Luzes, Câmara, Ação: Iniciámos esta entrevista numa espécie de “shooting a story” entre palavras, sons das memórias passadas e imagens que se vêm estáticas ou dinâmicas, dependendo do que é apresentado. Perguntamos ao realizador Tiago Pereira, o porquê esta escolha profissional, ao que nos devolve com uma pergunta: “É uma questão complexa, mas porquê realizador? Porque sempre gostei de contar histórias”, revela-nos sem grandes ficções: O seu pai era músico de teatro, quando era pequeno. Logo a seguir ao 25 de Abril, cresceu a ver as peças da “Barraca”, vi-a muitos ensaios, e o teatro foi uma influência, apesar de não ser muito admirador. Mas foi crucial para o que viria a ser o seu futuro.
Sempre teve muito interesse pelo som. Gravou som, como quem grava uma tatuagem no corpo, é para a eternidade. Quando era pequeno, colocava-se no meio de uma sala, ou no meio de um café onde houvesse várias pessoas a conversar para tentar perceber quantas pessoas conseguia escutar ao mesmo tempo, sem perder a narrativa. Já se antevia um especialista na área.
Sempre teve fascínio pelas histórias e sempre contou histórias e quando andava no ensino preparatório, para entreter as caminhadas a pé, nas visitas de estudo, inventava histórias e partilhava com os seus colegas, dizendo-lhes que ia com o seu pai para tribos de pigmeus em África. Era tudo ficção, mas esses momentos criavam uma narrativa, que depois perdurou.
“Com a ideia do som, já desmistificada, esteve sempre muito presente em mim” desabafa. Contar histórias! “O meu primeiro grande filme, venceu o primeiro prémio nos encontros de cinema da Mala Posta em 1998” Revela.
Era um filme no qual “descobri um homem que cantava, trauteava em Odeceixe e que imitava o som dos acordeões. Gravei o homem à porta de sua casa.” Falava umas narrativas estranhas sobre o quanto gostava de concertinas… “o som era de tal forma forte que eu não tinha imagens, só tinha som e, lembrei-me que tinha gravado com uns amigos um filme só com imagem, sete meses antes, no Carvalhal, ao pé da Comporta. Era um homem que vivia sem água e sem luz, no meio dos arrozais. Só tínhamos imagem não havia som e então tive a ideia e coloquei uma imagem, sobre outra imagem, e fez-se uma “descoberta”!. A partir daí nasceu a ideia de poder contar histórias sempre jogando com os opostos do som e da imagem, destaca Tiago Pereira.
Nasce o realizador
Revela-se realizador. Estudou na Escola Superior de Imagem, mas deixou, foi para o Conservatório de Cinema, para a Escola Superior de Cinema, mas só fez o primeiro ano e seguiu o seu rumo: foi fazer filmes sonoros.
Quais foram esses primeiros passos desses filmes sonoros? Foram realizados onde e em que contexto?
“Eu sempre fiz coisas pela vontade.” Salienta Tiago. Quando estava a trabalhar na Expo 98 tinha um microfone e um mini disc e gravava os sons com esse equipamento (agora rudimentar), só mais tarde, em 2000, é que teve a sua primeira Câmara de filmar, pegou nela e foi pela primeira vez para Trás-os-Montes.
Levava sempre na ideia de experimentar fazer os sons, muitos dos seus filmes, montava primeiro o som em estúdio, misturava tudo com o técnico, e só depois é que sincronizava a imagem. “É uma forma complexa de explicar…pois o filme completo em som, havia partes que não tinham sincronia e tinha que inventar e muitas delas, até teve de ir filmar para sobrepor aquele som específico. Sincronizava os sons todos, filmava o que era necessário para completar essa parte”. Pensamentos de realizador.
Fazia o inverso, primeiro captava o som e depois adaptava a imagem. É isso?
“Não fazia o inverso, gravava as duas coisas ao mesmo tempo, mas quando ia montar, primeiro era o som em vez da imagem, ou seja, misturava primeiro o som sem ver a imagem e só depois é que sobrepunha a imagem.
É uma técnica diferente? Pergunta de retórica. “É uma técnica”, que muita gente pode aplicar. Para o realizador fazia sentido porque como os seus filmes, eram essencialmente sonoros. Permitia-lhe fazer narrativas no estúdio “que não tem as regras dos 25 frames por segundo, pode ir a décimas ou a centésimas de segundos e isso fazia com que, de certa forma, tivesse uma liberdade maior sonora, para criar.” Constata.
Porque o som o que cria é sempre uma espécie de viagem. Faz-nos viajar. A imagem é concreta, vemos um cão, e é um cão. O som não, podemos ouvir um cão a uivar misturado com o vento e com outros sons. Permitindo imaginar, viajar. Que era precisamente o que Tiago pretendia. Queria ter essa componente de viagem onírica nos seus filmes.
A vida académica, fica para trás
“O que me fez fazer isso?” Coloca ao entrevistador como se tivesse conhecimento do seu passado, de há muito tempo deixado para trás. E prossegue: “quando fui para a escola, já queria filmar. Tinha a ideia de querer fazer filmes, mas o que eu queria, era contar histórias. Precisava da liberdade. E a Escola Superior de Cinema era uma escola que essencialmente formava técnicos”, e “castrava-lhe” esse sonho de criança.
