28 de junho de 2026
Escrevo hoje, sábado, estas palavras, que vos chegarão amanhã. Ontem não consegui fazer nada. O calor apanhou-me!
Artigo Exclusivo para subscritores
Mas ao ver hoje de manhã duas reportagens sobre o calor e sobre como os ingleses viveram esta semana, resolvi escrever sobre este tema. Uma das reportagens mostrava uma emissão de um canal francês de há 12 anos atrás. Era uma previsão meteorológica imaginária para o ano de 2050 que mostrava o mapa de França em laranja e vermelho, num futuro que mais parecia ficção científica. Falava de temperaturas extremas na Europa como se fossem uma inevitabilidade, mas esta semana o mapa estava exatamente assim! 2050 chegou em 2026.
Ontem, sexta-feira, senti-me verdadeiramente mal. Não estava apenas cansada nem desconfortável. Senti-me doente. Com o calor, a humidade e vários dias seguidos sem alívio, houve momentos em que me preocupei genuinamente com a minha própria saúde.
Esta semana bateram-se os recordes de 1976 e eu, que nasci depois disso, entendo agora em pessoa o que isso significa. É uma vida inteira, a minha, sem temperaturas destas por estes lados onde agora vivo. E se na minha terra, entre as montanhas do Marão, tínhamos muito calor, é um facto, não tínhamos esta humidade. O meu corpo não gosta claramente desta combinação de temperaturas altas e húmidas.
Hoje já se respira melhor e vamos ter mais uma tempestade. Mas foi também hoje que acompanhei uma extraordinária reportagem da BBC sobre a onda de calor que atingiu o Reino Unido. O que mais me impressionou foi que a história não era sobre temperaturas. Era sobre pessoas.
Falava de crianças com necessidades especiais que não conseguem regular a temperatura corporal. Falava de idosos que ficam desidratados mais rapidamente, que perdem o equilíbrio, que ficam mais confusos. Falava de pessoas com problemas cardíacos ou respiratórios para quem alguns graus a mais podem fazer toda a diferença.
A certa altura percebi uma coisa simples: nós continuamos a pensar no calor como uma questão de conforto. Os médicos já o tratam como uma questão de saúde pública.
Depois vieram os números. Serviços de ambulâncias a receber milhares de chamadas adicionais. Hospitais a declarar situações críticas. Equipas médicas sob enorme pressão. Não porque tivesse acontecido uma catástrofe súbita, mas porque o calor foi agravando silenciosamente problemas já existentes.
O mais curioso é que a temperatura, por si só, não explica tudo.
Os meteorologistas insistiam na humidade. Quanto mais humidade existe no ar, mais difícil se torna para o corpo arrefecer através da transpiração. Foi exatamente isso que senti. Não era apenas calor. Era uma sensação de peso constante, de cansaço, de falta de energia. Como se o corpo estivesse permanentemente a trabalhar para manter o equilíbrio.
E se gosto de ver os raios nos céus, as tempestades, com mais de vinte e nove mil relâmpagos registados no sul de Inglaterra, casas atingidas e incêndios provocados por descargas elétricas, não são assim tão inofensivas. É curioso como muitas pessoas pensam que calor e tempestades são fenómenos opostos. Na realidade, muitas vezes fazem parte da mesma história. O calor acumula energia. Mais cedo ou mais tarde essa energia encontra uma forma de se libertar.
Mas o calor afeta tudo.
Os caminhos-de-ferro, as linhas elétricas, o asfalto a derreter e, na Escócia, imaginem, os camiões normalmente utilizados para espalhar sal durante o inverno estavam a espalhar areia em pleno verão para proteger o alcatrão das estradas.
Confesso que essa imagem me ficou na cabeça. Na Escócia, a terra da chuva e do frio!
Entretanto surgiam outras histórias. Pessoas a procurar alívio em rios e lagos. Operações de resgate. Afogamentos. Pais preocupados com bebés recém-nascidos.
Adaptarmo-nos às alterações do clima não significa apenas construir reservatórios ou mudar infraestruturas. Significa alterar hábitos. Horários. Rotinas. Pequenas decisões do quotidiano. Por estes lados vão ter que se adaptar ao calor. Nós, em Portugal, do calor conhecemos bem, mas teremos que nos adaptar às tempestades para as quais não estamos preparados.
A certa altura, na reportagem da BBC, uma especialista do Met Office disse uma frase que me ficou gravada: os avisos meteorológicos já não são emitidos apenas com base na temperatura. São emitidos com base no impacto.
Impacto. A palavra é mesmo essa.
Porque a questão deixou de ser quantos graus estão lá fora. A questão é o que esses graus provocam e cada região terá desafios distintos.
Esta semana bateu-se mais um recorde. Depois outro. E depois outro ainda. Houve noites tropicais, com temperaturas acima dos vinte graus durante toda a noite. Houve incêndios. Houve restrições de água. Houve hospitais em alerta.
Mas talvez a verdadeira história não esteja nos recordes. Os recordes são apenas números.
A verdadeira história está nas pessoas que sentiram o calor no corpo, nas cidades que não arrefecem durante a noite, nas infraestruturas construídas para um clima diferente e numa Europa que começa lentamente a perceber que aquilo que parecia pertencer ao futuro já chegou.
E vamos ter que viver com ele.
Que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.
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Por Marisa Monteiro Borsboom




