas têm poder, e muito . São os “prompts” das nossas mentes!
Por vezes, têm tanto poder que acabam por moldar comportamentos, decisões políticas, investimentos e expectativas sociais.
E algumas acabam mesmo por se tornar realidade não porque fossem inevitáveis, mas porque deixámos de acreditar que existiam alternativas.
Talvez uma das grandes batalhas do nosso tempo seja precisamente essa.
A batalha pelo pensamento crítico.
A capacidade de distinguir previsão de destino.
Cenário de inevitabilidade.
Tecnologia de ideologia.
Porque não estamos condenados.
O futuro não está escrito.
O futuro continua a ser uma construção coletiva feita de escolhas humanas e de laços humanos.
E talvez seja também por isso que continuo a escrever esta coluna.
Não porque acredite que uma crónica muda o mundo.
Mas porque acredito que nunca devemos subestimar o impacto de uma ideia, de uma reflexão ou de uma conversa no momento certo.
Mesmo que chegue apenas a uma pessoa.
Talvez seja eu própria, um lembrete necessário e continuo. Quase uma prece.
Porque escrever também é uma forma de me recordar daquilo em que continuo a acreditar: que ainda temos escolha sobre o mundo que estamos a construir. Vistas em conjunto, estas quatro peças parecem falar menos sobre tecnologia e mais sobre humanidade.
Menos sobre inovação e mais sobre poder.
Menos sobre o futuro e mais sobre as escolhas que estamos a fazer agora.
Porque a pergunta mais importante continua a não ser aquilo que a inteligência artificial consegue fazer.
A pergunta mais importante continua a ser aquilo que nós escolhemos fazer com ela e com tudo o resto .
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