“Não queria ser técnico!”, revela em jeito de reclamação: “eu sempre tive essa ideia de que acima de tudo, era um artista que queria dizer coisas ao mundo e contar histórias. As minhas histórias,” não tinham que ser necessariamente feitas através do cinema ou através da imagem ou do som. Podia ser tudo misturado e incluir outros elementos, como por exemplo, desenhos. Pretendia ser criativo e dessa criatividade se estender a muitos géneros. Por esse motivo não queria ficar preso num só registo. A escola formava técnicos, não pessoas para serem artistas. Formava técnicos de cinema ou técnicos de audiovisuais; montadores; operadores de câmara; diretores de fotografia; diretores de som, ou diretores de produção. Não havia uma cadeira específica para as pessoas serem realizadores”, enfatiza o realizador Tiago Pereira.
O artista dentro de si
Eu tinha essa necessidade de criar. Isso é o mais importante. Uma pessoa que precisa de dizer alguma coisa ao mundo e quer contar histórias…
Se tem um microfone, tem um microfone e conta histórias através do som. Se tem uma Câmara, conta histórias através das duas componentes, mas o objetivo principal é contar histórias. Não ficar preso, no modelo, no género.
O seu trabalho centra-se mais em Portugal e ou também já fez trabalhos que se repercutiram a nível Internacional?
O trabalho de Tiago já ultrapassou fronteiras, físicas e intelectuais. No presente grava pessoas, e já “gravei pessoas noutros sítios que não só em Portugal”. Gravou pessoas em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, em Itália, na Inglaterra, em muitos sítios. E faz questão de gravar as pessoas sempre no seu contexto. E dessa forma, repercutiu para outras geografias. Ganhou prémios internacionais com os seus filmes, que foram feitos em Portugal. De salientar: “11 Burros Caem No Estômago Vazio”, um filme sobre a relação das pessoas e dos burros em Trás-os-Montes, “vencemos o prémio do Doc Lisboa em Portugal em 2006 e depois em 2007 conseguimos o prémio do Festival Etnográfico em Budapeste. Foi muito bom!”
Fazer mais…
No entendimento de Tiago Pereira “considero que não realizei nada, ou seja, já gravei muitas pessoas, já fiz muitos filmes, mas continuo a pensar que ainda não fiz “a Obra”. Não fiz a aquilo que se pode dizer que é cinema. Sempre pensei que um dia havia de fazer um filme que era o meu filme, a minha forma de ver o mundo através do cinema, e ainda não aconteceu, espero que um dia aconteça.”
Qual é a história a contar?
Tiago Pereira não é um realizador “tradicional” sai da zona de conforto e procura estimular sensações através dos sons e de imagens e faz mesclas, que não são percetíveis à primeira. “Não é propriamente uma história” revela-nos, “mas tem a ver muito com a memória e com a necessidade de guardar, memórias. Agora, como é que isso vai ser feito e que história é que se desenvolve, não faço a mínima ideia.” Diz-nos desprendido das palavras.
Manoel de Oliveira
De relance vem um: “Sim”. Gosta do grande Mestre. Manoel de Oliveira, viveu muitos anos e tem um obra muito vasta. Toca em muitos sítios e tem muitos filmes, só para citar: “Douro, Faina Fluvial” de 1931, ou “O Pintor e a Cidade” de 1956, que são filmes que Tiago considera que são muito bonitos e muito importantes, e que têm um certo lado etnográfico neorrealista muito importante que gosta particularmente.
Para além da Manoel de Oliveira
“Identifico-me com muitos. Não há um realizador específico. Há muitos realizadores que marcaram as pessoas quando era mais novo.” Quando estava a começar a estudar cinema, nomes sonantes, muito fortes, como o Abbas Kiarostami ou Nanni Moretti, que nessa altura estava dar passos no seus filmes, o “Palombella Rossa”, filme italiano de 1989, ou o “Querido Diário, também de Moretti. Mas há muitos realizadores, filmes muito importantes. Os grandes realizadores americanos, que faziam coisas diferentes, como John Nicholas Cassavetes, entre outros.
Já se imaginou trabalhar noutro país e ficar lá por alguns anos?
Um artista tem de viajar, experiênciar o mundo, e Tiago Pereira não é exceção. Esteve dois anos a viver na República Checa, e fez alguns trabalhos artísticos. E já se imaginou a viver lá fora, “mas claramente sou uma pessoa que gosta de viver em Portugal”. Desbobina os seus argumentos.
Um final que gostaria dar a esta entrevista?
“Não sei, não sei! Estas entrevistas devem ser sempre em contínuo. O trabalho das pessoas em contínuo. Eu sou sempre assim. Acho que é por isso que nunca ainda não fiz “O Filme”, porque vejo sempre as coisas difíceis de encerrar. Penso que está tudo sempre em aberto. Por exemplo a pintura, um pintor, pode pintar o mesmo quadro durante 20 anos e pinta e raspa e destrói e pinta por cima e vai pintando. Enquanto nestas artes, como o cinema é muito mais difícil, pode-se montar um filme 10 anos, mas ninguém vê o filme! só o realizador. Por isso ficava mais contente se esta entrevista não pudesse ter fim.” Diz-nos o realizador que está sempre em contínuo, a pensar o que pode fazer mais e mais, como uma espécie de “loop”, mas com imagens e sons diferentes.
O que podemos dizer mais? To be continued, pode ser uma sugestão. Mas chegamos tecnicamente ao Fim.




