Quando um cidadão vota, vota na perspetiva da identidade política que se identifica ou no xadrez político do resultado dos votos de todos os eleitores? O cidadão vota a favor do seu interesse, convicção ou fantasia, ou é apenas uma formiga cujo voto individual se dilui no xadrez da totalidade de votos do formigueiro?
Eu, a minha irmã, o meu vizinho, a pessoa que atendo no meu trabalho, a que lê o que escrevo, somos uma identidade única ou um super-organismo, ou melhor, um supra-eleitor? Creio que qualquer um de nós se ache senhor da sua consciência e das suas ações, e desde logo do seu voto.
É por isso que com surpresa, e até riso, oiço e leio os comentários de políticos que falam da vontade expressa dos portugueses nas eleições, sobretudo quando falamos das forças que não venceram. Quando se perde, muito autarca derrotado, mas eleito, anuncia que os eleitores escolheram que essa força fizesse parte da oposição. Não me lembro em momento algum quando voto, ter pensado isso.
Se eu como indivíduo tomo uma decisão de voto é porque creio que esta representa o melhor ideário para a minha freguesia, concelho ou país. Voto numa força ativa, assertiva e colaboradora, e não numa versão reacionária, subtil e isenta de poder efetivo de decisão. E é por isso que quando eu ou outros votam, muitas vezes em forças políticas minoritárias, mas que relembro, representam quem as elegeu, saúdo a coragem dos que, eleitos, tendo ganho um mandato que é SEU, e que, apesar das suas lideranças os quererem impedir, assumiram e vão assumir funções como vereadores com pelouro.
Discursos como o de Manuel Pizarro no Porto, de que existe uma visão (quase de supra-eleitor) de que, no seu caso o PS, deve ser oposição e não assumir o seu mandato são prova do que mais importante do que o servir é o taticismo. Mais grave isso se torna quando nos referimos a partidos novos que querem estabelecer as suas ideias e se implementar no tecido político local, e que defendem a liberdade individual, mas que na demanda populista estabelecem linhas vermelhas aos seus candidatos, retirando-lhes a confiança política quando estes assumem o mandato que lhes foi confiado.
Escrevo pois, a propósito da decisão iliberal da Iniciativa Liberal de retirar a confiança política a Eunice Baeta em Sintra por essa aceitar integrar o executivo de Marco Almeida (PSD mas com coligação CDS/IL) por esse último ter feito acordo com o Chega para ter maioria absoluta na Câmara. Não sou de Sintra, no entanto, enquanto eleitor sendo eu Liberal ideológico, se votasse na IL, votaria para que o vereador eleito me representasse e não para estar refém de decisões nacionais que desrespeitam a minha decisão
local. Um partido deve ter as suas hierarquias nacionais, mas sem esquecer que uma eleição local não é nem nunca poderá ser uma eleição com sentido e leituras nacionais. Os grandes partidos da governação têm falhado constantemente nessa visão da política autárquica, minorando a soberania local em prole de termos um vencedor nacional de uma eleição local. Vemos e lemos isso na forma como nos media apontam um vencedor e um derrotado mas supreende-me como num partido pequeno e alternativo à visão política da mesmice, que eu entenderia como reformador, ter uma igual visão de prisão ideológica que rejeita a real vontade e poder locais.
É triste ver um partido da liberdade individual, tragar a liberdade de um elemento seu, inclusive da sua direção, de exercer a sua vontade política em prole do puritanismo. Não tenho qualquer simpatia pelo Chega, seja pela sua agenda de guerrilha que pretende colocar etnias, classes, públicos e privados uns contra os outros, mas sobretudo não gosto de um partido que não tenha qualquer ideia nova de Reforma para o país e, isso sim, é e deve ser o principal ataque ao Chega bem como a sua marginalização que faz do poder local, quando a sua número um – Rita Matias – subalterna o seu lugar de eleita, para os 2 seguintes da lista, mantendo o seu lugar como deputada nacional, o que é um bom atestador do modo como queria servir a Sintra; porém, mais idiota consegue ser, essa ideia de marginalizar tais elementos do Chega ao poder local, quando isso os iria, efetivamente, os responsabilizar e mostrar se são competentes ou não, afastando-os da demagogia, que numa oposição sem trabalho, facilmente poderiam fazer.
A melhor maneira de mostrar que um organismo não tem coluna vertebral é dar-lhe algo que precise de sustentar. Se de facto não tiver suporte de ideias ou de aptidões cederá pela ausência de coluna, ou talvez até surpreenda. Se não o deixar exposto ao fogo da responsabilização, tal nunca será posto à prova ou conhecido. Será apenas demagogia contra demagogia. Será apenas iliberalismo sem responsabilidade. Será enfim, esperar liderar sem se perceber que alianças se fazem com inimigos e não com os que pensam igual, como se autores como Sun Tzu, Maquiavel, entre tantos outros, nunca tivessem existido.
Hoje parece que a ideologia é feita em função do mundo ideal e não do mundo real, e mais grave ainda, sem carga intelectual, sem conhecimento do que os Autores e a História nos deixaram. Podia ter escrito a propósito de vários casos pelo nosso país fora, em que eleitos preferem, pela sua posição ou imposição das suas lideranças, não exercerem pelouros mas optarem pelo caminho mais fácil de oposição com
direito a voto e a bloqueio, usando a visão resultadista de oposição e não a visão individualista de representação. Se um eleito não me representa, quem me representará. Se um eleito não assume a sua responsabilidade, porque deverei eu assumi-la. Cabe a um eleito ser como Sócrates (não o José mas o grego) e sair à rua para mesmo perante opositores, juntos chegarem a conclusões comuns, com a intervenção do Outro, o que se opõe, mas que também se Alia, a dar à luz ideias (mas também soluções e caminhos). Cabe aos partidos urgentemente entenderem que somos eleitores e não supra-eleitores, de que somos indivíduos e não superorganismos, e de que afinal de contas a conversa de descentralização é apenas mais do que uma moda, mas uma filosofia e um projeto.
Autor: Pedro Miguel Santos



